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André
Petry Cabeça de Porco
"Só
andava armado, tinha um filho de 2 meses, usava drogas, traficava e assaltava
e o guri só tinha 14 anos."
O país se prepara para votar num referendo sobre armas e, no entanto, quase
nada sabemos sobre a violência que tomou conta da alma brasileira. Quem
tem interesse em conhecer um pouco mais sobre a criminalidade, sobre a pobreza,
sobre jovens favelados, sobre a arrogância policial, sobre o tráfico
de drogas enfim, numa palavra: sobre a violência brasileira
deveria atravessar as 295 páginas de Cabeça de Porco, livro
lançado há poucos meses e que resultou da improvável parceria
entre um rapper famoso (MV Bill), um empresário de hip hop (Celso Athayde)
e um festejado antropólogo (Luiz Eduardo Soares). Cabeça de Porco
é um soco no estômago. As páginas mais devastadoras narram
as incursões de MV Bill e Celso Athayde em favelas de norte a sul do Brasil.
Nesses relatos, descobre-se que:
• Nas favelas do Rio Grande do Sul, não existem facções criminosas,
o que não é necessariamente uma boa notícia. A ausência
de quadrilhas organizadas faz com que as guerras e rivalidades sejam descontroladas
e imprevisíveis. Fora isso, o resto é igual. Escreve MV Bill: "Tudo
sempre igual, tristemente igual e, ao mesmo tempo, diferente. Especialmente ali.
Ver aqueles moleques armados e falando baaá!, tchê!, tri!, era uma
outra história de crime para mim".
• Numa favela em Belém do Pará, no outro extremo do país,
uma história muito parecida. MV Bill escreve que conheceu ali um morador
que "só andava armado, tinha um filho de 2 meses, usava drogas, traficava
e assaltava e o guri só tinha 14 anos".
• Uma favela de Joinville, no interior de Santa Catarina, reproduz o dialeto dos
morros do Rio de Janeiro, num espantoso processo de nacionalização
do modelo carioca de violência. Em Joinville, os moradores da favela chamam
seus inimigos de "alemão", dizem pertencer ao "Comando Vermelho" e que
seus inimigos integram o "Terceiro Comando". Escreve Celso Athayde: "Era a primeira
vez que tínhamos visto um caso como esse, parecia que os comandos do Rio
de Janeiro tinham franchaises espalhadas por lá".
• Uma favela em Curitiba, não muito longe do centro da cidade, reproduz
não o dialeto mas a própria organização dos morros
cariocas. Usa até os "fogueteiros", nome dado aos meninos que ficam à
entrada da favela encarregados de soltar fogos de artifício para avisar
da chegada da polícia. Escreve MV Bill: "Garotos com aparência de
12, 13, 10 anos, ocupavam lugares estratégicos nas lajes, com fogos de
12 x 1. Não acreditei, pensei que isso fosse cultura carioca. Mas não!
E lá estavam os fogueteiros da boca, no Sul".
São apenas alguns exemplos, e o livro é cheio de outros em Brasília,
no Rio ou em Aracaju, mostrando como a violência se espalha, se multiplica,
se capilariza pelos morros e favelas brasileiras, condenando o futuro de uma parte
expressiva da juventude do país a parte, é claro, negra,
parda e pobre. Cabeça de Porco, sobretudo nos textos escritos por
Luiz Eduardo Soares, humaniza os favelados envolvidos no tráfico sem absolvê-los
dos crimes que cometem e acaba sendo um convite à esperança e à
luta mas é impossível chegar ao fim do livro sem fazer a
pergunta cruel: será que este país tem jeito? |