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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O melão tentador
e outras histórias
Variações
em torno desse singular
exemplar
do gênero humano que é
o juiz de futebol
Antes, eles só se vestiam
de preto. Já no uniforme se denunciavam como figuras cavernosas,
urubus azarentos, anjos maus do luto e do agouro. Depois, assim
como os padres, foram liberados do traje funéreo. E os juízes
de futebol passaram a se apresentar com camisas e calções
de outras cores. Numa outra e mais revolucionária mudança,
e ao contrário do que acontece entre os padres, mulheres
passaram a ser admitidas em seu meio. Uma coisa, porém, não
mudou por mais que as camisas sejam azuis ou amarelas, em vez de
pretas, e as coxas sejam roliças e suaves, em vez de ásperas
e peludas. O juiz é um salafrário. Todo juiz é
culpado até prova em contrário. Pensando bem, é
culpado mesmo com prova em contrário.
Já quando ele entra no
gramado, é recebido com vaia. Não há caso similar,
em nenhuma outra atividade humana. É a "vaia preventiva",
como bem chamou o colunista Luiz Zanin, no Estado de S. Paulo.
Os minutos que antecedem o jogo são festivos. Ninguém
ainda tem motivo para queixa. As torcidas cantam. Paira no ar aquela
eletricidade em parte feita de alegria, em parte de tensa expectativa.
Então desponta em campo "sua senhoria", como era chamado,
ou talvez ainda seja, pela crônica esportiva, e desaba sobre
ela, bem como sobre os bandeirinhas, que a escoltam, uma vaia estrondosa,
avassaladora, acachapante. É o único momento em que
o estádio todo se une. Durante o jogo o juiz será
vaiado por uma ou outra torcida, mas agora são as duas juntas,
e mesmo os eventuais neutros, e talvez até os estrangeiros
presentes sem outro propósito senão fazer turismo,
que se irmanam num desmoralizante uníssono. Trata-se de um
dos mais antigos e mais sagrados rituais do futebol. Ele não
fez nada ainda, nem de certo nem de errado. Por isso mesmo, merece
vaia.
A quadrilha dos gramados denunciada
na última edição desta revista pôs em
evidência essa extraordinária variante do gênero
humano que é o juiz de futebol. Que culpas, que necessidade
de expiações colossais leva alguém a abraçar
tal profissão? Um comercial de televisão de pouco
tempo atrás mostrava Ronaldinho Gaúcho, ainda menino,
metido num uniforme de juiz e de apito na boca. "Eu não queria
ser jogador, queria ser juiz", dizia ele. Até que um dia
chutou uma lata de refrigerante e descobriu sua verdadeira vocação.
O comercial provocava pasmo e hilaridade, menos pelo paradoxo de
um craque, e um craque do calibre de Ronaldinho Gaúcho, estar
a apregoar que queria mesmo era ser juiz, mas, mais ainda, pelo
fato de um garoto dizer que queria ser juiz. Não há
isso. Juiz de futebol é profissão com a qual não
se sonha na infância.
Um juiz pode ser honestíssimo,
a grande maioria deles sem dúvida é honesta, mas o
protótipo da classe, irremediavelmente, é o juiz ladrão.
Sobre esse personagem correm, desde os primórdios do futebol,
lendas espantosas. Há a história do juiz tão
ladrão, mas tão ladrão, que se vendeu para
os dois lados, e passou o jogo todo roubando descaradamente, ora
para um time, ora para o outro. Aparentada a essa é a do
juiz tão ladrão, mas tão ladrão, que
os times costumavam juntar-se e pagar-lhe um contra-suborno, para
que não roubasse.
No atual escândalo, dignos
de entrar no repertório são os casos em que o juiz
Edilson Pereira de Carvalho confessa que não conseguiu roubar
como queria. No jogo Juventude x Figueirense, ele devia fazer o
Juventude ganhar, mas ganhou o Figueirense 4 a 1. "O Edmundo
jogou demais", desculpou-se. No jogo Santos x Corinthians, o serviço
devia ser feito para o Corinthians, mas ganhou o Santos 4
a 2. As escutas telefônicas revelam um Edilson abatido com
o fracasso e ansioso por se recuperar no jogo seguinte. Estava em
jogo sua reputação. Ele não podia suportar
o vexame da inépcia na prática da ladroagem.
O juiz desonesto, nos tempos
heróicos do futebol, era chamado pelo romântico qualificativo
de "gaveteiro". No futebol de São Paulo, fama de gaveteiro
por excelência coube durante muitos anos a um personagem célebre
em seu tempo, João Etzel Filho. É atribuída
a ele uma história aproveitada no filme Boleiros,
de Ugo Giorgetti, aquela em que o juiz cansa de mandar repetir um
pênalti, batido por um jogador inepto, e decide, ele próprio,
impedir aquele jogador de tentar de novo. Que o time arrumasse outro
cobrador. Etzel não chegou a admitir que roubava, mas se
vangloriava de saber apitar "politicamente". Seja lá isso
o que for, não deve ser boa coisa.
Uma vez, durante um jogo Palmeiras
x Portuguesa, um torcedor junto do alambrado insistia em chamar
a atenção de Etzel para um melão que tinha
na mão. O juiz olhava para o torcedor e este lhe apontava
o melão. Olhava, e lá vinha o melão. Terminado
o jogo, Etzel foi perguntar ao homem que diabos significava aquilo.
O torcedor explicou: dentro do melão estava escondido um
dinheiro para sua senhoria. Etzel, ao contar essa história,
dizia que reagiu indignado e denunciou o caso à federação,
mas sabe-se como é melão, assim como mensalão,
só se oferece a quem se sabe de antemão que tende
a apreciá-los.
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