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Moda
Todo
mundo vai usar
De
onde vêm as roupas? Consultores
especializados correm o mundo
caçando as novidades

Eliana
Castro
Ilustrações Caio Borges/divulgação
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lgação
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| Amostra
do inverno 2004: modelinho anos 60, suavidade e franjas na linha
jazz e modernidade no visual motocross |
Para
copiar: tachas e amarrações de inspiração medieval, a risca
de giz revisitada e o jeitão anos 80 |
De
repente, todas as vitrines se forram de cor-de-rosa. De repente,
todas as mulheres aparecem de sandálias de dedo baixinhas,
ou de bolsa de tachas, ou de calças de aviador. Coincidência?
De jeito nenhum. Desde que o negócio da moda se profissionalizou,
as chamadas tendências são, em grande parte, coisa
muito bem pensada e planejada por tecelagens, confecções
e estilistas, num trabalho conjunto destinado a vender muito, em
pouco tempo afinal, moda, como se sabe, é coisa passageira.
Existem vários truques, fontes e serviços que permitem
aos profissionais da área identificar, com meses de antecedência,
o que deve virar moda na próxima estação. A
maioria requer muito trabalho (quando a equipe é própria)
ou muito dinheiro (quando o serviço é contratado).
Daí o sucesso de iniciativas como o seminário Senac
Moda Informação uma maratona semestral de palestras
de consultores de moda, gerentes de produto e estilistas realizada
em São Paulo e acompanhada por cerca de 1.500
profissionais e empresários do setor. "O mercado está
mais rápido e a crise econômica é grande. Por
isso, as empresas têm de apostar no que vai dar certo, no
que vai vender", explica Renato Shibukawa, consultor de moda de
uma rede de magazines e organizador do seminário.
Na
saída, os participantes levam consigo a melhor parte: um
detalhado dossiê contendo croquis e comentários de
tudo o que deve ser usado na próxima temporada. É
desse levantamento que saem as roupas que praticamente todas as
brasileiras irão comprar, seja uma camiseta básica,
seja um modelo de festa. Uma amostra da moda do próximo inverno
está nas ilustrações desta reportagem: desde
os vestidos futuristas com recortes geométricos, reeditados
nas passarelas do americano Marc Jacobs, até os leggings
agarrados, a boina (olha ela aí) e as botas das cantoras
pop dos anos 80, um estilo particularmente explorado pela grife
italiana Dolce & Gabbana. E quem é que determina que
são essas as tendências mais fortes? Para montar seu
seminário e a cobiçada apostila, o Senac mobiliza
cerca de sessenta pessoas, das quais vinte levam a vida que qualquer
viciado em moda pediu a Saint Laurent: acompanham os desfiles, viajam
para a Europa, visitam lojas descoladas, lêem todas as revistas,
vão a festas, bares e restaurantes e vêem televisão.
É
divertido, sem dúvida, mas puxado também. "Quem trabalha
com moda não tem folga: vê qualquer coisa diferente
e já tem uma idéia", conta Luciana Parisi, uma das
desbravadoras do Senac, que ainda é gerente de produto de
uma tecelagem. A rotina de trabalho de Luciana é acordar
e ler os principais jornais (cadernos de cultura e de economia),
ir para o escritório e ler dossiês de vendas e pesquisas
dos indispensáveis birôs de moda estes, uma
espécie de oráculo muitas vezes virtual que indica
tendências a associados, cobrando, os mais caros, até
4.000 dólares por temporada. "Uma
notinha de imprensa pode mudar o rumo de uma coleção.
Uma reviravolta política pode determinar todo um rearranjo
de pigmentos porque naquele momento, por motivos puramente sociais,
as pessoas não vão aceitar a cor que estava programada",
diz. E dá exemplo: quando os Estados Unidos atacaram o Iraque,
muitos estilistas americanos que trabalhavam em coleções
com inspiração militar ficaram de cabelo em pé
ao saber por seus pesquisadores que o público não
aceitaria bem o tema bélico. Como não havia mais tempo
para mudar tudo, a saída foi tratar de dar leveza e humor
ao militar aí surgiram os camuflados em tons de rosa
e com estampas divertidas. Estava salva a pátria fashion.
O
circuito obrigatório dos caçadores de tendências
inclui Nova York, Londres, Paris e Milão. O objetivo básico
das viagens é verificar, primeiro, o que está nas
prateleiras dos estilistas renomados e das grifes consagradas; depois,
o que é vendido nos grandes magazines; e, o tempo todo, checar
o que as pessoas usam nas ruas. A cada viagem, além de passagem,
estada, transporte, alimentação e idas a exposições,
os consultores gastam de 4.000 a 8.000
dólares em roupas, acessórios, livros e revistas.
Mesmo assim, a orgia aquisitiva não cobre tudo e a maioria,
para compensar, tem o hábito de fotografar e desenhar o que
vê pela frente bem escondido dos vendedores, que fazem
marcação cerrada sobre os "espiões" inimigos.
Luciana Parisi e a consultora de moda Denise Morais costumavam esconder
pequenas máquinas fotográficas debaixo de um charmoso
foulard enrolado no pescoço. Mas o recurso ficou batido e
agora apelam para cliques no provador. "Tem de tomar muito cuidado.
As vendedoras são espertas", diz Denise, que já teve
de sair rapidinho da Bloomingdale's, em Nova York, com o segurança
no calcanhar. Há quem volte com verdadeiros ferimentos de
guerra. Denise lembra de uma consultora que chegou de viagem com
um olho roxo: "Ela estava fotografando uma vitrine e o segurança
deu um soco na máquina fotográfica".
Quem
tem verba se sai melhor na empreitada. "Quando a gente chega com
um bolo de dinheiro para comprar as peças, tudo fica mais
fácil", relata o consultor de moda Fernando Aidar. Assim
que entra numa loja, ele se apresenta e explica que não quer
copiar produtos, e sim pesquisá-los. "Aí, compro algumas
coisas de que preciso e, depois, ninguém tem coragem de me
expulsar", garante. As viagens dos caçadores de tendências
duram de três a oito dias de frenética atividade. "Há
uma pressão eterna. Cada passo que dou tem de render alguma
informação que será cobrada na volta", diz
o consultor Shibukawa. Todos adoram o que fazem e não desligam
a antena nem nos momentos de folga. "Estou sempre trabalhando. Quando
quero descansar, viajo para alguma praia do Nordeste, tomo sol,
como e bebo, mas, depois de alguns dias, canso", entrega Orlando
Brandão, que é diretor de desenvolvimento de produto
de uma empresa de moda. "Aí, vou para o centro comercial
local, converso com os vendedores e visito lojas para saber o que
o público daquele lugar costuma consumir." Na ponta final,
as consumidoras saem ganhando com essa busca incessante: no Brasil,
quem tem gosto pelas novidades da moda pode usar praticamente tudo
o que está nos grandes centros irradiadores de tendências,
quase sem nenhuma defasagem.
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