Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Perfil
"Primeiro-damo"

Escudeiro da mulher, a ministra
Benedita da Silva, o ator Antônio
Pitanga é um dândi passional


Daniela Pinheiro


Oscar Cabral
Pitanga: onze impecáveis ternos brancos e catorze chapéus-panamá. "As mulheres adoram"


Vá falar com o ator Antônio Pitanga sobre os banzés em que já se meteu sua mulher, a ministra da Assistência Social, Benedita da Silva. Com a voz num tom acima do habitual, ele tem respostas na ponta da língua. A saber: 1) Sobre a denúncia de que um dos filhos de Benedita, para ser contratado pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, em 1990, falsificou um diploma: "Outras 399 pessoas também fizeram isso!". 2) Sobre a notícia de que ela teria gasto 80.000 reais em obras de um apartamento funcional, que incluía a instalação de uma hidromassagem, quando era senadora: "Ela nem cabia na banheira! Ela tem 1,78 metro de altura! Todos os senadores botaram banheira nos apartamentos!". 3) Sobre a recente viagem da ministra à Argentina, para onde foi, custeada pelo Erário, cumprir uma agenda pessoal: "A viagem foi autorizada! O erro foi de quem autorizou! Ela só tem pureza nos atos". Não importa se as desculpas fazem sentido ou não (e claro que não fazem), Pitanga não quer nem saber. Ele tem sua própria teoria. Em sua avaliação, o que existe é uma espécie de complô racista que perseguiria sua mulher e demais políticos negros e de origem pobre (sejam eles honestos ou não). "Nunca ninguém chamou o Fernando Collor de ladrão", diz, num evidente exagero. "Mas o Celso Pitta era um bandido desde o primeiro momento. Cadê o banqueiro (Salvatore) Cacciola? O filho do ex-ministro (Odacir Klein) que atropelou um coitado? Desses, ninguém pega no pé. No Brasil, são dois pesos, duas medidas." Pitanga fala como se ele e Benedita ainda vivessem num casebre no Morro do Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio. E não como se ela fosse uma autoridade e ele um ator da Rede Globo. E é por isso que é muito mais interessante conversar com Pitanga sobre ele próprio, nunca sobre política.

E, sobre ele, há o que dizer: o guarda-roupa impecável, a coleção de perfumes, os filhos (os atores – e lindos – Camila e Rocco) que criou sozinho, a fama de galanteador e bon vivant, a carreira de mais de oitenta filmes e vinte novelas e, é lógico, a fidelidade canina a Benedita. Fidelidade emocional, irrestrita, mas, segundo ele, sob novos contornos. Pitanga defende a "não-posse", como define. "Se a pessoa sente desejo, deve ir em frente, seguir seu caminho. Nunca deixei de ser o que sou ou de fazer o que quis. Mas não tenho esse hábito", diz. É assim desde que se casaram, há dez anos. Ele conta que foi por insistência dos sambistas Martinho da Vila e Leci Brandão que a conheceu, um ano antes. "Eles queriam que eu apoiasse sua campanha." Ele ligou, apresentou-se, fez a campanha e a chamou para ir ao cinema. Assistiram a Gêmeos – Mórbida Semelhança e depois foram a um restaurante japonês. "Foi um fracasso. Ela não entendeu nada do filme e não comeu nada porque tinha vergonha de não saber manusear os pauzinhos", lembra.

Desde então, é um fiel escudeiro da ministra. Costuma arrumar suas malas, marcar seu cabeleireiro e dar as ordens para a empregada, nas casas do casal, no Rio e em Brasília, para onde voa toda semana. "Esse é o papel do primeiro-damo", brinca. Acompanhou a mulher em duas viagens ao exterior no governo Lula. "Paguei minhas passagens", diz. O resto de seu tempo é dividido entre a gravação semanal da novela Celebridade, em que faz o papel de um comandante do Corpo de Bombeiros, e uma consultoria para uma futura Secretaria de Cultura do Partido dos Trabalhadores. Ali, reúne-se semanalmente para palpitar e bolar uma "política cultural para o país", já que ele não anda nada satisfeito com o rumo atual. "A única nomeação ministerial que não passou pela cúpula do PT foi a de Gilberto Gil. Ali, foi linha direta com o Lula", afirma.

Sorriso largo, manso sotaque baiano, um gentleman até o último fio de cabelo, Pitanga lembra muito o personagem Tião, o namorado de Dona Jura, que interpretou na novela O Clone. Há duas semanas, a batata da ministra assava e Pitanga, a seu lado, era um festival: de terno e chapéu-panamá, alegre, sorridente, dava bicotinhas públicas na mulher numa solenidade no Palácio do Planalto. "A gente tem de estar feliz, ser companheiro e bola pra frente", afirma. Aos 64 anos (aparência de dez anos mais novo), ele é um dândi. Em seu guarda-roupa, repousam onze ternos brancos, que combina com gravatas cor-de-rosa, verdes ou azuis, e catorze chapéus-panamá. Cheirosíssimo (tem tantos perfumes quanto ternos), ele faz questão de cultivar o visual "malandragem anos 20". "As mulheres adoram", brinca. Nos últimos anos, além de "o marido da Benedita", tornou-se "o pai da Camila". É dessa parte de sua biografia que mais se orgulha: os filhos, fruto do casamento com a ex-modelo Vera Manhães. Na separação, ele ficou com a guarda das crianças. Diz que a maior dificuldade não foi a educação dos filhos, mas lidar com as empregadas (despediu mais de dez) que não se adaptavam à rotina liberal da casa. "A gente andava à vontade, as crianças inventavam os pratos que queriam comer, não tinha obrigação de horário nem de tarefas. Elas não aceitavam isso", lembra.

O sobrenome Pitanga foi adotado. Era a alcunha de um de seus primeiros personagens no cinema. Com 45 anos de carreira, foi um dos atores prediletos do Cinema Novo. Desde essa época, ele goza da fama que a maioria dos homens sonha ter. Só para se ter uma idéia, um obelisco de 22 metros de altura construído em Ipanema, no Rio, foi batizado informalmente com seu nome. "É intriga", ele brinca. Mas é fato que ele, quando participou do musical Hair, em 1968, foi o único ator vestido. "Me proibiram de ficar nu", conta. Anos depois, tirou a roupa no espetáculo Autos Sacramentais, estreado na Europa. E aí? "Saiu no jornal", garante. É claro que ele adora o mito. Na semana passada, em um restaurante de Brasília, foi abordado por uma representante do laboratório que fabrica o Cialis, o maior concorrente do Viagra. "Ai, filhinha, eu não preciso disso, não. Ainda sou uma criança. Eu ainda choro", sussurrou diante da oferta de umas amostras grátis.

 

 
 
 
 
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