Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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A má educação

Pais desequilibrados e filhos
atormentados: esse é o conceito
de família na novela América


Ricardo Valladares

 

Fotos divulgação
RAÍSSA
(Mariana Ximenes)

MÁ-CRIAÇÕES: os pais são pouco presentes na vida da filha e não lhe deram limites. Ela se rebela para chamar atenção: pichou as paredes de seu quarto, leva estranhos para casa e namora um bandido. Festejou seu noivado num baile funk, só para desafiar os pais. Detalhe: são eles que financiam todas as suas aventuras
RISCOS: filhos criados dessa forma podem ter o desenvolvimento atrasado, problemas afetivos e baixa auto-estima

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DOS ARQUIVOS DE VEJA
Entrevista com a dra. Lidia Weber (2/6/2004)

Lares desestruturados sempre foram uma das matérias-primas das novelas. Eles oferecem um manancial de dramas com os quais os espectadores podem se identificar – mas, se o folhetim em questão for a novela América, tomara que não seja esse o caso. A um mês de seu término, ninguém duvida que a atual trama das 8 da Rede Globo seja pródiga em personagens idiotizantes. Mas a noveleira Glória Perez se superou num item: a quantidade de filhos problemáticos – e pais ainda piores. A convite de VEJA, a psicóloga Lidia Weber, professora da Universidade Federal do Paraná que acaba de concluir um estudo sobre "estilos parentais" e seus efeitos em 3.000 crianças e adolescentes, debruçou-se sobre as relações familiares da novela. "Elas são disfuncionais em todos os níveis", diz Lidia. Tome-se o exemplo do garoto Rique (Matheus Costa). Filho de pais permissivos, ele é mimado e faz o que quer. Seu oposto é o adolescente Júnior (Bruno Gagliasso). De tão autoritária, sua mãe, a viúva Neuta (Eliane Giardini), criou um filho inseguro e incapaz de se expressar. A novela tem ainda uma filha de pais negligentes: Raíssa (Mariana Ximenes). Ela não tem limites. Já pichou seu quarto e ficou noiva num baile funk, só para provocar os pais.

América é um compêndio de como não educar os filhos. Os pais de Rique vivem às turras – ele insiste em morar nos Estados Unidos, ela quis voltar para o Brasil. Moldar o comportamento do garoto não está em suas prioridades. Como o casal não controla o que Rique vê na internet, ele se envolveu com um pedófilo. Não há punição nem mesmo quando o menino foge da escola. O caso de Raíssa é ainda mais grave. Os pais estão mais preocupados com seus problemas amorosos do que com a filha: Glauco (Edson Celulari) chocou a adolescente ao assumir um romance com uma amiga dela, Lurdinha (Cleo Pires), e Haydée (Christiane Torloni) disputou um namorado com a garota. Eles compartilham da vida social de Raíssa, liberam dinheiro para seus caprichos e posam de liberais, mas não atentam para o desequilíbrio da filha. Não interviram nem mesmo quando ela engatou namoro com um sujeito suspeito – a única que a advertiu foi a empregada da casa. "Se fosse uma pessoa real, Raíssa precisaria urgentemente de novos pais, pois os da novela só querem saber de seus egos", diz Lidia.

 

RIQUE
(Matheus Costa)

MÁ-CRIAÇÕES: Os pais mimam o filho em demasia e o deixam fazer o que quer. Sem controle, Rique já se envolveu com um pedófilo pela internet, à revelia deles. Os pais também fazem vista grossa a seus desvios de comportamento, como fugir da escola
RISCOS: crianças assim são mais propensas a ter mau desempenho na escola e desvios de comportamento. Podem se envolver com drogas, pois tendem a minimizar riscos

A psicóloga afirma que, no caso de Rique, por falta de noção de riscos, ele poderia tornar-se um drogado. Já Raíssa teria de gastar anos num divã para levantar sua auto-estima. No que se refere ao personagem Júnior, ele só teria chance se conseguisse se livrar da penitenciária materna em que está enclausurado – a mãe projeta suas vontades nele, em vez de aceitar o filho como é. O rapaz sonha em ser estilista, mas a viúva teima em transformá-lo num peão. Na semana passada, Júnior finalmente começou a dar asas à sua homossexualidade: trocou olhares lânguidos com o recém-chegado peão Zeca (Erom Cordeiro). "Júnior precisa viver sua vida, não a da mãe", diz Lidia. Se conseguir costurar para fora, como deseja, terá um final inteiramente feliz.

 

JÚNIOR
(Bruno Gagliasso)

MÁ-CRIAÇÕES: a mãe impõe muitas regras e limites ao filho. Não admite questionamentos ("porque eu disse assim" é sua resposta-padrão), comanda a vida de Júnior e não deixa que ele se expresse. O menino é gay e quer ser estilista – mas a mãe teima em transformá-lo num boiadeiro
RISCOS: em geral, tornam-se jovens inseguros. O excesso de coerção também pode resultar em explosões de agressividade contra figuras que simbolizem autoridade, como os professores

No folhetim há um adulto que não atingiu a maturidade por causa da mãe autoritária. Feitosa (Aílton Graça) não saiu da casa da megera Diva (Neuza Borges) nem depois de casado – e com uma mulher que a mãe escolheu. Diva chegou ao cúmulo de ir à sua lua-de-mel. O mais próximo de uma relação familiar sadia na novela ocorre na casa da advogada Vera (Totia Meireles). Mas, de tão ausente, ela foi a última a perceber que a filha adolescente tem um caso com um homem casado e que o caçula engravidou a namorada.

 
 
 
 
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