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Governo
Eles
adoram Lula
Com
prestígio em alta no exterior, o
presidente brasileiro vira estrela de
um encontro mundial de esquerda, e
uma pesquisa com a elite lhe dá o título
de melhor presidente da América Latina

Alexandre
Oltramari
O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva recebeu afagos internacionais na
semana passada. Pela primeira vez, realizou-se fora do hemisfério
norte um congresso da Internacional Socialista, cinqüentenária
entidade que pretendeu um dia servir de farol mundial para a esquerda
socialista e social-democrata. A deferência geográfica
a escolha de São Paulo como sede do congresso
foi uma forma de prestigiar Lula e o PT, ainda que líderes
expressivos da entidade, como o inglês Tony Blair e o alemão
Gerhard Schroeder, não tenham aparecido. Lula foi a estrela
do encontro. A platéia, com doze chefes de governo, ficou
três dias ouvindo os discursos esquerdistas de praxe, que
parecem impermeáveis à passagem do tempo. Outro afago
veio de uma pesquisa na qual a elite econômica e intelectual
dos seis principais países da América Latina foi perguntada,
entre outros temas, sobre quem é o melhor presidente da região.
Deu Lula na cabeça, com 34% das preferências, quase
o dobro do segundo lugar, o chileno Ricardo Lagos.
De
acordo com a pesquisa, Lula lidera em todos os itens. Além
de ser o modelo preferido de presidente, ele ganha na aprovação
geral e disputa o primeiro lugar com Lagos no quesito de líder
que mais contribui para consolidar a democracia. Na edição
anterior da pesquisa, do ano passado, também feita pelo Zogby
International Poll a pedido da escola de administração
da Universidade de Miami, o melhor presidente da América
Latina era o mexicano Vicente Fox que agora aparece em quinto
lugar. O segundo colocado, na época, era o presidente Fernando
Henrique Cardoso. Isso significa que, nos últimos tempos,
o Brasil tem sido bem visto pelos países vizinhos. Além
das qualidades pessoais de Lula e FHC, há outro dado embutido
nesse resultado o Brasil mudou. "Há dez anos, o Brasil
era um país doente. Foi o último a voltar à
democracia e vivia a hiperinflação", diz José
Augusto Guilhon Albuquerque, professor de relações
internacionais da Universidade de São Paulo. "De lá
para cá isso mudou, e o Brasil ainda ganhou liderança
na formação do Mercosul." Ou seja: hoje em dia, ser
presidente de um país como o Brasil, por si só, ajuda
a trazer algum prestígio.
Joedson Alves/AE
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| José
María Aznar, premiê da Espanha, em visita ao Brasil:
nem tão conservador assim, disse Lula |
Na
Europa, Lula é festejado por sua biografia pessoal, que exala
aquele bálsamo de exotismo tão ao gosto europeu. Além
disso, em seus discursos no exterior, principalmente quando renega
o improviso e se atém ao que escreveram os diplomatas do
Itamaraty, Lula tem-se mostrado um governante equilibrado e capaz,
enterrando as dúvidas de despreparado suscitadas por sua
escassa escolaridade, um dado altamente valorizado pelas sociedades
européias e que tanto ajudou na formação do
prestígio internacional do sociólogo FHC. Com isso,
Lula tem conquistado certa simpatia de chefes de governo europeus,
não importa a inclinação ideológica
de cada um. Na semana passada, recebeu o primeiro-ministro da Espanha,
José María Aznar, e fez questão de dizer que
nem Aznar é "tão conservador" quanto ele, Lula, imaginara
nem ele é "tão esquerda" quanto Aznar deve
ter pensado. No plano político, porém, o prestígio
de Lula na Europa está em mutação. Sua eleição,
num primeiro momento, despertou o entusiasmo da esquerda, que enxergou
no triunfo do PT uma possibilidade rara de realização
de um governo antiglobalização e transformou Lula
em ícone.
Jose Luis Magana/AP
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| Fox,
do México: de primeiro para quinto lugar |
Passados dez meses de governo, essa mesma esquerda, mais radical
que os membros da Internacional Socialista, já começou
a tomar distância do governo petista, decepcionada com a manutenção
da cartilha pela qual FHC governou. Na América Latina, a
pesquisa do instituto Zogby aponta para o mesmo fenômeno:
Lula é considerado modelar, na opinião de uma parcela
da elite, justamente porque se distanciou do esquerdismo dos palanques.
É quase como se a elite, em vez de preferência, estivesse
externando surpresa e alívio diante do comportamento sensato
de Lula. O prestígio de Lula parece ser fruto da capacidade
de atender a interesses da elite e penetrar no imaginário
popular. "Seu discurso agrada ao povo, com a preocupação
com o social, e ao mesmo tempo agrada à elite, com o respeito
aos contratos e o compromisso com a responsabilidade fiscal", analisa
Ricardo Caldas, professor de ciência política da Universidade
de Brasília.
Somando
sua biografia de sucesso e seu carisma pessoal à importância
regional do Brasil, Lula encontrou um terreno propício para
projetar-se lá fora, e também contou com uma pitada
de sorte. "Há uma crise de lideranças na América
Latina", diagnostica o professor Ricardo Caldas. "Fernando Henrique
ocupou esse espaço vazio e Lula está fazendo a mesma
coisa." Em geral, a percepção externa de um governante
é mais lenta e mais desinteressada que a interna. Por isso,
não é incomum que um presidente com algum renome internacional
seja mais popular fora do que dentro de seu país. FHC, que
se notabilizou pela excelência de sua diplomacia presidencial,
viveu esse descompasso. Até agora, Lula tem conseguido manter
uma harmonia entre seu prestígio lá fora e o que tem
aqui dentro. Mas, na última pesquisa de popularidade, realizada
pelo instituto Sensus, o eleitorado apresentou seus primeiros sinais
de insatisfação com Lula. Sua popularidade caiu de
76,7% para 70,6%. É uma taxa ainda elevadíssima, situada
em alturas jamais visitadas pelos antecessores, mas traça
uma tendência de queda. Talvez Lula esteja começando
a experimentar o mesmo descompasso vivido por FHC. Um dos motivos
de certa decepção provocada nos brasileiros é
o contraste entre a luxuriante quantidade de promessas de Lula no
campo social e uma execução medíocre, mesmo
porque não há dinheiro no governo para milagres e
os quadros petistas, na maioria, são fracos para produzir
melhorias apenas à base de idéias criativas.

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