Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Cinema
Invento, logo existo

No belo e divertido Irmãos Grimm,
a ficção é um embuste sem o qual
ninguém pode viver


Isabela Boscov

 

Divulgação
Ledger (à esq.) e Damon, como os Grimm: o impulso humano de criar

Vítimas na infância de um embusteiro, que lhes tirou seu único bem – uma vaca – em troca de falsos feijões mágicos, os irmãos Will e Jake Grimm ao menos aprendem uma lição: a de que se pode ganhar a vida explorando a credulidade e o desejo de fantasia alheios. Assim é que, na Alemanha de 1811, os jovens Grimm viajam de aldeia em aldeia forjando fenômenos sobrenaturais e então livrando os camponeses deles, mediante bom pagamento. Will (Matt Damon) o faz no conforto do seu pragmatismo e cinismo. Jake (Heath Ledger), porém, sente-se roubado de algo maior, e por isso vive perdido dentro da própria cabeça, tentando dar sentido à sua farsa. Jake mistura as lendas de que se aproveita às suas próprias aventuras, e vai anotando o resultado num caderno. Ele está, é claro, construindo as narrativas que tornariam os verdadeiros Grimm (ao que se sabe, sujeitos honestos) famosos – como Chapeuzinho Vermelho e Cinderela. E, com o belo, divertido e complicado Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, o diretor Terry Gilliam constrói um argumento: não importa o que leva um homem a criar uma narrativa, se o oportunismo, a necessidade vital de fazê-lo ou uma combinação dos dois, como no caso de Jake (ou de qualquer cineasta). O que importa é o impulso humano de criar, e de compartilhar a criação.

Não há nada de casual nessa escolha de roteiro. Cinco anos atrás, Gilliam – ex-integrante do grupo Monty Python – sofreu uma das mais espetaculares derrocadas que podem acometer um cineasta. Seu ambicioso Dom Quixote, protagonizado por Johnny Depp, foi varrido do mapa por intempéries naturais e financeiras uma semana depois de iniciadas as filmagens. Desde então, outros quatro projetos do diretor de Brazil, O Pescador de Ilusões e Doze Macacos haviam soçobrado. Gilliam achou que nunca mais conseguiria uma oportunidade de tirar uma história de sua cabeça e transmiti-la. Daí a empatia e o calor que ele dedica a Jake Grimm – aliás, defendido com brilhantismo pelo australiano Heath Ledger. Quando um feitiço verdadeiro recai sobre as jovens de um vilarejo, só Jake, que conhece as engrenagens do mundo ficcional, poderá salvá-las. Para apreciar Irmãos Grimm a contento, é preciso sentir-se confortável com o estilo barroco e carregado de Gilliam. Vale a pena tentar, porém. Esse não é um filme sem defeitos – mas, como em toda ficção realmente viva, é um filme que só é mais rico por não ser perfeito.

 
 
 
 
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