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Iraque
É
encrenca. Mas não é o Vietnã
Atentado
contra a sede da Cruz Vermelha
mostra até onde os terroristas estão
dispostos a ir para impor seus pontos
de vista ao Iraque conflagrado
AP
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INIMIGO
INVISÍVEL
Emboscada contra soldados americanos numa estrada perto de Bagdá:
baixas após a queda de Saddam já superam as da
guerra |
Nada
mais fácil que explicar o terrorismo no Iraque como uma erupção
do clássico modelo de resistência popular à
ocupação estrangeira. Também é atraente
recorrer à analogia simplista com o Vietnã, onde os
Estados Unidos foram derrotados por um povo em armas, e dizer que
os americanos não devem esperar outra coisa dos iraquianos
dispostos a tudo para libertar seu país. O terrorista suicida
que na semana passada jogou uma ambulância lotada de explosivos
contra o prédio da Cruz Vermelha em Bagdá, matando
doze pessoas, deixou explícito que a questão é
mais complexa. Se o objetivo fosse desmoralizar as tropas americanas
e demonstrar que os EUA são incapazes de garantir a ordem
e a reconstrução, seria possível escolher entre
uma infinidade de alvos militares. Numa luta de libertação
nacional, atacar uma organização humanitária,
reconhecida por sua neutralidade em conflitos e que há vinte
anos atua no Iraque, seria a pior coisa a ser feita pela causa.
É bom lembrar que, dois meses atrás, um caminhão-bomba
pôs abaixo o prédio da ONU na capital iraquiana, matando
o chefe da missão, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
Foi difícil entender o porquê desse atentado. Mas diplomatas
e analistas sérios tentaram colocar a matança no contexto
dos doze anos de embargo ao Iraque patrocinado pela ONU. Com a Cruz
Vermelha, não há espaço para esse tipo de racionalização
enganosa.
Ao
atacarem o espaço humanitário, os terroristas mandaram
um recado duplo àqueles que teimam em não entender
seus motivos. A primeira parte da mensagem é que não
há limites para o que podem fazer para impor sua vontade
ao mundo, visto que estão convictos de que essa é
a vontade de Alá. Nesse aspecto, atacar a Cruz Vermelha segue
a lógica dos atentados de 11 de setembro: a intenção
é afogar num banho de sangue alguns dos princípios
mais prezados da civilização moderna, exatamente aqueles
que pregam a convivência com a diferença. A segunda
é que, como escreveu o colunista Thomas L. Friedman, no The
New York Times, não estão matando para que os
iraquianos governem a si próprios. Estão matando para
que eles, os terroristas, governem os iraquianos. O medo deles é
o de mudanças permanentes no Iraque ou seja, a democracia
que o presidente George W. Bush prometeu promover no mundo árabe.
Bush está em apuros para explicar as armas de destruição
em massa, cuja posse por Saddam Hussein foi seu principal argumento
para a guerra, e que não foram encontradas em lugar nenhum.
O presidente americano se torna a cada dia mais odiado no mundo
e suspeito, entre os americanos, de ter se metido numa guerra sem
saída. É irônico que a brutalidade terrorista
esteja reforçando a lógica alegada por Bush de que
a derrota de Saddam Hussein, o ditador antes da invasão dos
EUA, é parte importante na estratégia da luta contra
o terror.
AP
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NÃO
ACABOU
Bush anuncia, em maio, o fim dos combates no Iraque, com a faixa
"Missão Cumprida" ao fundo: precipitação
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Há
seis meses, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln
enfeitado com uma faixa em que se lia "Missão cumprida",
Bush anunciou o fim dos combates no Iraque. Vê-se agora que
a missão está longe de ser cumprida. A semana passada,
que marcou o início do Ramadã, o mês santo em
que os muçulmanos se dedicam ao jejum e às orações,
foi especialmente letal. Os atentados em várias cidades iraquianas
mataram pelo menos quarenta pessoas, a maioria iraquianos. As tropas
americanas são alvo de uma média de 25 ataques por
dia. Desde maio, 117 soldados americanos foram mortos superando
o número de baixas na guerra e 1 129 saíram
feridos em emboscadas e atentados. O custo da intervenção,
em sangue e dinheiro, está mais caro que o previsto. A idéia
de que a invasão foi uma estupidez começa a se consolidar
como bandeira da oposição democrata para as eleições
presidenciais de 2004. Neste momento, só existe um cenário
pior: aquele em que Bush decide abandonar seu plano de instaurar
uma democracia no Iraque. Ainda não se está nem perto
disso. Mas, se ocorrer, o fracasso americano terá conseqüências
pesadas para os EUA e talvez para o resto do mundo. O que aconteceria
no Iraque diante de uma retirada abrupta das tropas americanas é
impossível prever. Há no Iraque uma equação
em que se mesclam invasão estrangeira, fanatismo religioso
e terrorismo. Quem passaria a deter o comando do Iraque numa situação
de caos é uma incógnita.
