|
|
Televisão A
má educação Pais
desequilibrados e filhos atormentados: esse é o conceito de família
na novela América  Ricardo
Valladares
Fotos
divulgação
 |
RAÍSSA
(Mariana Ximenes)
MÁ-CRIAÇÕES:
os pais são pouco presentes na vida da filha e não lhe deram
limites. Ela se rebela para chamar atenção: pichou as paredes de
seu quarto, leva estranhos para casa e namora um bandido. Festejou seu noivado
num baile funk, só para desafiar os pais. Detalhe: são eles que
financiam todas as suas aventuras RISCOS: filhos criados dessa forma
podem ter o desenvolvimento atrasado, problemas afetivos e baixa auto-estima |
Lares desestruturados
sempre foram uma das matérias-primas das novelas. Eles oferecem um manancial
de dramas com os quais os espectadores podem se identificar mas, se o folhetim
em questão for a novela América, tomara que não seja
esse o caso. A um mês de seu término, ninguém duvida que a
atual trama das 8 da Rede Globo seja pródiga em personagens idiotizantes.
Mas a noveleira Glória Perez se superou num item: a quantidade de filhos
problemáticos e pais ainda piores. A convite de VEJA, a psicóloga
Lidia Weber, professora da Universidade Federal do Paraná que acaba de
concluir um estudo sobre "estilos parentais" e seus efeitos em 3.000 crianças
e adolescentes, debruçou-se sobre as relações familiares
da novela. "Elas são disfuncionais em todos os níveis", diz Lidia.
Tome-se o exemplo do garoto Rique (Matheus Costa). Filho de pais permissivos,
ele é mimado e faz o que quer. Seu oposto é o adolescente Júnior
(Bruno Gagliasso). De tão autoritária, sua mãe, a viúva
Neuta (Eliane Giardini), criou um filho inseguro e incapaz de se expressar. A
novela tem ainda uma filha de pais negligentes: Raíssa (Mariana Ximenes).
Ela não tem limites. Já pichou seu quarto e ficou noiva num baile
funk, só para provocar os pais. América
é um compêndio de como não educar os filhos. Os
pais de Rique vivem às turras ele insiste em morar nos Estados Unidos,
ela quis voltar para o Brasil. Moldar o comportamento do garoto não está
em suas prioridades. Como o casal não controla o que Rique vê na
internet, ele se envolveu com um pedófilo. Não há punição
nem mesmo quando o menino foge da escola. O caso de Raíssa é ainda
mais grave. Os pais estão mais preocupados com seus problemas amorosos
do que com a filha: Glauco (Edson Celulari) chocou a adolescente ao assumir um
romance com uma amiga dela, Lurdinha (Cleo Pires), e Haydée (Christiane
Torloni) disputou um namorado com a garota. Eles compartilham da vida social de
Raíssa, liberam dinheiro para seus caprichos e posam de liberais, mas não
atentam para o desequilíbrio da filha. Não interviram nem mesmo
quando ela engatou namoro com um sujeito suspeito a única que a
advertiu foi a empregada da casa. "Se fosse uma pessoa real, Raíssa precisaria
urgentemente de novos pais, pois os da novela só querem saber de seus egos",
diz Lidia.  | RIQUE
(Matheus Costa) MÁ-CRIAÇÕES:
Os pais mimam o filho em demasia e o deixam fazer o que quer. Sem controle, Rique
já se envolveu com um pedófilo pela internet, à revelia deles.
Os pais também fazem vista grossa a seus desvios de comportamento, como
fugir da escola RISCOS: crianças assim são mais propensas
a ter mau desempenho na escola e desvios de comportamento. Podem se envolver com
drogas, pois tendem a minimizar riscos |
A psicóloga afirma que, no caso de Rique, por falta de noção
de riscos, ele poderia tornar-se um drogado. Já Raíssa teria de
gastar anos num divã para levantar sua auto-estima. No que se refere ao
personagem Júnior, ele só teria chance se conseguisse se livrar
da penitenciária materna em que está enclausurado a mãe
projeta suas vontades nele, em vez de aceitar o filho como é. O rapaz sonha
em ser estilista, mas a viúva teima em transformá-lo num peão.
Na semana passada, Júnior finalmente começou a dar asas à
sua homossexualidade: trocou olhares lânguidos com o recém-chegado
peão Zeca (Erom Cordeiro). "Júnior precisa viver sua vida, não
a da mãe", diz Lidia. Se conseguir costurar para fora, como deseja, terá
um final inteiramente feliz.  | JÚNIOR
(Bruno Gagliasso) MÁ-CRIAÇÕES:
a mãe impõe muitas regras e limites ao filho. Não admite
questionamentos ("porque eu disse assim" é sua resposta-padrão),
comanda a vida de Júnior e não deixa que ele se expresse. O menino
é gay e quer ser estilista mas a mãe teima em transformá-lo
num boiadeiro RISCOS: em geral, tornam-se jovens inseguros. O excesso
de coerção também pode resultar em explosões de agressividade
contra figuras que simbolizem autoridade, como os professores
|
No folhetim há um adulto que não atingiu a maturidade por causa
da mãe autoritária. Feitosa (Aílton Graça) não
saiu da casa da megera Diva (Neuza Borges) nem depois de casado e com uma
mulher que a mãe escolheu. Diva chegou ao cúmulo de ir à
sua lua-de-mel. O mais próximo de uma relação familiar sadia
na novela ocorre na casa da advogada Vera (Totia Meireles). Mas, de tão
ausente, ela foi a última a perceber que a filha adolescente tem um caso
com um homem casado e que o caçula engravidou a namorada. |