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Economia
e Negócios
Com
jeito de bolha
Fusões
bilionárias e o crescimento alucinante
de 7,2% do PIB trazem de volta aos EUA o
clima de exuberância dos anos 90

Chrystiane
Silva
AP
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| O
presidente do Bank of America, Kenneth Lewis, e Charles Gifford,
do Fleet (à esq.) |
Foi
uma semana como não se via na economia americana desde os
tempos da "exuberância irracional" nos anos 90. Na segunda-feira,
o mercado foi arrebatado por meia dúzia de megafusões
de empresas, com os negócios chegando a mais de 100 bilhões
de dólares. O destaque foi a compra do FleetBoston Financial
pelo Bank of America, o BofA, por 47 bilhões de dólares,
a serem pagos em ações. A transação,
a terceira maior da história bancária americana, criou
o segundo maior banco dos Estados Unidos, atrás apenas do
Citigroup. Na quinta-feira, o governo anunciou que o produto interno
bruto (PIB) cresceu a uma taxa anualizada de inacreditáveis
7,2% no último trimestre, um desempenho de que não
se tinha notícia havia duas décadas. Crescimento acelerado
do PIB e aumento das fusões e compras de empresas são
sintomas clássicos de momentos em que o capitalismo americano
esbanja saúde. As duas maiores fusões bancárias
ocorreram no miraculoso ano de 1998, quando a exuberância
do mercado parecia não apenas racional, mas duradoura. Naquele
ano, o Travelers fundiu-se com o Citicorp em um negócio de
80 bilhões de dólares e o NationsBank uniu-se ao BofA
a um custo de 62 bilhões de dólares.
"As
fusões são a prova de que há confiança
total na recuperação da economia americana", disse
Charles Gifford, o número 1 do FleetBoston, que pelos próximos
dois anos, antes de sua planejada aposentadoria, vai comandar o
BofA. A aposta das fusões só se justifica do ponto
de vista econômico quando há perspectiva de crescimento
econômico. Mais de 60% das fusões feitas durante a
década de 90 deram errado quando a economia esfriou. As ações
do BofA perderam 10% de seu valor logo depois de anunciada a transação
da semana passada, um mau presságio do mercado, que parece
não acreditar tanto quanto os banqueiros no sucesso do negócio
e nas perspectivas da economia americana. Como sempre, à
fusão se seguem os cortes de custo. A meta de corte de custos
até 2005 do banco que acaba de ser formado é de astronômico
1,3 bilhão de dólares. Isso equivale a 30% do total
de gastos de todo o FleetBoston. Um executivo brasileiro, Alex Zornig,
vice-presidente de finanças do BankBoston, deverá
ter papel de destaque na operação de enxugamento.
No fim do ano passado, Alex, o "Mãos de Tesoura", recebeu
a missão de diminuir custos do FleetBoston, controlador do
BankBoston. Até agora, Zornig já revisou 55% desses
custos e identificou uma redução potencial de 160
milhões de dólares anuais. Apesar de já ter
conseguido reduzir as despesas em 80 milhões de dólares,
Zornig ainda enfrenta a resistência cultural dos americanos
para implementar algumas medidas. Ele quis cortar até a água
quente nos banheiros nos meses de verão, mas houve enorme
resistência dos executivos.
Zornig
não desiste facilmente. Ele foi responsável pela redução
de 18% dos gastos do BankBoston no Brasil. Cortou 45 milhões
de reais sem que fosse preciso demitir um único funcionário.
"De 15% a 20% das despesas de todas as empresas, excluindo salários,
são desnecessárias", diz o Mãos de Tesoura.
Zornig é mais um na lista dos brasileiros bons de corte.
Carlos Ghosn, presidente mundial da Nissan, assumiu o comando da
montadora japonesa, demitiu 21.000 funcionários,
fechou cinco fábricas e reverteu um prejuízo de 5,6
bilhões de dólares em 1999 para um lucro de 6 bilhões
de dólares no ano passado. Alain Belda assumiu o comando
da Alcoa em 1999 e desde então conseguiu reduzir os custos
em mais de 1 bilhão de dólares. A estratégia
de Zornig foi começar devagar e apelar para a comunicação
interna. "A comunicação é o grande ponto desse
negócio", observa. Para dar certo, o programa de corte de
gastos precisou do exemplo da direção do banco. Os
cortes na diretoria acabaram com os carros com motorista da vice-presidência
para baixo. Nas viagens, o banco só reembolsa água
mineral do consumo de frigobar de hotéis. Apesar do esforço,
nem sempre Zornig acertou a mão. Contratou uma empresa de
transporte de valores com um preço 20% mais baixo, mas viu
o número de fraudes e roubos de malotes aumentar. Voltou
para a transportadora anterior, mas antes conseguiu o que queria:
um desconto. Os funcionários do BankBoston no Brasil esperam
que tanto esforço os ajude a manter o emprego depois da fusão
da semana passada.
O
BofA já reduziu drasticamente suas operações
no Brasil. Em 2001, comprou o Banco Liberal e descobriu um desfalque
de 40 milhões de dólares. Em 2002, teve problemas
com a gestão de fundos que causaram perdas difíceis
de ser explicadas aos cotistas. No primeiro semestre deste ano,
o BofA vendeu a área de gestão de recursos ao HSBC.
É por isso que restam dúvidas sobre os planos do novo
controlador em relação ao BankBoston. O presidente
do banco no Brasil, Geraldo Carbone, está otimista. "O BofA
vê na franquia latino-americana do FleetBoston uma base potencial
para ampliar a presença internacional", diz ele. Nos EUA,
Eugene McQuade, executivo do BofA, reforçou a impressão
de que pretende manter presença forte na América Latina.
Com juros em baixa no Brasil, parece quase certo que a consolidação
no setor bancário brasileiro vai recomeçar. Desde
1994, o número de bancos caiu de 247 para 180. Diz Erivelto
Rodrigues, especialista no setor bancário e presidente da
Austin Asis: "Entre dez e quinze bancos devem ser vendidos ou anexados
nos próximos anos. Talvez até algum entre os dez maiores
privados do mercado".
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