Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Livros
Maldito coração

Contra o Amor é um panfleto
simplista, mas espirituoso


Jerônimo Teixeira


Divulgação
Jovem se Defende de Eros, do francês Bouguereau: para a autora, o amor é um vendedor de antidepressivos

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Entrevista com Laura Kpnis (19/5/2004)

Apesar de seu título agressivo, o ensaio Contra o Amor (tradução de Ryta Vinagre; Record; 240 páginas; 34,90 reais) é, no fundo, um livro água-com-açúcar. Sob o tom inflamado com que a autora, a americana Laura Kipnis, ataca o casamento monogâmico, subsiste uma crença ingênua no desejo sexual como motor das revoluções – uma bandeira esfarrapada que Laura, professora de comunicação da Universidade Northwestern, em Illinois, foi buscar nas barricadas estudantis dos anos 60. Descontada essa agenda política anacrônica, Contra o Amor é uma leitura estimulante até para os alvos preferenciais da autora – os casados. O livro pode trazer uma boa vacina de realismo: na contracorrente das baboseiras de auto-ajuda que entopem as livrarias, Laura mostra que não existe amor sem certa dose de frustração. Amar uma só pessoa pode ser dilacerante: a relação tende ao esfriamento, à rotina, e o desejo, sempre inquieto, costuma sair em busca de alternativas – na forma de vizinhos, amigos, colegas de trabalho.

Contra o Amor retrata o lado mais fastidioso do amor conjugal. Laura desfia nove páginas (aliás, hilárias) com uma lista de interdições costumeiramente impostas por um cônjuge ao outro: de não deixar a cama logo depois do sexo a não comer alho. O livro toca naquelas verdades fundamentais que deveriam ser óbvias, mas não são: a saber, que o amor, ao contrário do que ensina o cinema hollywoodiano, não garante felicidade. Mas, como todo panfleto, a obra peca pelo raciocínio simplista. Resumindo seus argumentos: o ideal de uma união duradoura, longe de ser uma necessidade natural da espécie humana, é uma imposição da sociedade sobre os amantes, que assim são submetidos ao que Laura chama de "gulag doméstico". Enaltecido principalmente a partir do século XVIII, o amor monogâmico só teria conseguido criar legiões de casais neuróticos. E é nesse ponto que as idéias de Laura deixam de ser provocativas para se tornar paranóicas: o capitalismo, sempre parasitário, incentivaria as ilusões românticas para lucrar com livros de auto-ajuda, com psicoterapias caras e com antidepressivos poderosos. A única escapatória é o adultério: no lance mais ousado do livro, Laura faz do pulador de cerca um inconformista social, um utopista do erotismo.

Especializada em problemas de "política sexual", Laura professa aquela confusa mistura de Marx, Freud e Foucault, que na academia americana atende pelo nome de "crítica cultural". A Freud, ela recorre apenas para vituperar contra a repressão sexual. É uma perspectiva idealizada, que ignora a lição fundamental do criador da psicanálise: sem repressão, não há civilização. Muitos mitos antigos – como o rapto das sabinas pelos primeiros habitantes de Roma ou das troianas pelos guerreiros gregos – estão aí para lembrar a associação entre desejo e violência. No cardápio disponível de visões do amor (veja quadro abaixo), Laura prefere ignorar a violência. E ela também recusa cabalmente a visão desencantada que os biólogos darwinistas têm do amor como apenas mais uma estratégia animal para garantir a reprodução genética. Laura pode até detestar fidelidade, casamento, amor eterno – mas não há como negar: a moça é uma romântica incorrigível.

 

VISÕES DA PAIXÃO

O AMOR VIOLENTO
Muitos mitos da Antiguidade – como o rapto das sabinas – exaltam a brutalidade da conquista amorosa. O estupro chega a ser uma marca do heroísmo masculino

O AMOR ROMÂNTICO
É o sentimento avassalador, que no extremo tem componentes anti-sociais – o modelo clássico está nos suicidas Romeu e Julieta, de Shakespeare
20th Century Fox/Merrick Morton

O AMOR BIOLÓGICO
A biologia darwinista trouxe uma visão muito desencantada da paixão. O homem não é diferente dos outros animais: está em busca da perpetuação de seus genes


O AMOR DOMÉSTICO
A família tradicional, baseada no afeto entre marido e mulher, foi valorizada principalmente a partir do século XVIII. Até mesmo sátiras como Os Simpsons a idealizam

 
 
 
 
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