Edição 1963 . 5 de julho de 2006

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Música
Rimas esdrúxulas

No rock nacional, as letras às vezes não
batem com a pose que os artistas fazem.
E às vezes não batem com coisa nenhuma


Sérgio Martins

 
Fotos Leonardo Aversa/Ag. O Globo, Fernando Quevedo/Ag. O Globo, Roberto Setton e Raphael Falavigna

1 - SKANK
Que imagem eles passam: são todos bons moços
O que as letras revelam: confirmam essa imagem.
Cantam o amor, a alegria e a natureza
2 -
O RAPPA
Que imagem eles passam:
são representantes do gueto
e se empenham em causas sociais
O que as letras revelam: têm um conteúdo crítico mais visível. Falam contra a passividade e as ilusões da religião. Mas às vezes perdem o sentido e parecem não falar de nada
3 -
CHORÃO (CHARLIE BROWN JR.)
Que imagem ele passa: roqueiro encrenqueiro, que bate em desafetos e não respeita companheiros de banda
O que as letras revelam: já foram mais agressivas. Hoje ele faz a linha do malandro carinhoso. Diz que tem mais a oferecer às meninas do que os mauricinhos

4 - PITTY
Que imagem ela passa: cantora de "atitude" e com discurso de adolescente rebelde
O que as letras revelam: rimas pobres para cantar uma revolta pueril


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É um daqueles tópicos de discussão que teimam em aparecer nas mesas de bar: letra de música é poesia? A discussão remonta aos anos 60 e 70, quando a MPB de extração universitária conhecia seu auge. Diante da geração pop-rock contemporânea, o debate tornou-se mais bizantino do que o sexo dos anjos. Algumas bandas tocam tão alto que às vezes é impossível discernir o que os vocalistas estão cantando debaixo de toda a distorção – o que talvez seja uma forma inconsciente de autocrítica. Quem prestar atenção às letras dessa gente pode se surpreender: muitas são de um romantismo convencional, que parece incongruente com os braços tatuados e a pose agressiva das bandas. Se bem que, na desconexão geral de sujeito e predicado que impera no rock nacional, não deveria ser surpresa que as letras estejam em contradição com a atitude.

Alexandre Magno Abrão, o Chorão, é o exemplo mais consumado desse abismo entre letra e postura. Vocalista e líder do Charlie Brown Jr., ele já deu uma cabeçada no cantor de uma banda rival e recentemente colocou todos os integrantes da formação original do grupo no olho da rua. Suas letras, porém, investem na linha "malandro carinhoso". Ele faz o tipo que, com um charme de bandido, rouba as namoradas dos filhinhos de papai. Em Ela Vai Voltar, Chorão conseguiu uma esquisita contradição em termos – fez uma letra feminista-cafajeste: "Ela tem força, ela tem sensibilidade, ela é guerreira / Ela é daquelas que tu gosta na primeira / Ela é discreta e cultua os bons livros / E ama os animais, tá ligado, eu sou o bicho".

A turma dos "excluídos" do pop nacional – os artistas que, como Chorão, vieram da periferia e cantam sobre suas experiências marginais – raramente assume um discurso incendiário (confirma-se uma ancestral tese marxista: o lumpemproletariado não é uma classe revolucionária). O carioca Marcelo D2, que já foi famoso por sua campanha pela legalização da maconha, hoje ensina que o verdadeiro malandro é aquele que trabalha duro e encontra esperança mesmo quando só lhe sobra o "bagaço da laranja". "Não me dou por vencido, vejo a luz no fim do túnel / A corrente tá cerrada, como meus punhos", diz em Qual É?, música que, a despeito dos tais punhos cerrados, prega o "amor black". O Rappa ainda é a banda mais contestadora no gênero. Em Reza Vela, por exemplo, ataca as esperanças vãs da religião: "Pedidos e preces / viram cera quente". O problema é que a mensagem agressiva se perde em curtos-circuitos de sentido: "Sete ventos de palavra-chave / Não interessa o jogo andou / você está no domínio", diz a letra de Na Frente do Reto.

Ao lado da turma do gueto, há os radicais de classe média como Pitty. A baiana gosta de bancar a rebelde cabeça, na linha "consciência crítica". Usa as referências literárias mais óbvias para isso – seu disco de estréia chamava-se Admirável Chip Novo, uma referência a Admirável Mundo Novo, expressão de Shakespeare que deu título à distopia tecnológica do romancista inglês Aldous Huxley. Pela simploriedade das letras, fica a impressão de que Pitty só tomou contato com Huxley em alguma adaptação ruim para a TV: "Parafuso e fluido em lugar de articulação / Até achava que aqui batia um coração", diz a canção-título (alô, governo Lula: com essa pobreza de rimas, não era o caso de inscrever a moça no Bolsa Família?). O lamento pelo coração perdido do robô repete o apelo sentimental do homem de lata em O Mágico de Oz – e a comparação com um clássico infantil é mesmo pertinente: não há nada mais pueril do que a rebeldia de Pitty, com seu figurino cuidadosamente desarrumado. Outros representantes da revolta dos privilegiados seguem de perto a escola da letra de auto-ajuda, fundada pelo Legião Urbana. O CPM 22 realizou o impensável: empobreceu a "poesia" de Renato Russo, letrista do Legião. "Há dias que os dias passam devagar", canta o grupo em Tarde de Outubro.

Nem todos os roqueiros brasileiros ladram mas não mordem. Tem aqueles que não ladram nem mordem – a turma alto-astral do Skank e do Jota Quest. Herdeiros das mineirices do Clube da Esquina, o Skank gosta de falar em cachoeira e pôr-do-sol. Às vezes até tenta enfeitar na técnica, como em Formato Mínimo, canção em que todas as rimas são em palavra proparoxítona – tem "amor épico" que se perde em um "jogo cínico". Nos manuais de versificação, as rimas em proparoxítona são chamadas de "esdrúxulas" – e nunca esse termo fez tanto sentido. Rogério Flausino, letrista do Jota Quest, é mais despretensioso. É um rapaz otimista: "Vivemos esperando / O dia em que seremos melhores / Melhores no amor / Melhores na dor / Melhores em tudo". Tudo bem cantar a alegria – mas será que alegria precisava ser sinônimo de vazio? Música instrumental na caixa, por favor, DJ.

 
 
 
 
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