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Esporte
Cartão vermelho neles
Juízes da máfia do apito admitem
roubalheira e são banidos do futebol

André Rizek e Thaís
Oyama
Fotos Clayton de Souza/AE
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| Edilson (acima), ao deixar a prisão:
bronca da mãe e convite para apitar para os detentos. Abaixo,
o empresário Fayad |
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O escândalo da máfia
do apito, revelado por VEJA na edição passada, encerrou
a semana com um saldo devastador para o futebol: a confissão
de roubo na arbitragem por parte de dois juízes, Edilson
Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon, a prisão
de mais um suspeito de envolvimento no esquema, o empresário
Vanderlei Pololi, a queda do presidente da Comissão Nacional
de Arbitragem da CBF, Armando Marques, e a ameaça de anulação
de onze partidas do Campeonato Brasileiro apitadas por Edilson.
O cancelamento de uma delas, Vasco 2 x 1 Figueirense, já
é dado como certo. Será a primeira vez em 34 anos
de história do Campeonato Brasileiro que se cancela uma partida
por fraude na arbitragem. Edilson e Danelon foram afastados da Confederação
Brasileira de Futebol e da Federação Paulista. Edilson
também foi excluído da Fifa. Na prática, isso
significa que os dois árbitros estão definitivamente
banidos do futebol. A decisão sobre o cancelamento dos outros
dez jogos apitados por Edilson será do presidente do Superior
Tribunal de Justiça Desportiva, Luiz Zveiter. Se ele optar
pela anulação, o Corinthians será o maior beneficiado:
terá a chance de ganhar 6 pontos e assumir, sozinho, a liderança
do campeonato. O time foi o que mais sofreu derrotas nos jogos apitados
por Edilson.
Fernando Donasci/Folha Imagem
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| Danelon: ele nega, mas fraudou também a série
B |
O ex-árbitro da Fifa deixou a carceragem da Polícia
Federal, em São Paulo, na madrugada de quinta-feira passada,
depois de cumprir cinco dias de prisão temporária.
O empresário Nagib Fayad, que confessou ter pago 40.000 reais
ao árbitro para que ele fraudasse resultados de jogos, também
foi liberado no mesmo dia. Fayad admitiu à polícia
que subornava juízes para lucrar em sites de apostas ilegais
na internet. Além de jogar em loterias eletrônicas
como o Aebet e o Futbet, o empresário mantinha sua própria
banca de apostas em Piracicaba, com a ajuda de um funcionário
identificado como Fernando. A banca de Fayad tinha como clientes
apostadores de São Paulo, Rio e Ceará entre
eles, um conhecido matemático carioca. Danelon, o segundo
juiz aliciado pela máfia do apito, não chegou a ser
preso, mas confessou ter manipulado três resultados do Campeonato
Paulista: Corinthians 3 x 0 Ponte Preta, Guarani 1 x 1 Atlético
Sorocaba e Portuguesa Santista 0 x 1 União São João.
Ele declarou ainda ter acertado com a quadrilha a vitória
do Santos contra o Guarani, resultado que não conseguiu cumprir.
No depoimento ao Grupo de Atuação Especial e Repressão
ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público,
Danelon negou que tenha dado seguimento ao esquema na série
B do Campeonato Brasileiro. O juiz mentiu. VEJA apurou que pelo
menos uma das quatro partidas apitadas por ele na segunda divisão
foi "vendida" a Fayad. O jogo Portuguesa 0 x 4 Ituano, realizado
no dia 10 de junho, teve seu resultado acertado entre Danelon e
Fayad em um bar de Piracicaba, às margens do Rio Piracicaba.
Para favorecer o Ituano, o juiz recebeu 10.000 reais do empresário.
Edilson também mentiu quando disse que manipulou apenas três
resultados da série A. Uma fonte de VEJA garante que ele
deixou de confessar a fraude em pelo menos mais um jogo: Vasco 0
x 1 Botafogo no dia 8 de maio.
