Edição 1925 . 5 de outubro de 2005

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Esporte
Cartão vermelho neles

Juízes da máfia do apito admitem
roubalheira e são banidos do futebol


André Rizek e Thaís Oyama


Fotos Clayton de Souza/AE
Edilson (acima), ao deixar a prisão: bronca da mãe e convite para apitar para os detentos. Abaixo, o empresário Fayad

O escândalo da máfia do apito, revelado por VEJA na edição passada, encerrou a semana com um saldo devastador para o futebol: a confissão de roubo na arbitragem por parte de dois juízes, Edilson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon, a prisão de mais um suspeito de envolvimento no esquema, o empresário Vanderlei Pololi, a queda do presidente da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF, Armando Marques, e a ameaça de anulação de onze partidas do Campeonato Brasileiro apitadas por Edilson. O cancelamento de uma delas, Vasco 2 x 1 Figueirense, já é dado como certo. Será a primeira vez em 34 anos de história do Campeonato Brasileiro que se cancela uma partida por fraude na arbitragem. Edilson e Danelon foram afastados da Confederação Brasileira de Futebol e da Federação Paulista. Edilson também foi excluído da Fifa. Na prática, isso significa que os dois árbitros estão definitivamente banidos do futebol. A decisão sobre o cancelamento dos outros dez jogos apitados por Edilson será do presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Luiz Zveiter. Se ele optar pela anulação, o Corinthians será o maior beneficiado: terá a chance de ganhar 6 pontos e assumir, sozinho, a liderança do campeonato. O time foi o que mais sofreu derrotas nos jogos apitados por Edilson.

Fernando Donasci/Folha Imagem
Danelon: ele nega, mas fraudou também a série B


O ex-árbitro da Fifa deixou a carceragem da Polícia Federal, em São Paulo, na madrugada de quinta-feira passada, depois de cumprir cinco dias de prisão temporária. O empresário Nagib Fayad, que confessou ter pago 40.000 reais ao árbitro para que ele fraudasse resultados de jogos, também foi liberado no mesmo dia. Fayad admitiu à polícia que subornava juízes para lucrar em sites de apostas ilegais na internet. Além de jogar em loterias eletrônicas como o Aebet e o Futbet, o empresário mantinha sua própria banca de apostas em Piracicaba, com a ajuda de um funcionário identificado como Fernando. A banca de Fayad tinha como clientes apostadores de São Paulo, Rio e Ceará – entre eles, um conhecido matemático carioca. Danelon, o segundo juiz aliciado pela máfia do apito, não chegou a ser preso, mas confessou ter manipulado três resultados do Campeonato Paulista: Corinthians 3 x 0 Ponte Preta, Guarani 1 x 1 Atlético Sorocaba e Portuguesa Santista 0 x 1 União São João. Ele declarou ainda ter acertado com a quadrilha a vitória do Santos contra o Guarani, resultado que não conseguiu cumprir. No depoimento ao Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, Danelon negou que tenha dado seguimento ao esquema na série B do Campeonato Brasileiro. O juiz mentiu. VEJA apurou que pelo menos uma das quatro partidas apitadas por ele na segunda divisão foi "vendida" a Fayad. O jogo Portuguesa 0 x 4 Ituano, realizado no dia 10 de junho, teve seu resultado acertado entre Danelon e Fayad em um bar de Piracicaba, às margens do Rio Piracicaba. Para favorecer o Ituano, o juiz recebeu 10.000 reais do empresário. Edilson também mentiu quando disse que manipulou apenas três resultados da série A. Uma fonte de VEJA garante que ele deixou de confessar a fraude em pelo menos mais um jogo: Vasco 0 x 1 Botafogo no dia 8 de maio.



