Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Economia e Negócios
Com jeito de bolha

Fusões bilionárias e o crescimento alucinante
de 7,2% do PIB trazem de volta aos EUA o
clima de exuberância dos anos 90


Chrystiane Silva


AP
O presidente do Bank of America, Kenneth Lewis, e Charles Gifford, do Fleet (à esq.)

Foi uma semana como não se via na economia americana desde os tempos da "exuberância irracional" nos anos 90. Na segunda-feira, o mercado foi arrebatado por meia dúzia de megafusões de empresas, com os negócios chegando a mais de 100 bilhões de dólares. O destaque foi a compra do FleetBoston Financial pelo Bank of America, o BofA, por 47 bilhões de dólares, a serem pagos em ações. A transação, a terceira maior da história bancária americana, criou o segundo maior banco dos Estados Unidos, atrás apenas do Citigroup. Na quinta-feira, o governo anunciou que o produto interno bruto (PIB) cresceu a uma taxa anualizada de inacreditáveis 7,2% no último trimestre, um desempenho de que não se tinha notícia havia duas décadas. Crescimento acelerado do PIB e aumento das fusões e compras de empresas são sintomas clássicos de momentos em que o capitalismo americano esbanja saúde. As duas maiores fusões bancárias ocorreram no miraculoso ano de 1998, quando a exuberância do mercado parecia não apenas racional, mas duradoura. Naquele ano, o Travelers fundiu-se com o Citicorp em um negócio de 80 bilhões de dólares e o NationsBank uniu-se ao BofA a um custo de 62 bilhões de dólares.

"As fusões são a prova de que há confiança total na recuperação da economia americana", disse Charles Gifford, o número 1 do FleetBoston, que pelos próximos dois anos, antes de sua planejada aposentadoria, vai comandar o BofA. A aposta das fusões só se justifica do ponto de vista econômico quando há perspectiva de crescimento econômico. Mais de 60% das fusões feitas durante a década de 90 deram errado quando a economia esfriou. As ações do BofA perderam 10% de seu valor logo depois de anunciada a transação da semana passada, um mau presságio do mercado, que parece não acreditar tanto quanto os banqueiros no sucesso do negócio e nas perspectivas da economia americana. Como sempre, à fusão se seguem os cortes de custo. A meta de corte de custos até 2005 do banco que acaba de ser formado é de astronômico 1,3 bilhão de dólares. Isso equivale a 30% do total de gastos de todo o FleetBoston. Um executivo brasileiro, Alex Zornig, vice-presidente de finanças do BankBoston, deverá ter papel de destaque na operação de enxugamento. No fim do ano passado, Alex, o "Mãos de Tesoura", recebeu a missão de diminuir custos do FleetBoston, controlador do BankBoston. Até agora, Zornig já revisou 55% desses custos e identificou uma redução potencial de 160 milhões de dólares anuais. Apesar de já ter conseguido reduzir as despesas em 80 milhões de dólares, Zornig ainda enfrenta a resistência cultural dos americanos para implementar algumas medidas. Ele quis cortar até a água quente nos banheiros nos meses de verão, mas houve enorme resistência dos executivos.

Zornig não desiste facilmente. Ele foi responsável pela redução de 18% dos gastos do BankBoston no Brasil. Cortou 45 milhões de reais sem que fosse preciso demitir um único funcionário. "De 15% a 20% das despesas de todas as empresas, excluindo salários, são desnecessárias", diz o Mãos de Tesoura. Zornig é mais um na lista dos brasileiros bons de corte. Carlos Ghosn, presidente mundial da Nissan, assumiu o comando da montadora japonesa, demitiu 21.000 funcionários, fechou cinco fábricas e reverteu um prejuízo de 5,6 bilhões de dólares em 1999 para um lucro de 6 bilhões de dólares no ano passado. Alain Belda assumiu o comando da Alcoa em 1999 e desde então conseguiu reduzir os custos em mais de 1 bilhão de dólares. A estratégia de Zornig foi começar devagar e apelar para a comunicação interna. "A comunicação é o grande ponto desse negócio", observa. Para dar certo, o programa de corte de gastos precisou do exemplo da direção do banco. Os cortes na diretoria acabaram com os carros com motorista da vice-presidência para baixo. Nas viagens, o banco só reembolsa água mineral do consumo de frigobar de hotéis. Apesar do esforço, nem sempre Zornig acertou a mão. Contratou uma empresa de transporte de valores com um preço 20% mais baixo, mas viu o número de fraudes e roubos de malotes aumentar. Voltou para a transportadora anterior, mas antes conseguiu o que queria: um desconto. Os funcionários do BankBoston no Brasil esperam que tanto esforço os ajude a manter o emprego depois da fusão da semana passada.

O BofA já reduziu drasticamente suas operações no Brasil. Em 2001, comprou o Banco Liberal e descobriu um desfalque de 40 milhões de dólares. Em 2002, teve problemas com a gestão de fundos que causaram perdas difíceis de ser explicadas aos cotistas. No primeiro semestre deste ano, o BofA vendeu a área de gestão de recursos ao HSBC. É por isso que restam dúvidas sobre os planos do novo controlador em relação ao BankBoston. O presidente do banco no Brasil, Geraldo Carbone, está otimista. "O BofA vê na franquia latino-americana do FleetBoston uma base potencial para ampliar a presença internacional", diz ele. Nos EUA, Eugene McQuade, executivo do BofA, reforçou a impressão de que pretende manter presença forte na América Latina. Com juros em baixa no Brasil, parece quase certo que a consolidação no setor bancário brasileiro vai recomeçar. Desde 1994, o número de bancos caiu de 247 para 180. Diz Erivelto Rodrigues, especialista no setor bancário e presidente da Austin Asis: "Entre dez e quinze bancos devem ser vendidos ou anexados nos próximos anos. Talvez até algum entre os dez maiores privados do mercado".

 

 


Claudio Rossi



Zornig, do BankBoston: lição brasileira no corte de custos será útil na fusão
 
 
 
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