Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Medicina
Cirurgia sem medo

Um método que evita a rejeição permite
o primeiro transplante de uretra no Brasil


Giuliana Bergamo

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Como é o transplante

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre transplantes

Por mais de duas décadas, Cícero Lima, hoje com 43 anos, sofreu as conseqüências terríveis de uma estenose de uretra – a obstrução do canal por onde a urina e o sêmen são eliminados. Por causa da doença, ele demorava até dez minutos para esvaziar a bexiga – ato que, freqüentemente, o levava às lágrimas, tamanha era a dor. No dia 18 de junho de 2004, Lima foi submetido ao primeiro transplante de uretra do Brasil. Realizada no Hospital das Clínicas de São Paulo (HC), a cirurgia só foi anunciada agora porque os médicos queriam ter certeza de seu sucesso. Lima não só está livre da estenose como não precisou recorrer ao uso de imunossupressores, remédios que visam a evitar a rejeição do órgão transplantado. Isso só foi possível graças a uma técnica chamada transplante de matriz acelular, que dispensa a necessidade de doador e receptor serem compatíveis – condição sine qua non da imensa maioria dos transplantes. "O novo método já está sendo testado em outros tipos de transplante", diz o urologista Leopoldo Alves Ribeiro Filho, coordenador da operação do HC. Se forem obtidos os mesmos resultados, a matriz acelular tem tudo para ser uma revolução no campo dos transplantes.

Fabiano Accorsi

Paciente número 1: Cícero Lima, o primeiro brasileiro a passar pela nova operação


O desenvolvimento da matriz acelular é resultado dos avanços nas áreas da engenharia genética e de tecidos. No caso do transplante de uretra, o processo ocorre da seguinte forma: retirada de um doador que já morreu, a uretra é embebida em soluções à base de enzimas. Em quinze dias, o órgão perde todas as suas células, inclusive seu DNA. Sobra apenas uma estrutura feita de colágeno e elastina, as fibras de sustentação dos tecidos humanos. Por isso, não há risco de rejeição. Depois de quatro meses do transplante, a uretra do doador já está com todas as características das do receptor (veja quadro). Os tratamentos convencionais da estenose de uretra também são cirúrgicos. Nos casos mais simples, a obstrução é removida. Nos mais complicados, recorre-se ao enxerto de tecido peniano ou da boca. A taxa de sucesso dessas intervenções, no entanto, é de 40%, no máximo.

A operação do HC paulista foi a maior do mundo em comprimento de tecido transplantado. Lima recebeu 15 centímetros de uretra. Até então, utilizavam-se, em média, 6 centímetros. A técnica de matriz acelular começou a ser desenvolvida há oito anos, por médicos da Universidade da Califórnia. Em 2000, eles realizaram o primeiro transplante. A equipe do HC paulista já operou outros quatro pacientes, além de Lima. Agora os médicos brasileiros testam a matriz acelular no transplante de bexiga.

 
 
 
 
topovoltar