|
|
Cidades
O
anfitrião do PT
Jorge
Ferreira, dono de seis restaurantes
em Brasília, recebe em suas casas a alta
sociedade petista

Alexandre
Oltramari
Luiz Antonio
 |
| Ferreira,
numa de suas casas, em Brasília: aumento de 20% no faturamento
|
Com
seu sotaque mineiro, sua barriga de chope e seu bom humor, Jorge
Ferreira, 44 anos, está entre os empresários mais
satisfeitos com o triunfo eleitoral de Lula. Ele reclama da cortante
taxa de juros e tem lá suas críticas à reforma
tributária, mas está feliz da vida. "Com esse governo,
tudo mudou para melhor", festeja. Pudera. Com seis bares e restaurantes
em Brasília, e uma cervejaria recém-inaugurada em
São Paulo, Jorge Ferreira é o mais concorrido anfitrião
etílico-gastronômico das noites petistas na capital
federal. "A eleição trouxe mais petistas para Brasília
e, por extensão, mais gente para meus bares", diz. Suas casas,
cujo faturamento ele mantém em segredo, recebem a militância
anônima do PT, mas também petistas estrelados. Um dos
mais assíduos é o ministro José Dirceu, da
Casa Civil, que não dispensa uma lingüiça de
Formiga, cidadezinha do interior de Minas Gerais, acompanhada de
uma dose da cachaça Havana, relíquia fabricada artesanalmente.
Outro é o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, freguês
do chope cremoso, por favor e dos bolinhos de bacalhau.
 |
 |
| A
intimidade de Jorge Ferreira com a cúpula do PT: com
José Genoíno e Frei Chico, irmão de Lula
(acima, à esq.); com o ministro José Dirceu
(acima, à dir.); e numa pescaria com o presidente
(à dir.). "Virei empresário por incompreensão
da burguesia, que não me quis como trabalhador",
brinca ele |
 |
Seu
amigo mais ilustre, o presidente Lula, desde que tomou posse no
Palácio do Planalto, não foi a nenhum bar ou restaurante
"mas sei que ele morre de vontade de ir", diz Ferreira. Sabe
mesmo. Há dezoito anos em Brasília, Jorge Ferreira
é um freqüentador da cúpula da república
petista. Conheceu o presidente e José Dirceu em 1982, quando
uma caravana petista passou por Cruzília, sua cidade natal,
em Minas. De lá para cá, tornaram-se cada vez mais
próximos. Em seus bares, Lula gostava de pedir a combinação
de chope cremoso com pernil de porco. O filho mais velho de Ferreira,
hoje com 16 anos, fez campanha na escola pregando o voto no "tio
Lula". Eleito, o presidente fez questão de interromper uma
audiência para receber dona Terezinha, 71 anos, mãe
de Ferreira, que viera de Cruzília com uma porção
de pães de queijo feitos por ela mesma. "Tem muita gente
que diz agora que é amiga do Lula. Jorge não é
amigo. É muito amigo", diz Ricardo Kotscho, assessor de imprensa
do Planalto. Ferreira já participou de meia dúzia
de peladas na Granja do Torto. Na última, ele e Lula ganharam
de 6 a 4 do time formado pelos filhos do presidente. Ferreira fez
três gols. "Na verdade, não jogo pelada. Só
vou lá para fazer gol", informa o centroavante peso-pesado.
Formado
em sociologia, casado com uma socióloga, três filhos,
Ferreira começou sua militância política no
movimento estudantil. Era um entusiasmado adepto de Leon Trotsky,
chegou a ser presidente do grêmio estudantil na escola onde
cursou o ensino médio, mas sua trajetória política
parou aí. Em 1985 mudou-se para Brasília, tinha um
emprego de burocrata na área de educação do
governo do Distrito Federal e dava aulas numa universidade privada.
Do emprego público foi demitido quando fez greve salarial.
Do privado foi dispensado durante uma greve que exigia a contratação
de um coordenador. Com o dinheiro das demissões, abriu o
primeiro negócio, uma pizzaria para 150 clientes. "Virei
empresário por causa da incompreensão da burguesia,
que não me quis como trabalhador", diz. Dois anos depois,
montou um restaurante de comida mineira, que também apresenta
pequenos espetáculos (até hoje, foram 4.000
shows com 7.000 artistas, contabiliza ele).
Nunca mais parou. A média salarial de seus 330 funcionários
é de 700 reais, e um gerente pode chegar a 4.000
reais. Todos têm carteira devidamente assinada, esclarece
o petista.
Ferreira
é bem-sucedido, mas ainda não entrou para a galeria
dos ricos. Em todos os seus estabelecimentos, seu nome funciona
como uma bandeira, além de chamariz de petista, mas é
dono de apenas 35% das casas. Até o ano passado, morava de
aluguel e andava num Gol sem ar-condicionado, no qual Lula detestava
pegar carona, pois suava em bicas sob o sol abrasivo de Brasília.
Agora, depois de quase um ano de governo petista, Ferreira abriu
mais dois estabelecimentos, um em Brasília e outro em São
Paulo, aumentou seu faturamento em 20%, comprou um apartamento de
200 metros quadrados e anda num Meriva novinho em folha com
ar-condicionado. É militante do PT, mas não tem cargo.
Na equipe de transição de governo, chegou a integrar
um grupo que deu palpites sobre turismo. Mas há tempos trocou
as idéias trotskistas pelo negócio gastronômico.
Com freqüência, come nos próprios restaurantes
e gosta de cerveja. "Não tomo destilados. Dono de bar que
toma destilado vira alcoólatra", diz ele, que carrega 102
quilos em 1,84 metro de altura. Sua missão na vida, com a
eleição de Lula, ficou ainda mais clara. "Quero ganhar
dinheiro no capitalismo para gastar no socialismo", afirma ele,
ao deliciar-se com uma caixa de Cohiba, os famosos charutos cubanos,
que ganhou de presente de um assessor do embaixador em Cuba, Tilden
Santiago, outro petista, outro mineiro e outro amigo de Jorge
Ferreira.
|