Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Iraque
É encrenca. Mas não é o Vietnã

Atentado contra a sede da Cruz Vermelha
mostra até onde os terroristas estão
dispostos a ir para impor seus pontos
de vista ao Iraque conflagrado


AP
INIMIGO INVISÍVEL
Emboscada contra soldados americanos numa estrada perto de Bagdá: baixas após a queda de Saddam já superam as da guerra


Notícias diárias

Nada mais fácil que explicar o terrorismo no Iraque como uma erupção do clássico modelo de resistência popular à ocupação estrangeira. Também é atraente recorrer à analogia simplista com o Vietnã, onde os Estados Unidos foram derrotados por um povo em armas, e dizer que os americanos não devem esperar outra coisa dos iraquianos dispostos a tudo para libertar seu país. O terrorista suicida que na semana passada jogou uma ambulância lotada de explosivos contra o prédio da Cruz Vermelha em Bagdá, matando doze pessoas, deixou explícito que a questão é mais complexa. Se o objetivo fosse desmoralizar as tropas americanas e demonstrar que os EUA são incapazes de garantir a ordem e a reconstrução, seria possível escolher entre uma infinidade de alvos militares. Numa luta de libertação nacional, atacar uma organização humanitária, reconhecida por sua neutralidade em conflitos e que há vinte anos atua no Iraque, seria a pior coisa a ser feita pela causa. É bom lembrar que, dois meses atrás, um caminhão-bomba pôs abaixo o prédio da ONU na capital iraquiana, matando o chefe da missão, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Foi difícil entender o porquê desse atentado. Mas diplomatas e analistas sérios tentaram colocar a matança no contexto dos doze anos de embargo ao Iraque patrocinado pela ONU. Com a Cruz Vermelha, não há espaço para esse tipo de racionalização enganosa.

Ao atacarem o espaço humanitário, os terroristas mandaram um recado duplo àqueles que teimam em não entender seus motivos. A primeira parte da mensagem é que não há limites para o que podem fazer para impor sua vontade ao mundo, visto que estão convictos de que essa é a vontade de Alá. Nesse aspecto, atacar a Cruz Vermelha segue a lógica dos atentados de 11 de setembro: a intenção é afogar num banho de sangue alguns dos princípios mais prezados da civilização moderna, exatamente aqueles que pregam a convivência com a diferença. A segunda é que, como escreveu o colunista Thomas L. Friedman, no The New York Times, não estão matando para que os iraquianos governem a si próprios. Estão matando para que eles, os terroristas, governem os iraquianos. O medo deles é o de mudanças permanentes no Iraque – ou seja, a democracia que o presidente George W. Bush prometeu promover no mundo árabe. Bush está em apuros para explicar as armas de destruição em massa, cuja posse por Saddam Hussein foi seu principal argumento para a guerra, e que não foram encontradas em lugar nenhum. O presidente americano se torna a cada dia mais odiado no mundo e suspeito, entre os americanos, de ter se metido numa guerra sem saída. É irônico que a brutalidade terrorista esteja reforçando a lógica alegada por Bush de que a derrota de Saddam Hussein, o ditador antes da invasão dos EUA, é parte importante na estratégia da luta contra o terror.


AP
NÃO ACABOU
Bush anuncia, em maio, o fim dos combates no Iraque, com a faixa "Missão Cumprida" ao fundo: precipitação

