Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Exportação
O Brasil menos vulnerável

Contas externas do país saem do
vermelho pela primeira vez desde 1992.
O desafio agora é mantê-las assim


Ronaldo França

Superávit é uma expressão tão estranha quanto é rara sua ocorrência na vida real das finanças dos países. O economista americano Martin Feldstein, da Universidade Harvard, chama esse fenômeno de "oportunidade de ouro", janelas que se abrem para os governos corrigirem suas próprias distorções, que são sempre pagas pelos cidadãos, seja na forma de imposto, inflação ou fraqueza econômica. Como lembra Feldstein em um artigo publicado pela revista inglesa de economia The Economist, mais raros ainda do que os superávits são os governantes que aproveitam bem essas oportunidades.

Na euforia econômica dos anos 90, os Estados Unidos sob Bill Clinton tiveram diversos superávits, entre eles o fiscal e o da previdência social. Seu sucessor, George W. Bush, desperdiçou ambos. O Brasil vai fechar este ano com superávit em sua conta de transações correntes. Esse é o nome dado ao que se ganha com exportações de bens e serviços, depois de descontados o que se paga pelas importações e os fabulosos juros da dívida externa. Será a primeira vez, em onze anos, que o Brasil fechará essa conta no azul. O último resultado positivo foi em 1992, quando o Plano Real nem era nascido. Feitas as contas, sobrarão 3,6 bilhões de dólares para reforçar as reservas internacionais do país. Mais do que essa sobra propriamente dita, o Brasil ter conseguido produzi-la é um fator que ajudará a tornar o câmbio menos vulnerável e o país mais resistente aos solavancos da economia mundial.

Se depender do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o superávit em conta corrente será perseguido nos próximos anos. As oportunidades também não serão perdidas. A posição do ministro é que o dinheiro do superávit deve ser usado para, a exemplo do que faz o Chile, diminuir o estoque da dívida externa, tornando o país menos dependente dos credores estrangeiros. A meta de Palocci é dificílima. Em primeiro lugar, porque, por mais disciplinadas que sejam as autoridades econômicas, esse é um objetivo cujo êxito não depende apenas do desempenho nem da determinação delas. Depende muito das circunstâncias. O resultado de agora, por exemplo, só foi obtido graças a uma conjunção de fatores externos favoráveis. A primeira razão foi a entrada da China como compradora no jogo do capitalismo global.

A China tornou-se o segundo maior importador individual de produtos brasileiros, com 6,6% de nossas exportações. O vigor da economia chinesa é, por sinal, uma das principais razões do aumento de 6% no comércio mundial neste ano. Do Brasil, os chineses têm comprado principalmente soja e minério de ferro, produtos que respondem por 74% da pauta de transações entre os dois países. Além do volume, o Brasil ganhou no preço. Esses dois produtos sofreram aumento de cotação no mercado internacional, o que elevou o ganho dessas operações e ajudou a produzir um acréscimo de 21% ao valor das exportações em dólar entre janeiro e setembro deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. O país deverá encerrar este ano com um saldo de 22 bilhões de dólares na balança comercial. Por fim, contribuíram para esse resultado a desvalorização do câmbio, que favoreceu fortemente as exportações no início deste ano, e a redução das importações, provocada pela recessão dos últimos meses.

A parcela de contribuição do governo nesse processo, como se vê, foi pequena. Mas, se souber aproveitar a "oportunidade de ouro" de que fala Feldstein, o governo terá feito seu papel. O tripé formado pela manutenção da disciplina fiscal, regime de metas de inflação e dólar flutuante está se mostrando o mais eficiente estabilizador já testado na economia brasileira. Nesse sistema, quando um dos itens entra em parafuso, os demais tendem a compensá-lo quase automaticamente. Até evidência muito forte em contrário, o mais inteligente é não mexer no tripé que está vencendo. Uma simulação feita pelos economistas Edward Amadeo e Juan Jensen, publicada pelo Boletim Tendências na semana passada, aponta as virtudes do tripé criado no governo de Fernando Henrique Cardoso e mantido intacto pelo PT. Na simulação, os economistas fazem uma intervenção heterodoxa no sistema. Eles estabelecem um piso de 3,5 reais por dólar para o câmbio e um teto de 3% para os juros reais. O exercício teórico dos economistas mostra um abismo entre a boa intenção e os resultados caóticos a que se chegaria na prática: inflação em disparada, calote, aumento do risco Brasil e interrupção da recuperação econômica. Eles concluem: "A recuperação econômica não só é esperada mas possível com a estratégia atual do governo".

O superávit em conta corrente, como se viu, foi impulsionado pelas exportações. Para mantê-lo será preciso continuar exportando muito, o que coloca na berlinda a maneira como o governo negociará a entrada do país na Área de Livre Comércio das Américas (Alca). "O Brasil ainda é uma economia muito fechada. Para gerar superávits, é preciso derrubar as barreiras, nem que seja de forma gradual", afirma Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. Quanto antes o país fechar um acordo bom na Alca, maior será a velocidade da retomada econômica. Crescerão as exportações e, com elas, mais dólares se juntarão às reservas internacionais. Não se pode imaginar, porém, que somente o ganho das exportações seja suficiente para, ao mesmo tempo, produzir superávits e impulsionar o crescimento interno. O país tem de voltar a investir, e para isso não basta o apelo feito há dez dias pelo ministro Palocci aos empresários brasileiros. É preciso buscar recursos externos, porque o país não tem poupança interna suficiente para fazer frente às necessidades de investimento. Sem dinheiro em caixa, o Brasil tem de buscar recursos externos na forma de investimentos. Um estudo do economista Sérgio Werlang, diretor do Banco Itaú e um dos criadores do sistema de metas de inflação, mostra que é possível ao Brasil atingir a classificação de "grau de investimento" até o fim desta década. É assim que se classificam os países que oferecem segurança equivalente à dos países industrializados a seus investidores.

O mais difícil o Brasil está conseguindo. "O país está começando a retomar o crescimento em uma situação muito mais favorável do que em períodos anteriores", afirma o diretor de política econômica do Banco Central, Afonso Bevilaqua. Apenas cinco anos atrás, havia um déficit em sua conta corrente de 33 bilhões de dólares, o que equivalia a 4,2% do produto interno bruto (o conjunto de riquezas que o país produz anualmente). As reservas cambiais chegaram a estar em 14 bilhões de dólares – um nível perigosamente baixo – e hoje já caminham para algo como 56 bilhões de dólares. É ainda pouco. Para atingir uma situação confortável, o Brasil precisa ter em reservas o dobro do valor de suas exportações. No caso brasileiro, isso chega a mais de 100 bilhões de dólares. Por isso é vital continuar buscando superávits na conta corrente e zelar por sua regularidade.

 

 

 
 
 
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