Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Sociedade
Barbie de Alá

Sucesso da boneca Fulla demonstra
o renascimento das cabeças cobertas

Quem, em seu estado normal, em pleno século XXI, enrolaria sua filhinha de 8 anos num pano preto, ensinando-a que isso é a vontade de Deus? A resposta é: muitas mães, que nem por isso, evidentemente, amam menos suas meninas. Em lugar de desaparecer, com o passar do tempo e a modernização dos costumes, aumenta em países islâmicos o uso do véu – a designação genérica para a vestimenta tradicional das mulheres da religião islâmica, que varia conforme regiões e tradições locais, indo, no mínimo, de um lenço cobrindo a cabeça até, pela escala máxima de ortodoxia, a profusão de panos negros que embrulham a usuária sem deixar uma única nesga de pele à mostra, rosto inclusive. Um dos sinais disso é a popularidade da boneca Fulla, uma espécie de Barbie muçulmana. Em lugar das sainhas curtas ou dos vestidos de baile, das profissões ambiciosas e do namorado Ken, Fulla usa um véu bem grosso – também tem roupas "normais", embora modestas, para ficar em casa. Lançada em 2003 na Síria – uma ditadura laica, mas na qual a religião continua fortíssima –, a boneca é um sucesso em 22 países do Oriente Médio e imediações. Em 2004, foi vendido perto de 1 milhão de bonecas, e a previsão é que o número seja superado em 50% até o fim deste ano. A marca Fulla está estampada em mais 200 produtos, de alimentos a roupas.

Não existe símbolo mais poderoso da diferença de mentalidades entre o mundo ocidental e os países muçulmanos do que o véu, também chamado de lenço, chador ou hijab. Aos olhos ocidentais, é o exemplo irretorquível, mais do que da submissão, da humilhação das mulheres muçulmanas, obrigadas a seguir um preceito que só fazia sentido há 1.400 anos ("Ó Profeta, recomenda a tuas esposas e a tuas filhas que apertem os véus em volta delas: é mais provável que sejam assim reconhecidas, evitando ser molestadas", diz o Corão). Entre as próprias envolvidas, a gama de reações é variadíssima. A resistência ao véu é clara em setores da sociedade do Irã, onde o uso é mandatório desde a revolução dos aiatolás. Em países menos estritos, existem diversos segmentos de mulheres que ignoram o véu, ou só o usam em ocasiões religiosas. Mas o renascimento do islamismo militante tem sido um incentivo poderoso às cabeças cobertas. Em alguns países muçulmanos, as filhas de mulheres que já haviam abandonado o véu hoje escondem os cabelos, como sinal de fervor religioso, compromisso ideológico e rejeição ao que consideram valores ocidentais impostos. "A boneca se disseminou pelo Oriente Médio de maneira incrível, o que mostra como as pessoas estão buscando idéias conservadoras", disse a VEJA a escritora síria Maan Abdul Salam, diretora de uma organização que presta assistência jurídica e psicológica a mulheres em apuros. Fulla é um meio eficiente para estimular a aceitação do véu por parte das meninas, já altamente cooptadas pelo ambiente social. E ela é contra? Não, ao contrário, as sobrinhas dela, por exemplo, usam.

 
 
 
 
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