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Cinema Invento,
logo existo No belo e divertido Irmãos
Grimm, a ficção é um embuste sem o qual ninguém
pode viver  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Ledger
(à esq.) e Damon, como os Grimm: o impulso humano de criar |
Vítimas na infância de um embusteiro, que lhes
tirou seu único bem uma vaca em troca de falsos feijões
mágicos, os irmãos Will e Jake Grimm ao menos aprendem uma lição:
a de que se pode ganhar a vida explorando a credulidade e o desejo de fantasia
alheios. Assim é que, na Alemanha de 1811, os jovens Grimm viajam de aldeia
em aldeia forjando fenômenos sobrenaturais e então livrando os camponeses
deles, mediante bom pagamento. Will (Matt Damon) o faz no conforto do seu pragmatismo
e cinismo. Jake (Heath Ledger), porém, sente-se roubado de algo maior,
e por isso vive perdido dentro da própria cabeça, tentando dar sentido
à sua farsa. Jake mistura as lendas de que se aproveita às suas
próprias aventuras, e vai anotando o resultado num caderno. Ele está,
é claro, construindo as narrativas que tornariam os verdadeiros Grimm (ao
que se sabe, sujeitos honestos) famosos como Chapeuzinho Vermelho
e Cinderela. E, com o belo, divertido e complicado Os Irmãos
Grimm (The Brothers Grimm, Estados Unidos, 2005), que estréia
nesta sexta-feira no país, o diretor Terry Gilliam constrói um argumento:
não importa o que leva um homem a criar uma narrativa, se o oportunismo,
a necessidade vital de fazê-lo ou uma combinação dos dois,
como no caso de Jake (ou de qualquer cineasta). O que importa é o impulso
humano de criar, e de compartilhar a criação.
Não há nada de casual nessa escolha de roteiro. Cinco anos atrás,
Gilliam ex-integrante do grupo Monty Python sofreu uma das mais
espetaculares derrocadas que podem acometer um cineasta. Seu ambicioso Dom
Quixote, protagonizado por Johnny Depp, foi varrido do mapa por intempéries
naturais e financeiras uma semana depois de iniciadas as filmagens. Desde então,
outros quatro projetos do diretor de Brazil, O Pescador de Ilusões
e Doze Macacos haviam soçobrado. Gilliam achou que nunca mais conseguiria
uma oportunidade de tirar uma história de sua cabeça e transmiti-la.
Daí a empatia e o calor que ele dedica a Jake Grimm aliás,
defendido com brilhantismo pelo australiano Heath Ledger. Quando um feitiço
verdadeiro recai sobre as jovens de um vilarejo, só Jake, que conhece as
engrenagens do mundo ficcional, poderá salvá-las. Para apreciar
Irmãos Grimm a contento, é preciso sentir-se confortável
com o estilo barroco e carregado de Gilliam. Vale a pena tentar, porém.
Esse não é um filme sem defeitos mas, como em toda ficção
realmente viva, é um filme que só é mais rico por não
ser perfeito. |