Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Cidades
O anfitrião do PT

Jorge Ferreira, dono de seis restaurantes
em Brasília, recebe em suas casas a alta
sociedade petista


Alexandre Oltramari


Luiz Antonio
Ferreira, numa de suas casas, em Brasília: aumento de 20% no faturamento

Com seu sotaque mineiro, sua barriga de chope e seu bom humor, Jorge Ferreira, 44 anos, está entre os empresários mais satisfeitos com o triunfo eleitoral de Lula. Ele reclama da cortante taxa de juros e tem lá suas críticas à reforma tributária, mas está feliz da vida. "Com esse governo, tudo mudou para melhor", festeja. Pudera. Com seis bares e restaurantes em Brasília, e uma cervejaria recém-inaugurada em São Paulo, Jorge Ferreira é o mais concorrido anfitrião etílico-gastronômico das noites petistas na capital federal. "A eleição trouxe mais petistas para Brasília e, por extensão, mais gente para meus bares", diz. Suas casas, cujo faturamento ele mantém em segredo, recebem a militância anônima do PT, mas também petistas estrelados. Um dos mais assíduos é o ministro José Dirceu, da Casa Civil, que não dispensa uma lingüiça de Formiga, cidadezinha do interior de Minas Gerais, acompanhada de uma dose da cachaça Havana, relíquia fabricada artesanalmente. Outro é o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, freguês do chope – cremoso, por favor – e dos bolinhos de bacalhau.

A intimidade de Jorge Ferreira com a cúpula do PT: com José Genoíno e Frei Chico, irmão de Lula (acima, à esq.); com o ministro José Dirceu (acima, à dir.); e numa pescaria com o presidente (à dir.). "Virei empresário por incompreensão da burguesia, que não me quis como trabalhador", brinca ele

Seu amigo mais ilustre, o presidente Lula, desde que tomou posse no Palácio do Planalto, não foi a nenhum bar ou restaurante – "mas sei que ele morre de vontade de ir", diz Ferreira. Sabe mesmo. Há dezoito anos em Brasília, Jorge Ferreira é um freqüentador da cúpula da república petista. Conheceu o presidente e José Dirceu em 1982, quando uma caravana petista passou por Cruzília, sua cidade natal, em Minas. De lá para cá, tornaram-se cada vez mais próximos. Em seus bares, Lula gostava de pedir a combinação de chope cremoso com pernil de porco. O filho mais velho de Ferreira, hoje com 16 anos, fez campanha na escola pregando o voto no "tio Lula". Eleito, o presidente fez questão de interromper uma audiência para receber dona Terezinha, 71 anos, mãe de Ferreira, que viera de Cruzília com uma porção de pães de queijo feitos por ela mesma. "Tem muita gente que diz agora que é amiga do Lula. Jorge não é amigo. É muito amigo", diz Ricardo Kotscho, assessor de imprensa do Planalto. Ferreira já participou de meia dúzia de peladas na Granja do Torto. Na última, ele e Lula ganharam de 6 a 4 do time formado pelos filhos do presidente. Ferreira fez três gols. "Na verdade, não jogo pelada. Só vou lá para fazer gol", informa o centroavante peso-pesado.

Formado em sociologia, casado com uma socióloga, três filhos, Ferreira começou sua militância política no movimento estudantil. Era um entusiasmado adepto de Leon Trotsky, chegou a ser presidente do grêmio estudantil na escola onde cursou o ensino médio, mas sua trajetória política parou aí. Em 1985 mudou-se para Brasília, tinha um emprego de burocrata na área de educação do governo do Distrito Federal e dava aulas numa universidade privada. Do emprego público foi demitido quando fez greve salarial. Do privado foi dispensado durante uma greve que exigia a contratação de um coordenador. Com o dinheiro das demissões, abriu o primeiro negócio, uma pizzaria para 150 clientes. "Virei empresário por causa da incompreensão da burguesia, que não me quis como trabalhador", diz. Dois anos depois, montou um restaurante de comida mineira, que também apresenta pequenos espetáculos (até hoje, foram 4.000 shows com 7.000 artistas, contabiliza ele). Nunca mais parou. A média salarial de seus 330 funcionários é de 700 reais, e um gerente pode chegar a 4.000 reais. Todos têm carteira devidamente assinada, esclarece o petista.

Ferreira é bem-sucedido, mas ainda não entrou para a galeria dos ricos. Em todos os seus estabelecimentos, seu nome funciona como uma bandeira, além de chamariz de petista, mas é dono de apenas 35% das casas. Até o ano passado, morava de aluguel e andava num Gol sem ar-condicionado, no qual Lula detestava pegar carona, pois suava em bicas sob o sol abrasivo de Brasília. Agora, depois de quase um ano de governo petista, Ferreira abriu mais dois estabelecimentos, um em Brasília e outro em São Paulo, aumentou seu faturamento em 20%, comprou um apartamento de 200 metros quadrados e anda num Meriva novinho em folha – com ar-condicionado. É militante do PT, mas não tem cargo. Na equipe de transição de governo, chegou a integrar um grupo que deu palpites sobre turismo. Mas há tempos trocou as idéias trotskistas pelo negócio gastronômico. Com freqüência, come nos próprios restaurantes e gosta de cerveja. "Não tomo destilados. Dono de bar que toma destilado vira alcoólatra", diz ele, que carrega 102 quilos em 1,84 metro de altura. Sua missão na vida, com a eleição de Lula, ficou ainda mais clara. "Quero ganhar dinheiro no capitalismo para gastar no socialismo", afirma ele, ao deliciar-se com uma caixa de Cohiba, os famosos charutos cubanos, que ganhou de presente de um assessor do embaixador em Cuba, Tilden Santiago, outro petista, outro mineiro – e outro amigo de Jorge Ferreira.

 

 
 
 
 
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