Há seis meses, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln enfeitado com uma faixa em que se lia "Missão cumprida", Bush anunciou o fim dos combates no Iraque. Vê-se agora que a missão está longe de ser cumprida. A semana passada, que marcou o início do Ramadã, o mês santo em que os muçulmanos se dedicam ao jejum e às orações, foi especialmente letal. Os atentados em várias cidades iraquianas mataram pelo menos quarenta pessoas, a maioria iraquianos. As tropas americanas são alvo de uma média de 25 ataques por dia. Desde maio, 117 soldados americanos foram mortos – superando o número de baixas na guerra – e 1 129 saíram feridos em emboscadas e atentados. O custo da intervenção, em sangue e dinheiro, está mais caro que o previsto. A idéia de que a invasão foi uma estupidez começa a se consolidar como bandeira da oposição democrata para as eleições presidenciais de 2004. Neste momento, só existe um cenário pior: aquele em que Bush decide abandonar seu plano de instaurar uma democracia no Iraque. Ainda não se está nem perto disso. Mas, se ocorrer, o fracasso americano terá conseqüências pesadas para os EUA e talvez para o resto do mundo. O que aconteceria no Iraque diante de uma retirada abrupta das tropas americanas é impossível prever. Há no Iraque uma equação em que se mesclam invasão estrangeira, fanatismo religioso e terrorismo. Quem passaria a deter o comando do Iraque numa situação de caos é uma incógnita.

Bush está pagando o preço de uma invasão realizada às pressas, sem um planejamento adequado sobre o que fazer depois da vitória. Quando a guerra acabou, não havia soldados em quantidade suficiente para desarmar os combatentes iraquianos e manter a ordem nas cidades. Para piorar, os Estados Unidos dissolveram o Exército iraquiano, o que jogou na rua milhares de homens armados, sem pagamento nem motivo para gostar dos americanos. O esforço para reconstruir o país esbarrou na improvisação. O Iraque produz metade do petróleo que extraía antes da guerra. A energia elétrica ainda falha em Bagdá e em outras cidades. A questão que mais preocupa é, de longe, a falta de segurança. As taxas de risco encarecem em até 45% o preço dos fretes, equipamentos e até da mão-de-obra das empresas estrangeiras. Os serviços de um guarda-costas custam 1.200 dólares por dia – e são necessários no mínimo dois para dar proteção a um empresário.

AP
CONFIANÇA ZERO
Soldada americana revista uma criança em Bagdá: atentados acirram tensão entre as tropas invasoras e a população iraquiana


A maioria dos ataques está concentrada no chamado triângulo sunita .– cidades onde a etnia à qual pertencem os remanescentes do antigo regime predomina, entre as quais se incluem Bagdá, Fallujah e Tikrit (terra natal de Saddam Hussein). Supõe-se que os atacantes sejam remanescentes das milícias do partido de Saddam, reforçadas com terroristas estrangeiros da Al Qaeda, a organização de Osama bin Laden, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001. Os piores atentados da semana passada ocorreram na área de 10 quilômetros quadrados da zona verde de Bagdá, onde estão situados os melhores hotéis, os prédios públicos e os principais postos de controle militar americanos – ou seja, a que deveria ser a mais segura da capital iraquiana. Na manhã de domingo 26, o Hotel Al Rashid foi atingido por uma saraivada de mísseis artesanais disparada a uma distância de 400 metros, por controle remoto. Um deles explodiu um andar abaixo de onde estava hospedado o subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz, matando um coronel americano – o militar de mais alta patente morto no Iraque. A situação é um pouco mais tranqüila no sul do país, onde vivem os xiitas, e bem pacífica no norte, reduto dos curdos, minoria que Saddam perseguia.

Pode-se dizer, ainda assim, que há luz no fim do túnel. O projeto de reconstrução do Iraque e do Afeganistão, que deverá consumir 87 bilhões de dólares, é o maior bancado pelos EUA desde o Plano Marshall, criado para a reconstrução da Europa depois da II Guerra. Pelo menos 2 milhões de crianças iraquianas foram vacinadas, existe fartura de comida e o governo provisório está recuperando escolas e hospitais. No total, mais de 13.000 projetos estão sendo tocados. A maioria dos iraquianos não esconde a irritação com a falta de segurança e as denúncias de corrupção envolvendo integrantes do governo provisório. Mas, no fim das contas, eles estão no mesmo dilema: se os Estados Unidos forem embora derrotados, como reconstruirão as instituições de seu país estando colocados num caldeirão que é habitado ao mesmo tempo por gente fiel a Saddam Hussein? Afinal, essa gente se mostrou disposta a explodir até a ONU e a Cruz Vermelha para deixar claro até onde vai sua determinação.

 
 
 
 
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