Bush
está pagando o preço de uma invasão realizada
às pressas, sem um planejamento adequado sobre o que fazer
depois da vitória. Quando a guerra acabou, não havia
soldados em quantidade suficiente para desarmar os combatentes iraquianos
e manter a ordem nas cidades. Para piorar, os Estados Unidos dissolveram
o Exército iraquiano, o que jogou na rua milhares de homens
armados, sem pagamento nem motivo para gostar dos americanos. O
esforço para reconstruir o país esbarrou na improvisação.
O Iraque produz metade do petróleo que extraía antes
da guerra. A energia elétrica ainda falha em Bagdá
e em outras cidades. A questão que mais preocupa é,
de longe, a falta de segurança. As taxas de risco encarecem
em até 45% o preço dos fretes, equipamentos e até
da mão-de-obra das empresas estrangeiras. Os serviços
de um guarda-costas custam 1.200 dólares
por dia e são necessários no mínimo
dois para dar proteção a um empresário.
AP
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CONFIANÇA
ZERO
Soldada americana revista uma criança em Bagdá:
atentados acirram tensão entre as tropas invasoras e
a população iraquiana |
A maioria dos ataques está concentrada no chamado triângulo
sunita . cidades onde a etnia à
qual pertencem os remanescentes do antigo regime predomina, entre
as quais se incluem Bagdá, Fallujah e Tikrit (terra natal
de Saddam Hussein). Supõe-se que os atacantes sejam remanescentes
das milícias do partido de Saddam, reforçadas com
terroristas estrangeiros da Al Qaeda, a organização
de Osama bin Laden, responsável pelos ataques de 11 de setembro
de 2001. Os piores atentados da semana passada ocorreram na área
de 10 quilômetros quadrados da zona verde de Bagdá,
onde estão situados os melhores hotéis, os prédios
públicos e os principais postos de controle militar americanos
ou seja, a que deveria ser a mais segura da capital iraquiana.
Na manhã de domingo 26, o Hotel Al Rashid foi atingido por
uma saraivada de mísseis artesanais disparada a uma distância
de 400 metros, por controle remoto. Um deles explodiu um andar abaixo
de onde estava hospedado o subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz,
matando um coronel americano o militar de mais alta patente
morto no Iraque. A situação é um pouco mais
tranqüila no sul do país, onde vivem os xiitas, e bem
pacífica no norte, reduto dos curdos, minoria que Saddam
perseguia.
Pode-se
dizer, ainda assim, que há luz no fim do túnel. O
projeto de reconstrução do Iraque e do Afeganistão,
que deverá consumir 87 bilhões de dólares,
é o maior bancado pelos EUA desde o Plano Marshall, criado
para a reconstrução da Europa depois da II Guerra.
Pelo menos 2 milhões de crianças iraquianas foram
vacinadas, existe fartura de comida e o governo provisório
está recuperando escolas e hospitais. No total, mais de 13.000
projetos estão sendo tocados. A maioria dos iraquianos não
esconde a irritação com a falta de segurança
e as denúncias de corrupção envolvendo integrantes
do governo provisório. Mas, no fim das contas, eles estão
no mesmo dilema: se os Estados Unidos forem embora derrotados, como
reconstruirão as instituições de seu país
estando colocados num caldeirão que é habitado ao
mesmo tempo por gente fiel a Saddam Hussein? Afinal, essa gente
se mostrou disposta a explodir até a ONU e a Cruz Vermelha
para deixar claro até onde vai sua determinação.
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