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Ponto
de vista: Lya Luft Tirem
as crianças da sala
"Na hora das CPIs,
em que alguns de nossos 'representantes' berram insultos e
trocam tapas, façam como fariam se passasse na televisão
um filme pornográfico: tirem as crianças da sala"
"Ama-me como sou", diz o belo filme de Tizuka Yamazaki, que
é uma boa lição sobre o amor. O pedido é difícil,
e não sei se é justo: "eu sou assim", "as coisas são como
são", "não adianta espernear porque nada muda mesmo". Quando se
trata de nosso país, as frases são mais ou menos essas, mas são
frases perigosas. Melhor dizer: estamos neste período;
então, como agir de modo eficaz para que a situação melhore
dentro do possível? Isso é realismo político, que nos falta
num Brasil em que se encontra uma utopia em cada esquina, uma ideologia para cada
gosto: marxismo terceiro-mundista, cristianismo revolucionário, todas as
formas de messianismo, nacionalismo desenvolvimentista, e por aí vai.
Ilustração
Atomica Studio
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Como
amar neste momento esta terra nossa? Esperando e exigindo muito mais do que está
sendo feito. Gritando e reclamando que se aprumem, se respeitem, nos respeitem
e nos tratem melhor. Desejando que não acabe tudo numa geral acomodação,
poucos bois de piranha atirados às águas turvas.
Como a nossa tendência é de luto e lamentação por chateações
eventuais, estaremos nos queixando demais por coisa menor, ou vivemos realmente
uma tragédia moral nacional? Receio que
sim, é uma tragédia. Receio que a situação seja dramática,
mais ainda na medida em que o tempo passa e nada se resolve. O hábito funesto
de varrer os problemas para debaixo dos tapetes da indiferença e da conformidade
volta a ser cultivado, depois de um início entusiástico de descobertas
e acusações. Multiplicaram-se num
momento inicial as revelações, ameaças e cifras que não
conseguimos avaliar e que por isso nos atingem menos. Aos poucos, porém,
tudo vai ficando morno e repetitivo, tedioso mesmo, quando não irreal,
impossível. Acontece em algum país distante, não aqui.
Mas é aqui, é na nossa vida concreta, é no nosso bolso e
na nossa honra que tudo acontece. Ainda nos iludimos achando que as coisas vão
acabar bem, que não são tão ruins quanto parecem, que ninguém
consegue nadar contra a correnteza, e o melhor é cada um tratar da sua
vida, que corrupção e logro fazem parte da política. Sinto
muito dizer que não fazem parte como coisa normal, e que a gente não
os pode aceitar, até por respeito aos políticos honrados que também
conhecemos. Precisamos muito deles neste momento
crítico, precisamos de homens de personalidade forte e convicções
sólidas, com boa dose de realismo. Para que finalmente alguém diga
a verdade, que não precisa ser buscada, pois muitos já conhecem
a origem e o destino daquele oceano de dinheiro e de imoralidade ainda encoberto
para a maioria de nós. Homens com independência suficiente e vontade
real de transformar este país em um lugar mais limpo. Não acredito
que não se possa fazer a necessária faxina, tirando de seus cargos,
prendendo ou expulsando os corruptos mais conhecidos (e os ainda ocultos) do Brasil.
Agora, raio de esperança, descobre-se que
também o esporte pode estar contaminado. De futebol as pessoas entendem
melhor, sentem diretamente no bolso o mau uso do sacrificado dinheiro das entradas
dos jogos, dos quais alguns resultados, talvez, tenham sido fraudados. E quem
sabe farão a ponte: também estamos sendo fraudados nesses temas
obscuros que paralisam o país. Isso tem de acabar!!!
Como pouco podemos fazer a não ser pelo voto e pela postura prática,
deixo aqui a minha sugestão: amemos do jeito que dá, em cada ocasião,
a cada pessoa ou coisa, ou a este país, sem desistir de uma limpeza profunda
já embora possivelmente acabemos lutando contra moinhos de vento,
enquanto as águas escuras sobem, sobem...
Mas, por favor, ao menos na hora das CPIs, em que alguns de nossos "representantes"
berram insultos e trocam tapas, quando não fazem perguntas medíocres
e desinformadas, façam como fariam se passasse na televisão um filme
pornográfico: tirem as crianças da sala. Lya
Luft é escritora |