Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Cinema
Não é só para inglês ver

Com o desenho Wallace & Gromit,
o diretor de A Fuga das Galinhas exporta
mais uma vez seu humor britânico


Isabela Boscov

 
Divulgação
O inventor Wallace e seu cão Gromit: o bicho, aqui, é que usa a cabeça

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Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Personagens de três curtas-metragens animados (e ganhadores de dois Oscar na categoria), o inventor Wallace e seu fiel cão Gromit estão entre as mais cativantes destilações já feitas da bonomia britânica: duas criaturas inocentes e sem malícia, mas não, por isso, destituídas de espirituosidade. Pode-se dizer que ambos são, na verdade, uma versão pequeno-burguesa de outros dois personagens célebres da ficção inglesa, criados pelo escritor P.G. Wodehouse – o descerebrado aristocrata Bertie e seu mordomo Jeeves, que vive tirando o patrão das encrencas em que ele se mete por causa de suas boas intenções e más idéias. Como Bertie, Wallace é um manancial de sacadas pretensamente geniais, das quais é salvo, sem se dar conta, apenas pelo sólido bom senso de Gromit (que, felizmente, não pertence à linhagem dos cães falantes dos desenhos animados). O delicioso Wallace & Gromit – A Batalha dos Vegetais (Wallace & Gromit .– The Curse of the Were-Rabbit, Inglaterra, 2005), seu primeiro longa-metragem, que estréia nesta sexta-feira no país, é um enredo típico da dupla. Feliz à frente de seu bem-sucedido negócio – uma empresa que elimina pragas de jardim –, Wallace cisma de aprimorar a natureza. Para que os coelhos que infestam as hortas de seus clientes não reincidam em seus crimes, ele os submete a uma lavagem cerebral, de forma a tirar deles o gosto por cenouras e couves. O saldo é um desastre. O coelho-cobaia se torna um maníaco por queijo, como Wallace, enquanto uma criatura misteriosa, em forma de coelho gigante, começa a atacar as hortas em noites de lua cheia, pondo a perder o concurso de hortaliças que é a alegria da cidade.

Criados por Nick Park, fundador da produtora Aardman e o maior mestre em atividade da animação em massinha, Wallace, Gromit e seus companheiros de história (como a chilreante Lady Campânula Tottington, que tem a voz de Helena Bonham Carter, ou o pomposo Victor Quartermaine, interpretado por Ralph Fiennes) podem parecer ingleses demais para cruzar fronteiras. Mas Park provou, numa empreitada anterior, que ser muito específico é antes uma virtude que uma fraqueza: é dele A Fuga das Galinhas, outra ode ao provincialismo britânico que se tornou um sucesso mundial. Separados por cinco anos – tempo necessário para o penoso trabalho de filmar, quadro a quadro, bonecos de massa minuciosamente modelados –, os dois filmes têm um bocado em comum. Ambos partem de uma história pequena para se converter numa grande aventura, e ambos também foram realizados em clima de absoluta liberdade autoral. Graças ao cacife obtido pelos seus Oscar, a Aardman firmou um contrato ideal com o estúdio DreamWorks, de Steven Spielberg e Jeffrey Katzenberg: os americanos entram com o dinheiro e uns poucos palpites (em geral no sentido de tornar os diálogos minimamente inteligíveis para as platéias estrangeiras), e Nick Park manda em todo o resto.

O que de fato une os dois filmes, entretanto, é a inventividade aparentemente sem limites do diretor (aqui, em parceria com o colega Steve Box). Park diz que seu segredo é, ao traduzir um argumento para imagens, tentar imitar o raciocínio de uma criança. Daí a patetice das engenhocas mecânicas construídas por Wallace, o exagero de cores dos cenários e a aparência caricatural dos personagens – cuja boca é sempre um rasgo no rosto. A exceção, desta vez, são Lady Tottington e Victor Quartermaine, presenteados com lábios que mais parecem cobras de massinha – porque é assim que uma criança imaginaria aristocratas metidos, justifica o diretor. Não que Park precise se justificar. Seja qual for seu método, ele transforma o que é local em algo universal. Marca de um verdadeiro artista, enfim.

 
 
 
 
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