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Perfil
"Primeiro-damo"
Escudeiro
da mulher, a ministra
Benedita da Silva, o ator Antônio
Pitanga é um dândi passional

Daniela Pinheiro
Oscar Cabral
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| Pitanga:
onze impecáveis ternos brancos e catorze chapéus-panamá. "As
mulheres adoram" |
Vá falar com o ator Antônio Pitanga sobre os banzés
em que já se meteu sua mulher, a ministra da Assistência
Social, Benedita da Silva. Com a voz num tom acima do habitual,
ele tem respostas na ponta da língua. A saber: 1) Sobre a
denúncia de que um dos filhos de Benedita, para ser contratado
pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, em 1990, falsificou
um diploma: "Outras 399 pessoas também fizeram isso!". 2)
Sobre a notícia de que ela teria gasto 80.000
reais em obras de um apartamento funcional, que incluía a
instalação de uma hidromassagem, quando era senadora:
"Ela nem cabia na banheira! Ela tem 1,78 metro de altura! Todos
os senadores botaram banheira nos apartamentos!". 3) Sobre a recente
viagem da ministra à Argentina, para onde foi, custeada pelo
Erário, cumprir uma agenda pessoal: "A viagem foi autorizada!
O erro foi de quem autorizou! Ela só tem pureza nos atos".
Não importa se as desculpas fazem sentido ou não (e
claro que não fazem), Pitanga não quer nem saber.
Ele tem sua própria teoria. Em sua avaliação,
o que existe é uma espécie de complô racista
que perseguiria sua mulher e demais políticos negros e de
origem pobre (sejam eles honestos ou não). "Nunca ninguém
chamou o Fernando Collor de ladrão", diz, num evidente exagero.
"Mas o Celso Pitta era um bandido desde o primeiro momento. Cadê
o banqueiro (Salvatore) Cacciola? O filho do ex-ministro
(Odacir Klein) que atropelou um coitado? Desses, ninguém
pega no pé. No Brasil, são dois pesos, duas medidas."
Pitanga fala como se ele e Benedita ainda vivessem num casebre no
Morro do Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio. E não
como se ela fosse uma autoridade e ele um ator da Rede Globo. E
é por isso que é muito mais interessante conversar
com Pitanga sobre ele próprio, nunca sobre política.
E,
sobre ele, há o que dizer: o guarda-roupa impecável,
a coleção de perfumes, os filhos (os atores
e lindos Camila e Rocco) que criou sozinho, a fama de galanteador
e bon vivant, a carreira de mais de oitenta filmes e vinte novelas
e, é lógico, a fidelidade canina a Benedita. Fidelidade
emocional, irrestrita, mas, segundo ele, sob novos contornos. Pitanga
defende a "não-posse", como define. "Se a pessoa sente desejo,
deve ir em frente, seguir seu caminho. Nunca deixei de ser o que
sou ou de fazer o que quis. Mas não tenho esse hábito",
diz. É assim desde que se casaram, há dez anos. Ele
conta que foi por insistência dos sambistas Martinho da Vila
e Leci Brandão que a conheceu, um ano antes. "Eles queriam
que eu apoiasse sua campanha." Ele ligou, apresentou-se, fez a campanha
e a chamou para ir ao cinema. Assistiram a Gêmeos
Mórbida Semelhança e depois foram a um restaurante
japonês. "Foi um fracasso. Ela não entendeu nada do
filme e não comeu nada porque tinha vergonha de não
saber manusear os pauzinhos", lembra.
Desde
então, é um fiel escudeiro da ministra. Costuma arrumar
suas malas, marcar seu cabeleireiro e dar as ordens para a empregada,
nas casas do casal, no Rio e em Brasília, para onde voa toda
semana. "Esse é o papel do primeiro-damo", brinca. Acompanhou
a mulher em duas viagens ao exterior no governo Lula. "Paguei minhas
passagens", diz. O resto de seu tempo é dividido entre a
gravação semanal da novela Celebridade, em
que faz o papel de um comandante do Corpo de Bombeiros, e uma consultoria
para uma futura Secretaria de Cultura do Partido dos Trabalhadores.
Ali, reúne-se semanalmente para palpitar e bolar uma "política
cultural para o país", já que ele não anda
nada satisfeito com o rumo atual. "A única nomeação
ministerial que não passou pela cúpula do PT foi a
de Gilberto Gil. Ali, foi linha direta com o Lula", afirma.
Sorriso
largo, manso sotaque baiano, um gentleman até o último
fio de cabelo, Pitanga lembra muito o personagem Tião, o
namorado de Dona Jura, que interpretou na novela O Clone. Há
duas semanas, a batata da ministra assava e Pitanga, a seu lado,
era um festival: de terno e chapéu-panamá, alegre,
sorridente, dava bicotinhas públicas na mulher numa solenidade
no Palácio do Planalto. "A gente tem de estar feliz, ser
companheiro e bola pra frente", afirma. Aos 64 anos (aparência
de dez anos mais novo), ele é um dândi. Em seu guarda-roupa,
repousam onze ternos brancos, que combina com gravatas cor-de-rosa,
verdes ou azuis, e catorze chapéus-panamá. Cheirosíssimo
(tem tantos perfumes quanto ternos), ele faz questão de cultivar
o visual "malandragem anos 20". "As mulheres adoram", brinca. Nos
últimos anos, além de "o marido da Benedita", tornou-se
"o pai da Camila". É dessa parte de sua biografia que mais
se orgulha: os filhos, fruto do casamento com a ex-modelo Vera Manhães.
Na separação, ele ficou com a guarda das crianças.
Diz que a maior dificuldade não foi a educação
dos filhos, mas lidar com as empregadas (despediu mais de dez) que
não se adaptavam à rotina liberal da casa. "A gente
andava à vontade, as crianças inventavam os pratos
que queriam comer, não tinha obrigação de horário
nem de tarefas. Elas não aceitavam isso", lembra.
O
sobrenome Pitanga foi adotado. Era a alcunha de um de seus primeiros
personagens no cinema. Com 45 anos de carreira, foi um dos atores
prediletos do Cinema Novo. Desde essa época, ele goza da
fama que a maioria dos homens sonha ter. Só para se ter uma
idéia, um obelisco de 22 metros de altura construído
em Ipanema, no Rio, foi batizado informalmente com seu nome. "É
intriga", ele brinca. Mas é fato que ele, quando participou
do musical Hair, em 1968, foi o único ator vestido.
"Me proibiram de ficar nu", conta. Anos depois, tirou a roupa no
espetáculo Autos Sacramentais, estreado na Europa.
E aí? "Saiu no jornal", garante. É claro que ele adora
o mito. Na semana passada, em um restaurante de Brasília,
foi abordado por uma representante do laboratório que fabrica
o Cialis, o maior concorrente do Viagra. "Ai, filhinha, eu não
preciso disso, não. Ainda sou uma criança. Eu ainda
choro", sussurrou diante da oferta de umas amostras grátis.
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