|
|
Ambiente
Matança
dos golfinhos
Começa
no Japão a temporada de caça a
esse mamífero marinho amigável e inteligente,
protegido na maioria dos outros países

Diogo
Schelp
AP
 |
| Água
tingida de sangue dos golfinhos mortos no Japão: eles
foram encurralados num braço de mar |
A cena
é chocante. Um bando de sessenta golfinhos listrados é
encurralado em uma pequena enseada por um bote com quatro homens.
Utilizando facas e arpões, os pescadores começam a
matar os animais de maneira dolorosa e lenta. Os golfinhos, que
quando acuados jamais se afastam do grupo, não tentam fugir.
Nem sequer atacam o mergulhador que vai jogando os animais feridos
para dentro do barco. O mar fica tingido de sangue com uma
tonalidade de vermelho que lembra o sangue humano. Essa matança
foi filmada na cidade japonesa de Taiji e divulgada na semana passada
pela Sea Shepherd, uma organização não governamental
de defesa de animais marinhos baseada nos Estados Unidos. Os ativistas
estão desde o fim de setembro na região, tentando
atrapalhar a caça aos golfinhos, proibida em praticamente
todos os países, mas permitida no Japão. Os japoneses
são também os maiores caçadores de baleia.
É compreensível que, por ser uma ilha e por não
dispor de uma área suficiente para a criação
de animais para corte, o Japão tenha o maior consumo per
capita de pescado do mundo. Mais difícil de aceitar é
a insistência nipônica em capturar espécies ameaçadas
de extinção.
O
Japão tem direito a caçar pouco mais de 400 baleias
minke por ano, teoricamente para fins científicos, mas que
na verdade abastecem a indústria alimentícia do país.
Essa cota representa apenas 2% do que os japoneses costumavam tirar
do mar na década de 60. "Como a caça comercial foi
proibida em 1986, o Japão e outros países que têm
demanda grande por esse tipo de carne passaram a caçar mais
golfinhos", diz o biólogo Marcos César de Oliveira
Santos, pesquisador da Universidade de São Paulo. A Comissão
Baleeira Internacional, que regula a atividade, não pode
controlar a matança de golfinhos porque eles são caçados
na costa marítima dos países, e não em águas
internacionais, como as baleias. Por ano, são mortos no Japão
22.000 desses animais, cuja carne é
enlatada e vendida em supermercados. Há vinte anos, eram
16.000. "Além do Japão,
as Ilhas Salomão, no Oceano Pacífico, e as Ilhas Faroe,
um território dinamarquês no Atlântico Norte,
caçam sistematicamente golfinhos", informa o capitão
Paul Watson, presidente da ONG Sea Shepherd. Nas Ilhas Faroe, a
caça acontece uma vez por ano em uma espécie de tourada
viking: os animais são mortos a golpes de arpão apenas
para manter viva uma tradição de séculos. Os
ecologistas preocupam-se sobretudo porque suas 67 espécies
(25 delas no Brasil) se reproduzem muito lentamente. Em média,
um filhote a cada três anos por fêmea.
O
problema ambiental não é o único motivo que
provoca repúdio à caça de golfinhos. Há
também um componente emocional. Junto com baleias e tartarugas
marinhas, eles são os animais aquáticos que mais despertam
a simpatia dos homens. Mamíferos como nós, os golfinhos
possuem inteligência espantosa. São capazes de se reconhecer
em espelhos e têm até uma cultura: pesquisadores descobriram
que os filhotes aprendem com as mães técnicas de caça
que outros indivíduos da mesma espécie não
conhecem. Os golfinhos são dotados de uma espécie
de fala. Emitem sons pelo orifício respiratório, situado
no alto da cabeça, que servem para identificar cardumes de
peixes e para comunicação com outros golfinhos.
Os
golfinhos ou botos, como são chamados em algumas regiões
do Brasil são associados à imagem do flíper,
uma espécie comprovadamente dócil e amigável.
Curiosos, eles gostam de se aproximar de surfistas e mergulhadores.
Às vezes, permitem ser tocados. O único caso registrado
de morte de uma pessoa causada por um golfinho em ambiente natural
foi em 1994, no Litoral Norte de São Paulo, quando alguns
banhistas tentaram tocar e abraçar um desses animais. Por
isso, os estudiosos recomendam não se aproximar do animal.
Fáceis de ser treinados, os golfinhos são muito apreciados
em parques de diversões. É o caso da baleia orca,
que, na verdade, é um golfinho a principal diferença
é que golfinhos têm dentes, e baleias, barbatanas.
Os ecologistas denunciam que as técnicas de treinamento são
dolorosas para os bichos: recebem até choque elétrico.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética
treinavam golfinhos para detectar minas aquáticas e para
matar mergulhadores inimigos com lâminas de metal presas em
seu dorso. Mais uma atrocidade praticada contra esses animais, que,
pela curvatura que possuem nos cantos da boca, parecem estar sempre
sorrindo.
|