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Sociedade
Barbie de Alá
Sucesso da boneca Fulla demonstra
o renascimento das cabeças cobertas
Quem, em seu estado normal, em pleno século
XXI, enrolaria sua filhinha de 8 anos num pano preto, ensinando-a
que isso é a vontade de Deus? A resposta é: muitas
mães, que nem por isso, evidentemente, amam menos suas meninas.
Em lugar de desaparecer, com o passar do tempo e a modernização
dos costumes, aumenta em países islâmicos o uso do
véu a designação genérica para
a vestimenta tradicional das mulheres da religião islâmica,
que varia conforme regiões e tradições locais,
indo, no mínimo, de um lenço cobrindo a cabeça
até, pela escala máxima de ortodoxia, a profusão
de panos negros que embrulham a usuária sem deixar uma única
nesga de pele à mostra, rosto inclusive. Um dos sinais disso
é a popularidade da boneca Fulla, uma espécie de Barbie
muçulmana. Em lugar das sainhas curtas ou dos vestidos de
baile, das profissões ambiciosas e do namorado Ken, Fulla
usa um véu bem grosso também tem roupas "normais",
embora modestas, para ficar em casa. Lançada em 2003 na Síria
uma ditadura laica, mas na qual a religião continua
fortíssima , a boneca é um sucesso em 22 países
do Oriente Médio e imediações. Em 2004, foi
vendido perto de 1 milhão de bonecas, e a previsão
é que o número seja superado em 50% até o fim
deste ano. A marca Fulla está estampada em mais 200 produtos,
de alimentos a roupas.
Não existe símbolo mais poderoso
da diferença de mentalidades entre o mundo ocidental e os
países muçulmanos do que o véu, também
chamado de lenço, chador ou hijab. Aos olhos ocidentais,
é o exemplo irretorquível, mais do que da submissão,
da humilhação das mulheres muçulmanas, obrigadas
a seguir um preceito que só fazia sentido há 1.400
anos ("Ó Profeta, recomenda a tuas esposas e a tuas filhas
que apertem os véus em volta delas: é mais provável
que sejam assim reconhecidas, evitando ser molestadas", diz o Corão).
Entre as próprias envolvidas, a gama de reações
é variadíssima. A resistência ao véu
é clara em setores da sociedade do Irã, onde o uso
é mandatório desde a revolução dos aiatolás.
Em países menos estritos, existem diversos segmentos de mulheres
que ignoram o véu, ou só o usam em ocasiões
religiosas. Mas o renascimento do islamismo militante tem sido um
incentivo poderoso às cabeças cobertas. Em alguns
países muçulmanos, as filhas de mulheres que já
haviam abandonado o véu hoje escondem os cabelos, como sinal
de fervor religioso, compromisso ideológico e rejeição
ao que consideram valores ocidentais impostos. "A boneca se disseminou
pelo Oriente Médio de maneira incrível, o que mostra
como as pessoas estão buscando idéias conservadoras",
disse a VEJA a escritora síria Maan Abdul Salam, diretora
de uma organização que presta assistência jurídica
e psicológica a mulheres em apuros. Fulla é um meio
eficiente para estimular a aceitação do véu
por parte das meninas, já altamente cooptadas pelo ambiente
social. E ela é contra? Não, ao contrário,
as sobrinhas dela, por exemplo, usam.
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