Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Saúde
No limite da obsessão

A preocupação excessiva com a
alimentação saudável já ganhou
até um nome: ortorexia


Anna Paula Buchalla


Roberto Setton

"Há quase vinte anos, tive um princípio de gastrite e precisei parar de comer alguns alimentos. Com isso, percebi que muitos deles não me faziam bem. Aos poucos, fui deixando de comer frituras, carnes, doces e laticínios. Hoje, 80% do meu cardápio é composto de alimentos crus e orgânicos. Essa alimentação é muito mais saudável, pois preserva as enzimas e os nutrientes. O alimento faz bem para o meu corpo, minha mente e minha alma. Infelizmente não existem muitos restaurantes que tratam o alimento com carinho – sem inseticida ou conservante. Em São Paulo, eles são apenas três."
Miriam da Cruz e Silva
44 anos, personal trainer

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Teste: saiba se você é ortoréxico

Você é do tipo que só come alimentos orgânicos (produzidos sem pesticidas nem adubos artificiais) ou funcionais (aqueles que, de acordo com os manuais da nutrologia, previnem e combatem doenças)? Note bem, a pergunta é se você come, não se você dá preferência. Se a resposta for positiva, saiba que esse seu hábito ganhou um nome – ortorexia. Em grego, orthos significa "correto" e orexis, "apetite". Os ortoréxicos exibem uma preocupação exagerada com a seleção e o preparo dos alimentos. O receio de ganhar peso, aqui, não é o fator determinante. O que incomoda os ortoréxicos é a sensação de estar inundando o organismo com substâncias tóxicas, impuras e perigosas. Mulheres de alto nível socioeconômico são as mais propensas a desenvolver esse... o que exatamente? Aí está uma dificuldade: definir o que seja a ortorexia. A psiquiatria não a reconhece como doença, embora ela guarde traços de obsessão. Mas, segundo alguns médicos, trata-se apenas de uma questão de tempo para que os ortoréxicos passem a ser descritos como portadores de uma doença. "A fixação por alimentos saudáveis pode ser sintoma de distúrbios como bulimia ou anorexia", diz o psiquiatra Táki Cordás, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

No supermercado, um ortoréxico não compra um produto antes de ler detalhadamente o que diz o rótulo sobre a sua fabricação e composição. É obcecado pela quantidade de vitaminas, minerais, fibras e nutrientes de um alimento. E tem pavor de corantes e que tais. Num restaurante, dificilmente consegue pedir algo além de salada. Antes, enche o garçom de perguntas como: é orgânico? Como esse molho é preparado? Quando esse peixe foi entregue? Entre um chá (orgânico) e outro, há quem não tome nem água mineral. Afinal de contas, ela pode conter produtos químicos como cloro e arsênico, que contaminam o organismo. Quando vêem alguém comendo pão branco ou tomando um refrigerante dificilmente deixam de fazer uma observação sobre "envenenamento". Não bastasse o reduzido menu que faz parte de sua rotina, o ortoréxico ainda se preocupa excessivamente com o preparo de sua comida. O ritual inclui cortar os vegetais de uma forma específica, porque há teorias que dizem que o corte pode diluir os nutrientes do alimento. A cenoura, por exemplo, não pode ser ralada nem cortada em rodelas. Somente em tiras ela mantém suas propriedades, acreditam os ortoréxicos.

Mas que mal há em trocar uma embalagem de suco industrializado por uma dúzia de laranjas orgânicas? Ou, então, em consumir montanhas de abobrinha, berinjela e cenoura? Nenhum, desde que esse comportamento não comprometa a variedade das refeições, dizem os nutrólogos. "O problema é quando as regras alimentares ficam cada vez mais restritivas e essa obsessão acaba prejudicando até a vida social dessas pessoas", diz a médica Maria Del Rosário de Alonso, da Associação Brasileira de Nutrologia. O termo ortorexia é uma invenção do médico americano Steven Bratman, ele próprio um ex-ortoréxico, que só comia verduras e legumes de sua horta orgânica e os mastigava cinqüenta vezes antes de engolir. No entanto, atenção: a compulsão por alimentos perfeitamente puros, orgânicos e nutritivos não deve ser confundida com a mania de ingerir diariamente quilos de um determinado alimento ou de não consumir um específico, na vaga suposição de que isso faz bem (veja quadro abaixo). Nesses casos, é excentricidade mesmo – para usar um eufemismo menos indigesto.

Com reportagem de Giuliana Bergamo

 

OS FAMOSOS E SUAS MANIAS ALIMENTARES


Jim Ruymen/Reuters
A atriz americana JULIA ROBERTS só toma leite de soja. Quando vai a um café, sempre leva uma embalagem da bebida


Daniele La Monaca/Reuters
A cantora CHRISTINA AGUILERA carrega estoques de alimentos em suas turnês. Leite, só orgânico, e queijo, só de soja

O estilista francês JEAN-PAUL GAULTIER consome 68 laranjas por dia, sob a forma de suco. Atribui sua boa forma, aos 53 anos, às vitaminas da fruta

Em busca de músculos definidos, a atriz e cantora JENNIFER LOPEZ não passa um dia sem comer omeletes feitas de clara de ovo, fonte de proteínas

Uma das estrelas do seriado Sex and the City, KIM CATTRALL só come alimentos orgânicos – e de uma empresa especificamente

O ator americano MEL GIBSON aboliu de vez o frango de sua dieta. Teme que os hormônios da ave possam aumentar suas mamas

 

 
 
 
 
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