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Cinema Não
é só para inglês ver
Com o desenho Wallace & Gromit, o diretor de A Fuga das Galinhas
exporta mais uma vez seu humor britânico
 Isabela
Boscov Divulgação
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inventor Wallace e seu cão Gromit: o bicho, aqui, é que usa a cabeça
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Personagens
de três curtas-metragens animados (e ganhadores de dois Oscar na categoria),
o inventor Wallace e seu fiel cão Gromit estão entre as mais cativantes
destilações já feitas da bonomia britânica: duas criaturas
inocentes e sem malícia, mas não, por isso, destituídas de
espirituosidade. Pode-se dizer que ambos são, na verdade, uma versão
pequeno-burguesa de outros dois personagens célebres da ficção
inglesa, criados pelo escritor P.G. Wodehouse o descerebrado aristocrata
Bertie e seu mordomo Jeeves, que vive tirando o patrão das encrencas em
que ele se mete por causa de suas boas intenções e más idéias.
Como Bertie, Wallace é um manancial de sacadas pretensamente geniais, das
quais é salvo, sem se dar conta, apenas pelo sólido bom senso de
Gromit (que, felizmente, não pertence à linhagem dos cães
falantes dos desenhos animados). O delicioso Wallace & Gromit
A Batalha dos Vegetais (Wallace & Gromit . The Curse of the
Were-Rabbit, Inglaterra, 2005), seu primeiro longa-metragem, que estréia
nesta sexta-feira no país, é um enredo típico da dupla. Feliz
à frente de seu bem-sucedido negócio uma empresa que elimina
pragas de jardim , Wallace cisma de aprimorar a natureza. Para que os coelhos
que infestam as hortas de seus clientes não reincidam em seus crimes, ele
os submete a uma lavagem cerebral, de forma a tirar deles o gosto por cenouras
e couves. O saldo é um desastre. O coelho-cobaia se torna um maníaco
por queijo, como Wallace, enquanto uma criatura misteriosa, em forma de coelho
gigante, começa a atacar as hortas em noites de lua cheia, pondo a perder
o concurso de hortaliças que é a alegria da cidade.
Criados por Nick Park, fundador da produtora Aardman e o maior mestre em atividade
da animação em massinha, Wallace, Gromit e seus companheiros de
história (como a chilreante Lady Campânula Tottington, que tem a
voz de Helena Bonham Carter, ou o pomposo Victor Quartermaine, interpretado por
Ralph Fiennes) podem parecer ingleses demais para cruzar fronteiras. Mas Park
provou, numa empreitada anterior, que ser muito específico é antes
uma virtude que uma fraqueza: é dele A Fuga das Galinhas, outra
ode ao provincialismo britânico que se tornou um sucesso mundial. Separados
por cinco anos tempo necessário para o penoso trabalho de filmar,
quadro a quadro, bonecos de massa minuciosamente modelados , os dois filmes
têm um bocado em comum. Ambos partem de uma história pequena para
se converter numa grande aventura, e ambos também foram realizados em clima
de absoluta liberdade autoral. Graças ao cacife obtido pelos seus Oscar,
a Aardman firmou um contrato ideal com o estúdio DreamWorks, de Steven
Spielberg e Jeffrey Katzenberg: os americanos entram com o dinheiro e uns poucos
palpites (em geral no sentido de tornar os diálogos minimamente inteligíveis
para as platéias estrangeiras), e Nick Park manda em todo o resto.
O que de fato une os dois filmes, entretanto, é a inventividade aparentemente
sem limites do diretor (aqui, em parceria com o colega Steve Box). Park diz que
seu segredo é, ao traduzir um argumento para imagens, tentar imitar o raciocínio
de uma criança. Daí a patetice das engenhocas mecânicas construídas
por Wallace, o exagero de cores dos cenários e a aparência caricatural
dos personagens cuja boca é sempre um rasgo no rosto. A exceção,
desta vez, são Lady Tottington e Victor Quartermaine, presenteados com
lábios que mais parecem cobras de massinha porque é assim
que uma criança imaginaria aristocratas metidos, justifica o diretor. Não
que Park precise se justificar. Seja qual for seu método, ele transforma
o que é local em algo universal. Marca de um verdadeiro artista, enfim.
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