Marcos FernandesAg. Luz
Cassino de um dos sócios de Fayad em São Paulo: agora, às moscas

Na sexta-feira passada, o presidente da comissão de arbitragem da CBF, Armando Marques, ameaçado de demissão desde o estouro do escândalo, anunciou o seu desligamento do órgão. Marques já presidia a comissão quando veio à tona a notícia de que Edilson Pereira de Carvalho apresentara à Federação Paulista um falso diploma de conclusão do ensino de 2º grau – instrução mínima exigida para os juízes brasileiros. Na ocasião, o caso morreu e a comissão nada fez para punir o árbitro. Agora se sabe que esse foi apenas um dos vários deslizes de conduta de Edilson para o qual a comissão fechou os olhos (veja boxe).

Nesta semana, outros integrantes da quadrilha podem ser presos. O Gaeco espera que o depoimento de Vanderlei Pololi – acusado por Fayad de ter aliciado os juízes para o esquema – traga novas revelações. O advogado Daniel Gimenes, de Piracicaba, também deve ser ouvido pelo Ministério Público. O Gaeco já sabe que ele participou da máfia do apito até junho deste ano, quando rompeu com o grupo de Fayad por causa de desentendimentos financeiros. "Quando o esquema dá certo, eu tenho de dividir com o Daniel. Quando dá errado, tenho de bancar sozinho", teria dito Fayad a Danelon. Daniel deixou o grupo, mas Fayad manteve a sociedade com dois empresários de São Paulo, que pagavam a maior parte do dinheiro apostado. Os dois são donos de casas de bingo: uma no bairro de Perdizes e outra no Itaim, ambos bairros nobres da capital paulista. Esta última, a Nineball Billiard, é, na verdade, um minicassino que promove rodadas diárias de pôquer e outras modalidades de carteado. Freqüentada por jogadores de classe média alta, vivia lotada até o estouro do escândalo do apito. Na semana passada, ficou às moscas.

Nos cinco dias que passou preso na carceragem da Polícia Federal, Edilson fez apenas um pedido: não queria ficar na mesma cela do ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Acabou dividindo seu cubículo com dois delegados federais, detidos por corrupção. No domingo, um agente da carceragem passou-lhe um recado: os presos, autorizados a jogar bola naquele dia, o convidavam para apitar o jogo. Edilson caiu em prantos: "Apitar jogo de preso? É a minha desmoralização!", disse ao agente. Pouco antes, o ex-árbitro havia recebido um telefonema de sua mãe, Emy, de 85 anos. A ligação foi presenciada por um dos participantes da investigação. Segundo contou o ex-juiz ao investigador, a mãe telefonara para lhe dizer que "mais valia ganhar pouco, mas honestamente". Isso é que é mãe de juiz.

 

MAIS UMA FRAUDE

Edilson, em sua fábrica de brinquedos: uma enganação atrás da outra

O ex-árbitro Edilson Pereira de Carvalho não falsificou apenas um diploma de 2º grau para poder integrar o quadro de árbitros da Federação Paulista de Futebol (FPF), como já havia sido revelado em 2003. Desde 1995, ele entrega documentos falsos à FPF como forma de "provar" que tem uma atividade remunerada fora dos campos – uma das exigências da Federação para os juízes que compõem seu quadro. Oficialmente, essa obrigatoriedade tem como objetivo evitar episódios como aquele em que Edilson está envolvido hoje: de corrupção na arbitragem. Na prática, porém, serve principalmente para livrar as federações da necessidade de assumir vínculos trabalhistas com os árbitros – e os conseqüentes encargos financeiros.

Há dez anos, Edilson declara à FPF que ganha a vida como prestador de serviços de telefonia à prefeitura de Jacareí. Em conversa com a reportagem de VEJA, no entanto, ocorrida antes da publicação da matéria sobre a máfia do apito, o ex-árbitro admitiu que mente. "Eu tenho uma pessoa aqui em Jacareí que só preenche as notas fiscais mostrando que eu presto serviço à prefeitura. Ela pergunta que profissão você quer e põe lá o serviço. Nunca ninguém da Federação perguntou alguma coisa", disse Edilson. O ex-juiz (que desde maio é dono de uma fábrica de brinquedos em Jacareí) confessou a fraude também ao Ministério Público. Agora, além de ser indiciado por crime contra a economia popular, estelionato e formação de quadrilha, deverá responder também por falsidade ideológica.

 

 
 
 
 
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