Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Moda
Todo mundo vai usar

De onde vêm as roupas? Consultores
especializados correm o mundo
caçando as novidades


Eliana Castro


Ilustrações Caio Borges/divulgação
lgação
Amostra do inverno 2004: modelinho anos 60, suavidade e franjas na linha jazz e modernidade no visual motocross Para copiar: tachas e amarrações de inspiração medieval, a risca de giz revisitada e o jeitão anos 80


De repente, todas as vitrines se forram de cor-de-rosa. De repente, todas as mulheres aparecem de sandálias de dedo baixinhas, ou de bolsa de tachas, ou de calças de aviador. Coincidência? De jeito nenhum. Desde que o negócio da moda se profissionalizou, as chamadas tendências são, em grande parte, coisa muito bem pensada e planejada por tecelagens, confecções e estilistas, num trabalho conjunto destinado a vender muito, em pouco tempo – afinal, moda, como se sabe, é coisa passageira. Existem vários truques, fontes e serviços que permitem aos profissionais da área identificar, com meses de antecedência, o que deve virar moda na próxima estação. A maioria requer muito trabalho (quando a equipe é própria) ou muito dinheiro (quando o serviço é contratado). Daí o sucesso de iniciativas como o seminário Senac Moda Informação – uma maratona semestral de palestras de consultores de moda, gerentes de produto e estilistas realizada em São Paulo e acompanhada por cerca de 1.500 profissionais e empresários do setor. "O mercado está mais rápido e a crise econômica é grande. Por isso, as empresas têm de apostar no que vai dar certo, no que vai vender", explica Renato Shibukawa, consultor de moda de uma rede de magazines e organizador do seminário.

Na saída, os participantes levam consigo a melhor parte: um detalhado dossiê contendo croquis e comentários de tudo o que deve ser usado na próxima temporada. É desse levantamento que saem as roupas que praticamente todas as brasileiras irão comprar, seja uma camiseta básica, seja um modelo de festa. Uma amostra da moda do próximo inverno está nas ilustrações desta reportagem: desde os vestidos futuristas com recortes geométricos, reeditados nas passarelas do americano Marc Jacobs, até os leggings agarrados, a boina (olha ela aí) e as botas das cantoras pop dos anos 80, um estilo particularmente explorado pela grife italiana Dolce & Gabbana. E quem é que determina que são essas as tendências mais fortes? Para montar seu seminário e a cobiçada apostila, o Senac mobiliza cerca de sessenta pessoas, das quais vinte levam a vida que qualquer viciado em moda pediu a Saint Laurent: acompanham os desfiles, viajam para a Europa, visitam lojas descoladas, lêem todas as revistas, vão a festas, bares e restaurantes e vêem televisão.

É divertido, sem dúvida, mas puxado também. "Quem trabalha com moda não tem folga: vê qualquer coisa diferente e já tem uma idéia", conta Luciana Parisi, uma das desbravadoras do Senac, que ainda é gerente de produto de uma tecelagem. A rotina de trabalho de Luciana é acordar e ler os principais jornais (cadernos de cultura e de economia), ir para o escritório e ler dossiês de vendas e pesquisas dos indispensáveis birôs de moda – estes, uma espécie de oráculo muitas vezes virtual que indica tendências a associados, cobrando, os mais caros, até 4.000 dólares por temporada. "Uma notinha de imprensa pode mudar o rumo de uma coleção. Uma reviravolta política pode determinar todo um rearranjo de pigmentos porque naquele momento, por motivos puramente sociais, as pessoas não vão aceitar a cor que estava programada", diz. E dá exemplo: quando os Estados Unidos atacaram o Iraque, muitos estilistas americanos que trabalhavam em coleções com inspiração militar ficaram de cabelo em pé ao saber por seus pesquisadores que o público não aceitaria bem o tema bélico. Como não havia mais tempo para mudar tudo, a saída foi tratar de dar leveza e humor ao militar – aí surgiram os camuflados em tons de rosa e com estampas divertidas. Estava salva a pátria fashion.

O circuito obrigatório dos caçadores de tendências inclui Nova York, Londres, Paris e Milão. O objetivo básico das viagens é verificar, primeiro, o que está nas prateleiras dos estilistas renomados e das grifes consagradas; depois, o que é vendido nos grandes magazines; e, o tempo todo, checar o que as pessoas usam nas ruas. A cada viagem, além de passagem, estada, transporte, alimentação e idas a exposições, os consultores gastam de 4.000 a 8.000 dólares em roupas, acessórios, livros e revistas. Mesmo assim, a orgia aquisitiva não cobre tudo e a maioria, para compensar, tem o hábito de fotografar e desenhar o que vê pela frente – bem escondido dos vendedores, que fazem marcação cerrada sobre os "espiões" inimigos. Luciana Parisi e a consultora de moda Denise Morais costumavam esconder pequenas máquinas fotográficas debaixo de um charmoso foulard enrolado no pescoço. Mas o recurso ficou batido e agora apelam para cliques no provador. "Tem de tomar muito cuidado. As vendedoras são espertas", diz Denise, que já teve de sair rapidinho da Bloomingdale's, em Nova York, com o segurança no calcanhar. Há quem volte com verdadeiros ferimentos de guerra. Denise lembra de uma consultora que chegou de viagem com um olho roxo: "Ela estava fotografando uma vitrine e o segurança deu um soco na máquina fotográfica".

Quem tem verba se sai melhor na empreitada. "Quando a gente chega com um bolo de dinheiro para comprar as peças, tudo fica mais fácil", relata o consultor de moda Fernando Aidar. Assim que entra numa loja, ele se apresenta e explica que não quer copiar produtos, e sim pesquisá-los. "Aí, compro algumas coisas de que preciso e, depois, ninguém tem coragem de me expulsar", garante. As viagens dos caçadores de tendências duram de três a oito dias de frenética atividade. "Há uma pressão eterna. Cada passo que dou tem de render alguma informação que será cobrada na volta", diz o consultor Shibukawa. Todos adoram o que fazem e não desligam a antena nem nos momentos de folga. "Estou sempre trabalhando. Quando quero descansar, viajo para alguma praia do Nordeste, tomo sol, como e bebo, mas, depois de alguns dias, canso", entrega Orlando Brandão, que é diretor de desenvolvimento de produto de uma empresa de moda. "Aí, vou para o centro comercial local, converso com os vendedores e visito lojas para saber o que o público daquele lugar costuma consumir." Na ponta final, as consumidoras saem ganhando com essa busca incessante: no Brasil, quem tem gosto pelas novidades da moda pode usar praticamente tudo o que está nos grandes centros irradiadores de tendências, quase sem nenhuma defasagem.

 
 
 
 
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