Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ambiente
Risco nos mares

Pesquisas mostram aumento da matança
de tubarões para a retirada e a venda
ilegal de barbatanas


Roberta Salomone

 
Shelley Clarke
Tubarões expostos em entreposto em Hong Kong: crueldade

Depois da captura, é preciso força para levar ao barco e manter imobilizado o tubarão, que pesa em média 200 quilos. Em seguida, com um facão, arrancam-se as nadadeiras do bicho, que é jogado de volta ao mar antes que a embarcação seja tomada pelo sangue. O tubarão, dilacerado e impossibilitado de nadar, morre pouquíssimo tempo depois, devorado por outras espécies, enquanto o pedaço extirpado é pendurado ao sol. Mesmo proibida na maioria dos países, essa crudelíssima prática, também conhecida como finning, tem se tornado cada vez mais freqüente nos oceanos. Dos 200 milhões de tubarões mortos a cada ano, acredita-se que a maior parte seja apenas para a retirada das nadadeiras, que alcançam preços altíssimos nos países asiáticos. Impulsionado pelo crescimento econômico da China – onde a sopa feita de barbatana é considerada um afrodisíaco potente –, o preço do quilo das nadadeiras pode chegar a 750 dólares para o consumidor final (o mesmo montante em carne de tubarão pode ser comprado por 1 dólar). Hoje, o mercado movimenta 400 milhões de dólares por ano no mundo – quantia que, segundo estudo recente do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica, da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, deve triplicar até o fim desta década. "Se a demanda continuar a crescer nessa proporção, não acredito que as populações de tubarões conseguirão sobreviver", afirma a americana Shelley Clarke, coordenadora da pesquisa. "Em dez anos, poderão estar extintos, por exemplo, o tubarão-martelo, o branco e o tigre."

O principal pólo desse comércio ilegal é Hong Kong, que detém mais da metade das importações de nadadeiras do planeta. Ali, e em todo o território chinês, a sopa de barbatana, considerada símbolo de prestígio, é servida em banquetes desde a dinastia Sung (960-1279). Ter à mesa a iguaria é um luxo. Nos restaurantes da Ásia, uma porção individual sai por 150 dólares. Apesar da tradição, o prato foi terminantemente proibido no cardápio de inauguração do primeiro parque da Disney na China depois das reclamações de importantes organizações ambientais. Ainda que a prática não seja permitida dentro da zona de exploração econômica exclusiva desde 1998, o Brasil também dá a sua contribuição ao mercado negro de nadadeiras. De acordo com uma pesquisa inédita do Projeto Tubarões no Brasil (Protuba), das espécies capturadas no litoral do Rio de Janeiro, um quarto tem as barbatanas arrancadas e vendidas. A cada ano são exportadas daqui mais de 600 toneladas de nadadeiras (ou 1,6 milhão de tubarões) para o Japão e a China.

 

Shelley Clarke
Barbatanas à venda em supermercado na China: comércio movimenta milhões

O finning – e a conseqüente matança indiscriminada de tubarões – não é apenas uma prática cruel, mas coloca em risco o ecossistema mundial. Nas duas últimas décadas, as populações de algumas espécies foram reduzidas em 89%. Nas Ilhas Galápagos, onde se concentram grandes cardumes de doze espécies do predador marinho, já se percebe redução expressiva na quantidade de tubarões. No Brasil, 40% das espécies estão ameaçadas de extinção. Sem um dos maiores predadores do reino animal, quebra-se a cadeia alimentar nos oceanos. A conseqüência é um desequilíbrio de grandes proporções, como foi demonstrado no fim dos anos 80, na Austrália. O desaparecimento de algumas espécies provocou aumento significativo da população de polvos, alimento preferido dos tubarões. O resultado foi uma grave crise na indústria de pesca de lagosta. O crustáceo passou a ser devorado pelos polvos em quantidades muito maiores e praticamente sumiu. "A ameaça da pesca de tubarões para a retirada de nadadeiras é silenciosa e progressiva. Se não tomarmos uma atitude agora, vamos sofrer com as conseqüências", alerta o biólogo marinho Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Ecológico Aqualung e autor do livro Tubarões no Brasil.

 

ELES ESTÃO DESAPARECENDO

Os pesquisadores acreditam que em dez anos algumas espécies poderão estar extintas, como o tubarão-martelo, o branco e o tigre. Isso levará à quebra da cadeia alimentar nos oceanos. Entre as conseqüências, desequilíbrios como, por exemplo, o aumento na população de polvos – o alimento predileto dos tubarões.

Herbert Proepper/AP


TIGRE:
é considerado um lixeiro do mar, porque come tudo o que vê pela frente. Sua população se reduziu 65% nos últimos quinze anos

BRANCO: é o maior peixe predador dos mares. Pode medir até 7 metros e pesar mais de 3 toneladas. Sua população diminuiu 79% nas últimas décadas

MARTELO: suas nadadeiras são as mais procuradas. Nos últimos quinze anos, a quantidade dessa espécie de tubarão caiu 89% no Oceano Atlântico

Fonte: Tubarões no Brasil, de Marcelo Szpilman

 
 
 
 
topovoltar