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Saúde
No limite da obsessão A
preocupação excessiva com a alimentação saudável
já ganhou até um nome: ortorexia 
Anna Paula Buchalla
| Roberto Setton  |
"Há quase vinte anos, tive um princípio
de gastrite e precisei parar de comer alguns alimentos. Com isso, percebi que
muitos deles não me faziam bem. Aos poucos, fui deixando de comer frituras,
carnes, doces e laticínios. Hoje, 80% do meu cardápio é composto
de alimentos crus e orgânicos. Essa alimentação é muito
mais saudável, pois preserva as enzimas e os nutrientes. O alimento faz
bem para o meu corpo, minha mente e minha alma. Infelizmente não existem
muitos restaurantes que tratam o alimento com carinho sem inseticida ou
conservante. Em São Paulo, eles são apenas três."
Miriam da Cruz e Silva
44 anos, personal trainer | |
Você
é do tipo que só come alimentos orgânicos (produzidos sem
pesticidas nem adubos artificiais) ou funcionais (aqueles que, de acordo com os
manuais da nutrologia, previnem e combatem doenças)? Note bem, a pergunta
é se você só come, não se você dá
preferência. Se a resposta for positiva, saiba que esse seu hábito
ganhou um nome ortorexia. Em grego, orthos significa "correto" e
orexis, "apetite". Os ortoréxicos exibem uma preocupação
exagerada com a seleção e o preparo dos alimentos. O receio de ganhar
peso, aqui, não é o fator determinante. O que incomoda os ortoréxicos
é a sensação de estar inundando o organismo com substâncias
tóxicas, impuras e perigosas. Mulheres de alto nível socioeconômico
são as mais propensas a desenvolver esse... o que exatamente? Aí
está uma dificuldade: definir o que seja a ortorexia. A psiquiatria não
a reconhece como doença, embora ela guarde traços de obsessão.
Mas, segundo alguns médicos, trata-se apenas de uma questão de tempo
para que os ortoréxicos passem a ser descritos como portadores de uma doença.
"A fixação por alimentos saudáveis pode ser sintoma de distúrbios
como bulimia ou anorexia", diz o psiquiatra Táki Cordás, do Hospital
das Clínicas de São Paulo.
No supermercado, um ortoréxico não compra um produto antes de ler
detalhadamente o que diz o rótulo sobre a sua fabricação
e composição. É obcecado pela quantidade de vitaminas, minerais,
fibras e nutrientes de um alimento. E tem pavor de corantes e que tais. Num restaurante,
dificilmente consegue pedir algo além de salada. Antes, enche o garçom
de perguntas como: é orgânico? Como esse molho é preparado?
Quando esse peixe foi entregue? Entre um chá (orgânico) e outro,
há quem não tome nem água mineral. Afinal de contas, ela
pode conter produtos químicos como cloro e arsênico, que contaminam
o organismo. Quando vêem alguém comendo pão branco ou tomando
um refrigerante dificilmente deixam de fazer uma observação sobre
"envenenamento". Não bastasse o reduzido menu que faz parte de sua rotina,
o ortoréxico ainda se preocupa excessivamente com o preparo de sua comida.
O ritual inclui cortar os vegetais de uma forma específica, porque há
teorias que dizem que o corte pode diluir os nutrientes do alimento. A cenoura,
por exemplo, não pode ser ralada nem cortada em rodelas. Somente em tiras
ela mantém suas propriedades, acreditam os ortoréxicos.
Mas que mal há em trocar uma embalagem
de suco industrializado por uma dúzia de laranjas orgânicas? Ou,
então, em consumir montanhas de abobrinha, berinjela e cenoura? Nenhum,
desde que esse comportamento não comprometa a variedade das refeições,
dizem os nutrólogos. "O problema é quando as regras alimentares
ficam cada vez mais restritivas e essa obsessão acaba prejudicando até
a vida social dessas pessoas", diz a médica Maria Del Rosário de
Alonso, da Associação Brasileira de Nutrologia. O termo ortorexia
é uma invenção do médico americano Steven Bratman,
ele próprio um ex-ortoréxico, que só comia verduras e legumes
de sua horta orgânica e os mastigava cinqüenta vezes antes de engolir.
No entanto, atenção: a compulsão por alimentos perfeitamente
puros, orgânicos e nutritivos não deve ser confundida com a mania
de ingerir diariamente quilos de um determinado alimento ou de não consumir
um específico, na vaga suposição de que isso faz bem (veja
quadro abaixo). Nesses casos, é excentricidade mesmo para usar
um eufemismo menos indigesto. Com
reportagem de Giuliana Bergamo
| OS FAMOSOS E SUAS MANIAS ALIMENTARES
Jim
Ruymen/Reuters  | A
atriz americana JULIA ROBERTS só toma leite de soja. Quando vai
a um café, sempre leva uma embalagem da bebida |
Daniele
La Monaca/Reuters  | A
cantora CHRISTINA AGUILERA carrega estoques de alimentos em suas turnês.
Leite, só orgânico, e queijo, só de soja |
O estilista francês JEAN-PAUL
GAULTIER consome 68 laranjas por dia, sob a forma de suco. Atribui sua boa
forma, aos 53 anos, às vitaminas da fruta
Em busca de músculos definidos, a atriz e cantora JENNIFER LOPEZ
não passa um dia sem comer omeletes feitas de clara de ovo, fonte de proteínas
Uma das estrelas do seriado Sex
and the City, KIM CATTRALL só come alimentos orgânicos
e de uma empresa especificamente
O ator americano MEL GIBSON aboliu de vez o frango de sua dieta. Teme que
os hormônios da ave possam aumentar suas mamas
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