Marcos FernandesAg. Luz
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| Cassino de um dos sócios de Fayad em São Paulo:
agora, às moscas |
Na sexta-feira passada, o presidente
da comissão de arbitragem da CBF, Armando Marques, ameaçado
de demissão desde o estouro do escândalo, anunciou
o seu desligamento do órgão. Marques já presidia
a comissão quando veio à tona a notícia de
que Edilson Pereira de Carvalho apresentara à Federação
Paulista um falso diploma de conclusão do ensino de 2º
grau instrução mínima exigida para os
juízes brasileiros. Na ocasião, o caso morreu e a
comissão nada fez para punir o árbitro. Agora se sabe
que esse foi apenas um dos vários deslizes de conduta de
Edilson para o qual a comissão fechou os olhos (veja
boxe).
Nesta semana, outros integrantes
da quadrilha podem ser presos. O Gaeco espera que o depoimento de
Vanderlei Pololi acusado por Fayad de ter aliciado os juízes
para o esquema traga novas revelações. O advogado
Daniel Gimenes, de Piracicaba, também deve ser ouvido pelo
Ministério Público. O Gaeco já sabe que ele
participou da máfia do apito até junho deste ano,
quando rompeu com o grupo de Fayad por causa de desentendimentos
financeiros. "Quando o esquema dá certo, eu tenho de dividir
com o Daniel. Quando dá errado, tenho de bancar sozinho",
teria dito Fayad a Danelon. Daniel deixou o grupo, mas Fayad manteve
a sociedade com dois empresários de São Paulo, que
pagavam a maior parte do dinheiro apostado. Os dois são donos
de casas de bingo: uma no bairro de Perdizes e outra no Itaim, ambos
bairros nobres da capital paulista. Esta última, a Nineball
Billiard, é, na verdade, um minicassino que promove rodadas
diárias de pôquer e outras modalidades de carteado.
Freqüentada por jogadores de classe média alta, vivia
lotada até o estouro do escândalo do apito. Na semana
passada, ficou às moscas.
Nos cinco dias que passou preso
na carceragem da Polícia Federal, Edilson fez apenas um pedido:
não queria ficar na mesma cela do ex-prefeito de São
Paulo, Paulo Maluf. Acabou dividindo seu cubículo com dois
delegados federais, detidos por corrupção. No domingo,
um agente da carceragem passou-lhe um recado: os presos, autorizados
a jogar bola naquele dia, o convidavam para apitar o jogo. Edilson
caiu em prantos: "Apitar jogo de preso? É a minha desmoralização!",
disse ao agente. Pouco antes, o ex-árbitro havia recebido
um telefonema de sua mãe, Emy, de 85 anos. A ligação
foi presenciada por um dos participantes da investigação.
Segundo contou o ex-juiz ao investigador, a mãe telefonara
para lhe dizer que "mais valia ganhar pouco, mas honestamente".
Isso é que é mãe de juiz.
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MAIS UMA FRAUDE
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| Edilson, em sua fábrica de brinquedos:
uma enganação atrás da outra |
O ex-árbitro
Edilson Pereira de Carvalho não falsificou apenas
um diploma de 2º grau para poder integrar o quadro
de árbitros da Federação Paulista
de Futebol (FPF), como já havia sido revelado
em 2003. Desde 1995, ele entrega documentos falsos à
FPF como forma de "provar" que tem uma atividade remunerada
fora dos campos uma das exigências da Federação
para os juízes que compõem seu quadro.
Oficialmente, essa obrigatoriedade tem como objetivo
evitar episódios como aquele em que Edilson está
envolvido hoje: de corrupção na arbitragem.
Na prática, porém, serve principalmente
para livrar as federações da necessidade
de assumir vínculos trabalhistas com os árbitros
e os conseqüentes encargos financeiros.
Há dez anos,
Edilson declara à FPF que ganha a vida como prestador
de serviços de telefonia à prefeitura
de Jacareí. Em conversa com a reportagem de VEJA,
no entanto, ocorrida antes da publicação
da matéria sobre a máfia do apito, o ex-árbitro
admitiu que mente. "Eu tenho uma pessoa aqui em Jacareí
que só preenche as notas fiscais mostrando que
eu presto serviço à prefeitura. Ela pergunta
que profissão você quer e põe lá
o serviço. Nunca ninguém da Federação
perguntou alguma coisa", disse Edilson. O ex-juiz (que
desde maio é dono de uma fábrica de brinquedos
em Jacareí) confessou a fraude também
ao Ministério Público. Agora, além
de ser indiciado por crime contra a economia popular,
estelionato e formação de quadrilha, deverá
responder também por falsidade ideológica.
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