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Exportação
O Brasil menos vulnerável
Contas
externas do país saem do
vermelho pela primeira vez desde 1992.
O desafio agora é mantê-las assim

Ronaldo
França
Superávit
é uma expressão tão estranha quanto é
rara sua ocorrência na vida real das finanças dos países.
O economista americano Martin Feldstein, da Universidade Harvard,
chama esse fenômeno de "oportunidade de ouro", janelas que
se abrem para os governos corrigirem suas próprias distorções,
que são sempre pagas pelos cidadãos, seja na forma
de imposto, inflação ou fraqueza econômica.
Como lembra Feldstein em um artigo publicado pela revista inglesa
de economia The Economist, mais raros ainda do que os superávits
são os governantes que aproveitam bem essas oportunidades.
Na euforia econômica dos anos 90, os Estados Unidos sob Bill
Clinton tiveram diversos superávits, entre eles o fiscal
e o da previdência social. Seu sucessor, George W. Bush, desperdiçou
ambos. O Brasil vai fechar este ano com superávit em sua
conta de transações correntes. Esse é o nome
dado ao que se ganha com exportações de bens e serviços,
depois de descontados o que se paga pelas importações
e os fabulosos juros da dívida externa. Será a primeira
vez, em onze anos, que o Brasil fechará essa conta no azul.
O último resultado positivo foi em 1992, quando o Plano Real
nem era nascido. Feitas as contas, sobrarão 3,6 bilhões
de dólares para reforçar as reservas internacionais
do país. Mais do que essa sobra propriamente dita, o Brasil
ter conseguido produzi-la é um fator que ajudará a
tornar o câmbio menos vulnerável e o país mais
resistente aos solavancos da economia mundial.
Se
depender do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o superávit
em conta corrente será perseguido nos próximos anos.
As oportunidades também não serão perdidas.
A posição do ministro é que o dinheiro do superávit
deve ser usado para, a exemplo do que faz o Chile, diminuir o estoque
da dívida externa, tornando o país menos dependente
dos credores estrangeiros. A meta de Palocci é dificílima.
Em primeiro lugar, porque, por mais disciplinadas que sejam as autoridades
econômicas, esse é um objetivo cujo êxito não
depende apenas do desempenho nem da determinação delas.
Depende muito das circunstâncias. O resultado de agora, por
exemplo, só foi obtido graças a uma conjunção
de fatores externos favoráveis. A primeira razão foi
a entrada da China como compradora no jogo do capitalismo global.
A China tornou-se o segundo maior importador individual de produtos
brasileiros, com 6,6% de nossas exportações. O vigor
da economia chinesa é, por sinal, uma das principais razões
do aumento de 6% no comércio mundial neste ano. Do Brasil,
os chineses têm comprado principalmente soja e minério
de ferro, produtos que respondem por 74% da pauta de transações
entre os dois países. Além do volume, o Brasil ganhou
no preço. Esses dois produtos sofreram aumento de cotação
no mercado internacional, o que elevou o ganho dessas operações
e ajudou a produzir um acréscimo de 21% ao valor das exportações
em dólar entre janeiro e setembro deste ano em relação
ao mesmo período do ano passado. O país deverá
encerrar este ano com um saldo de 22 bilhões de dólares
na balança comercial. Por fim, contribuíram para esse
resultado a desvalorização do câmbio, que favoreceu
fortemente as exportações no início deste ano,
e a redução das importações, provocada
pela recessão dos últimos meses.
A parcela de contribuição do governo nesse processo,
como se vê, foi pequena. Mas, se souber aproveitar a "oportunidade
de ouro" de que fala Feldstein, o governo terá feito seu
papel. O tripé formado pela manutenção da disciplina
fiscal, regime de metas de inflação e dólar
flutuante está se mostrando o mais eficiente estabilizador
já testado na economia brasileira. Nesse sistema, quando
um dos itens entra em parafuso, os demais tendem a compensá-lo
quase automaticamente. Até evidência muito forte em
contrário, o mais inteligente é não mexer no
tripé que está vencendo. Uma simulação
feita pelos economistas Edward Amadeo e Juan Jensen, publicada pelo
Boletim Tendências na semana passada, aponta as virtudes
do tripé criado no governo de Fernando Henrique Cardoso e
mantido intacto pelo PT. Na simulação, os economistas
fazem uma intervenção heterodoxa no sistema. Eles
estabelecem um piso de 3,5 reais por dólar para o câmbio
e um teto de 3% para os juros reais. O exercício teórico
dos economistas mostra um abismo entre a boa intenção
e os resultados caóticos a que se chegaria na prática:
inflação em disparada, calote, aumento do risco Brasil
e interrupção da recuperação econômica.
Eles concluem: "A recuperação econômica não
só é esperada mas possível com a estratégia
atual do governo".
O superávit em conta corrente, como se viu, foi impulsionado
pelas exportações. Para mantê-lo será
preciso continuar exportando muito, o que coloca na berlinda a maneira
como o governo negociará a entrada do país na Área
de Livre Comércio das Américas (Alca). "O Brasil ainda
é uma economia muito fechada. Para gerar superávits,
é preciso derrubar as barreiras, nem que seja de forma gradual",
afirma Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central, diretor do
Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio
Vargas. Quanto antes o país fechar um acordo bom na Alca,
maior será a velocidade da retomada econômica. Crescerão
as exportações e, com elas, mais dólares se
juntarão às reservas internacionais. Não se
pode imaginar, porém, que somente o ganho das exportações
seja suficiente para, ao mesmo tempo, produzir superávits
e impulsionar o crescimento interno. O país tem de voltar
a investir, e para isso não basta o apelo feito há
dez dias pelo ministro Palocci aos empresários brasileiros.
É preciso buscar recursos externos, porque o país
não tem poupança interna suficiente para fazer frente
às necessidades de investimento. Sem dinheiro em caixa, o
Brasil tem de buscar recursos externos na forma de investimentos.
Um estudo do economista Sérgio Werlang, diretor do Banco
Itaú e um dos criadores do sistema de metas de inflação,
mostra que é possível ao Brasil atingir a classificação
de "grau de investimento" até o fim desta década.
É assim que se classificam os países que oferecem
segurança equivalente à dos países industrializados
a seus investidores.
O mais difícil o Brasil está conseguindo. "O país
está começando a retomar o crescimento em uma situação
muito mais favorável do que em períodos anteriores",
afirma o diretor de política econômica do Banco Central,
Afonso Bevilaqua. Apenas cinco anos atrás, havia um déficit
em sua conta corrente de 33 bilhões de dólares, o
que equivalia a 4,2% do produto interno bruto (o conjunto de riquezas
que o país produz anualmente). As reservas cambiais chegaram
a estar em 14 bilhões de dólares um nível
perigosamente baixo e hoje já caminham para algo como
56 bilhões de dólares. É ainda pouco. Para
atingir uma situação confortável, o Brasil
precisa ter em reservas o dobro do valor de suas exportações.
No caso brasileiro, isso chega a mais de 100 bilhões de dólares.
Por isso é vital continuar buscando superávits na
conta corrente e zelar por sua regularidade.
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