Edição 1827 . 5 de novembro de 2003

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Governo
Eles adoram Lula

Com prestígio em alta no exterior, o
presidente brasileiro vira estrela de
um encontro mundial de esquerda, e
uma pesquisa com a elite lhe dá o título
de melhor presidente da América Latina


Alexandre Oltramari


Notícias diárias sobre o governo Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu afagos internacionais na semana passada. Pela primeira vez, realizou-se fora do hemisfério norte um congresso da Internacional Socialista, cinqüentenária entidade que pretendeu um dia servir de farol mundial para a esquerda socialista e social-democrata. A deferência geográfica – a escolha de São Paulo como sede do congresso – foi uma forma de prestigiar Lula e o PT, ainda que líderes expressivos da entidade, como o inglês Tony Blair e o alemão Gerhard Schroeder, não tenham aparecido. Lula foi a estrela do encontro. A platéia, com doze chefes de governo, ficou três dias ouvindo os discursos esquerdistas de praxe, que parecem impermeáveis à passagem do tempo. Outro afago veio de uma pesquisa na qual a elite econômica e intelectual dos seis principais países da América Latina foi perguntada, entre outros temas, sobre quem é o melhor presidente da região. Deu Lula na cabeça, com 34% das preferências, quase o dobro do segundo lugar, o chileno Ricardo Lagos.

De acordo com a pesquisa, Lula lidera em todos os itens. Além de ser o modelo preferido de presidente, ele ganha na aprovação geral e disputa o primeiro lugar com Lagos no quesito de líder que mais contribui para consolidar a democracia. Na edição anterior da pesquisa, do ano passado, também feita pelo Zogby International Poll a pedido da escola de administração da Universidade de Miami, o melhor presidente da América Latina era o mexicano Vicente Fox – que agora aparece em quinto lugar. O segundo colocado, na época, era o presidente Fernando Henrique Cardoso. Isso significa que, nos últimos tempos, o Brasil tem sido bem visto pelos países vizinhos. Além das qualidades pessoais de Lula e FHC, há outro dado embutido nesse resultado – o Brasil mudou. "Há dez anos, o Brasil era um país doente. Foi o último a voltar à democracia e vivia a hiperinflação", diz José Augusto Guilhon Albuquerque, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo. "De lá para cá isso mudou, e o Brasil ainda ganhou liderança na formação do Mercosul." Ou seja: hoje em dia, ser presidente de um país como o Brasil, por si só, ajuda a trazer algum prestígio.


Joedson Alves/AE
José María Aznar, premiê da Espanha, em visita ao Brasil: nem tão conservador assim, disse Lula

Na Europa, Lula é festejado por sua biografia pessoal, que exala aquele bálsamo de exotismo tão ao gosto europeu. Além disso, em seus discursos no exterior, principalmente quando renega o improviso e se atém ao que escreveram os diplomatas do Itamaraty, Lula tem-se mostrado um governante equilibrado e capaz, enterrando as dúvidas de despreparado suscitadas por sua escassa escolaridade, um dado altamente valorizado pelas sociedades européias e que tanto ajudou na formação do prestígio internacional do sociólogo FHC. Com isso, Lula tem conquistado certa simpatia de chefes de governo europeus, não importa a inclinação ideológica de cada um. Na semana passada, recebeu o primeiro-ministro da Espanha, José María Aznar, e fez questão de dizer que nem Aznar é "tão conservador" quanto ele, Lula, imaginara – nem ele é "tão esquerda" quanto Aznar deve ter pensado. No plano político, porém, o prestígio de Lula na Europa está em mutação. Sua eleição, num primeiro momento, despertou o entusiasmo da esquerda, que enxergou no triunfo do PT uma possibilidade rara de realização de um governo antiglobalização e transformou Lula em ícone.

Jose Luis Magana/AP
Fox, do México: de primeiro para quinto lugar


Passados dez meses de governo, essa mesma esquerda, mais radical que os membros da Internacional Socialista, já começou a tomar distância do governo petista, decepcionada com a manutenção da cartilha pela qual FHC governou. Na América Latina, a pesquisa do instituto Zogby aponta para o mesmo fenômeno: Lula é considerado modelar, na opinião de uma parcela da elite, justamente porque se distanciou do esquerdismo dos palanques. É quase como se a elite, em vez de preferência, estivesse externando surpresa e alívio diante do comportamento sensato de Lula. O prestígio de Lula parece ser fruto da capacidade de atender a interesses da elite e penetrar no imaginário popular. "Seu discurso agrada ao povo, com a preocupação com o social, e ao mesmo tempo agrada à elite, com o respeito aos contratos e o compromisso com a responsabilidade fiscal", analisa Ricardo Caldas, professor de ciência política da Universidade de Brasília.

Somando sua biografia de sucesso e seu carisma pessoal à importância regional do Brasil, Lula encontrou um terreno propício para projetar-se lá fora, e também contou com uma pitada de sorte. "Há uma crise de lideranças na América Latina", diagnostica o professor Ricardo Caldas. "Fernando Henrique ocupou esse espaço vazio e Lula está fazendo a mesma coisa." Em geral, a percepção externa de um governante é mais lenta e mais desinteressada que a interna. Por isso, não é incomum que um presidente com algum renome internacional seja mais popular fora do que dentro de seu país. FHC, que se notabilizou pela excelência de sua diplomacia presidencial, viveu esse descompasso. Até agora, Lula tem conseguido manter uma harmonia entre seu prestígio lá fora e o que tem aqui dentro. Mas, na última pesquisa de popularidade, realizada pelo instituto Sensus, o eleitorado apresentou seus primeiros sinais de insatisfação com Lula. Sua popularidade caiu de 76,7% para 70,6%. É uma taxa ainda elevadíssima, situada em alturas jamais visitadas pelos antecessores, mas traça uma tendência de queda. Talvez Lula esteja começando a experimentar o mesmo descompasso vivido por FHC. Um dos motivos de certa decepção provocada nos brasileiros é o contraste entre a luxuriante quantidade de promessas de Lula no campo social e uma execução medíocre, mesmo porque não há dinheiro no governo para milagres e os quadros petistas, na maioria, são fracos para produzir melhorias apenas à base de idéias criativas.

 

 

 
 
 
 
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