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História Um
presente real Mostra no Louvre expõe investida
diplomática de Maurício de Nassau junto a Luís XIV  Lucila
Soares
Divulgação/Museu
do Louvre
 | Reprodução
Claudio Versiani
 | O
Carro de Boi, de Frans Post: obra feita no Brasil
e dada por Nassau (à dir.) ao rei Luís XIV |
Em
1679, o príncipe João Maurício de Nassau-Siegen tinha 75
anos e já havia ultrapassado, de longe, a expectativa de vida dos homens
de seu tempo. Estava cansado, doente e sem estratégia clara para recuperar
seu desgastado prestígio político. Escolheu como alvo do que seria
sua última ação diplomática o poderoso soberano francês
Luís XIV, conhecido como Rei Sol. Para impressioná-lo, reuniu um
conjunto de obras que representavam o auge de sua carreira de militar, diplomata
e empreendedor. Eram 27 quadros pintados pelo holandês Frans Post (1612-1680),
integrante do grupo de artistas e cientistas trazidos ao Brasil por Nassau quando
este comandou a ocupação holandesa do Nordeste, a serviço
da poderosa Companhia das Índias Ocidentais. Dezoito deles já tinham,
então, valor especial. Criados no período entre 1637 e 1644, tempo
em que Nassau comandou a ocupação holandesa, foram as primeiras
imagens produzidas no Novo Mundo e as únicas feitas no Brasil entre os
cerca de 160 quadros pintados por Post ao longo de sua vida. Nos anos que se seguiram,
a coleção real dispersou-se e boa parte desapareceu. Da parte criada
no Brasil, restam apenas sete quadros quatro pertencentes ao Museu do Louvre,
um ao empresário pernambucano Ricardo Brennand, um ao Museu Mauritshuis,
em Haia, e um ao empresário venezuelano Gustavo Cisneros. Eles formam o
núcleo mais precioso da mostra O Brasil na Corte do Rei Luís
XIV, inaugurada na quinta-feira passada no Louvre, em Paris.
Além dos quadros brasileiros de Post, estão expostas seis pinturas
de sua fase européia, dezoito gravuras criadas por ele para o livro História
dos Feitos Recentemente Praticados no Brasil, do holandês Gaspar Barleus,
um exemplar de 1647 dessa obra, encomendada por Nassau para divulgar suas façanhas
no Novo Mundo, e nove cópias de quadros de Post feitas a guache no século
XVIII. Esse conjunto dá à mostra um recorte bastante original em
relação às já realizadas sobre a obra de Post. Ao
ter como tema o presente dado ao rei da França, a exposição
do Louvre põe em evidência o lado empresarial de Nassau. Num tempo
em que as grandes navegações revelavam a existência de terras
desconhecidas, ele percebeu a importância de mostrar na Europa a paisagem,
a flora, a fauna e a gente do Novo Mundo. O mecenato que o fez patrocinar a vinda
ao Brasil de artistas como Post e Albert Eckhout e cientistas como Georg Markgraf
e Willem Piso, autores da História Natural do Brasil, tinha também
o objetivo de buscar prestígio e recursos junto à Companhia das
Índias Ocidentais e aos governos europeus, como acentua o historiador alemão
Gerhard Brunn, especialista na biografia de Nassau.
 | | O
pintor Frans Post: autor das primeiras imagens do Novo Mundo |
Na
volta à Europa, Nassau não descansou. Encomendou a Gaspar Barleus,
intelectual humanista dos mais respeitados da época, uma obra destinada
a relatar e, obviamente, louvar seus feitos em terras brasileiras.
Frans Post ficou responsável pelas ilustrações do livro,
que posteriormente foi distribuído a pessoas e instituições
de seu apreço em vários países. O livro compara Nassau aos
grandes conquistadores da Antiguidade. "Atenas, Lacedemônia, Cartago, Roma,
o Lácio, as Gálias e a Germânia constituem o assunto dos escritores
gregos e romanos. Olinda, Pernambuco, Mauriciópole, Itamaracá, Paraíba,
Luanda, São Jorge da Mina, Maranhão, nomes desconhecidos dos antigos,
serão o nosso tema", escreve Barleus, na introdução a sua
obra. A exposição faz parte do Ano
do Brasil na França e tem curadoria do brasileiro Pedro Corrêa do
Lago, presidente da Biblioteca Nacional, e do francês Blaise Ducos, do Louvre.
Além do viés histórico, guarda uma curiosidade que pode resultar
na descoberta de obras de Post que estão desaparecidas. Entre os guaches
do século XVIII que reproduzem quadros de Post, há três cópias
de obras do conjunto presenteado a Luís XIV. Depois de ir ao museu, algum
felizardo pode descobrir que tem um desses trabalhos perdido num sótão
empoeirado. Se isso acontecer, não terá sido a primeira vez. Em
1996, foi encontrada num castelo francês a paisagem A Cidade e o Castelo
de Frederik na Parayba, pintada por Post, então um jovem de 26 anos,
em 1638. A obra acabou arrematada num leilão da Sotheby's de Nova York
por 4,5 milhões de dólares. Hoje pertence a Gustavo Cisneros, o
homem mais rico da Venezuela. Diz Pedro Corrêa do Lago: "De lá para
cá, a obra de Post valorizou-se tremendamente. Se for descoberto outro
quadro dessa fase, o valor pode ser o dobro disso". |