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Livros Maldito
coração Contra o Amor
é um panfleto simplista, mas espirituoso

Jerônimo Teixeira
Divulgação  |
| Jovem se Defende
de Eros, do francês Bouguereau: para a autora, o amor é um vendedor
de antidepressivos |
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Apesar
de seu título agressivo, o ensaio Contra o Amor (tradução
de Ryta Vinagre; Record; 240 páginas; 34,90 reais) é, no fundo,
um livro água-com-açúcar. Sob o tom inflamado com que a autora,
a americana Laura Kipnis, ataca o casamento monogâmico, subsiste uma crença
ingênua no desejo sexual como motor das revoluções
uma bandeira esfarrapada que Laura, professora de comunicação da
Universidade Northwestern, em Illinois, foi buscar nas barricadas estudantis dos
anos 60. Descontada essa agenda política anacrônica, Contra o
Amor é uma leitura estimulante até para os alvos preferenciais
da autora os casados. O livro pode trazer uma boa vacina de realismo: na
contracorrente das baboseiras de auto-ajuda que entopem as livrarias, Laura mostra
que não existe amor sem certa dose de frustração. Amar uma
só pessoa pode ser dilacerante: a relação tende ao esfriamento,
à rotina, e o desejo, sempre inquieto, costuma sair em busca de alternativas
na forma de vizinhos, amigos, colegas de trabalho.
Contra o Amor retrata o lado mais fastidioso do amor
conjugal. Laura desfia nove páginas (aliás, hilárias) com
uma lista de interdições costumeiramente impostas por um cônjuge
ao outro: de não deixar a cama logo depois do sexo a não comer alho.
O livro toca naquelas verdades fundamentais que deveriam ser óbvias, mas
não são: a saber, que o amor, ao contrário do que ensina
o cinema hollywoodiano, não garante felicidade. Mas, como todo panfleto,
a obra peca pelo raciocínio simplista. Resumindo seus argumentos: o ideal
de uma união duradoura, longe de ser uma necessidade natural da espécie
humana, é uma imposição da sociedade sobre os amantes, que
assim são submetidos ao que Laura chama de "gulag doméstico". Enaltecido
principalmente a partir do século XVIII, o amor monogâmico só
teria conseguido criar legiões de casais neuróticos. E é
nesse ponto que as idéias de Laura deixam de ser provocativas para se tornar
paranóicas: o capitalismo, sempre parasitário, incentivaria as ilusões
românticas para lucrar com livros de auto-ajuda, com psicoterapias caras
e com antidepressivos poderosos. A única escapatória é o
adultério: no lance mais ousado do livro, Laura faz do pulador de cerca
um inconformista social, um utopista do erotismo.
Especializada em problemas de "política sexual", Laura professa aquela
confusa mistura de Marx, Freud e Foucault, que na academia americana atende pelo
nome de "crítica cultural". A Freud, ela recorre apenas para vituperar
contra a repressão sexual. É uma perspectiva idealizada, que ignora
a lição fundamental do criador da psicanálise: sem repressão,
não há civilização. Muitos mitos antigos como
o rapto das sabinas pelos primeiros habitantes de Roma ou das troianas pelos guerreiros
gregos estão aí para lembrar a associação entre
desejo e violência. No cardápio disponível de visões
do amor (veja quadro abaixo), Laura prefere ignorar a violência.
E ela também recusa cabalmente a visão desencantada que os biólogos
darwinistas têm do amor como apenas mais uma estratégia animal para
garantir a reprodução genética. Laura pode até detestar
fidelidade, casamento, amor eterno mas não há como negar:
a moça é uma romântica incorrigível.
| VISÕES DA PAIXÃO O
AMOR VIOLENTO Muitos mitos da Antiguidade
como o rapto das sabinas exaltam a brutalidade da conquista amorosa.
O estupro chega a ser uma marca do heroísmo masculino
O AMOR ROMÂNTICO É o sentimento
avassalador, que no extremo tem componentes anti-sociais o modelo clássico
está nos suicidas Romeu e Julieta, de Shakespeare | 20th
Century Fox/Merrick Morton  |
O AMOR BIOLÓGICO
A biologia darwinista trouxe uma visão muito desencantada da paixão.
O homem não é diferente dos outros animais: está em busca
da perpetuação de seus genes
O AMOR DOMÉSTICO A família
tradicional, baseada no afeto entre marido e mulher, foi valorizada principalmente
a partir do século XVIII. Até mesmo sátiras como Os Simpsons
a idealizam |  |
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