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Música
Rimas esdrúxulas
No rock nacional, as letras às vezes não batem com a pose que
os artistas fazem. E às vezes não batem com coisa nenhuma
 Sérgio
Martins Fotos
Leonardo Aversa/Ag. O Globo, Fernando Quevedo/Ag. O Globo, Roberto Setton e Raphael
Falavigna
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- SKANK Que imagem eles passam: são
todos bons moços O que as letras revelam: confirmam essa imagem.
Cantam o amor, a alegria e a natureza 2 -
O RAPPA
Que imagem eles passam: são representantes
do gueto e se empenham em causas sociais O que as letras revelam:
têm um conteúdo crítico mais visível. Falam contra
a passividade e as ilusões da religião. Mas às vezes perdem
o sentido e parecem não falar de nada 3
- CHORÃO (CHARLIE BROWN JR.)
Que imagem ele passa: roqueiro
encrenqueiro, que bate em desafetos e não respeita companheiros de banda
O que as letras revelam: já foram mais agressivas. Hoje ele
faz a linha do malandro carinhoso. Diz que tem mais a oferecer às meninas
do que os mauricinhos 4 - PITTY Que
imagem ela passa: cantora de "atitude" e com discurso de adolescente rebelde
O que as letras revelam: rimas pobres para cantar uma revolta pueril
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É um daqueles tópicos
de discussão que teimam em aparecer nas mesas de bar: letra de música
é poesia? A discussão remonta aos anos 60 e 70, quando a MPB de
extração universitária conhecia seu auge. Diante da geração
pop-rock contemporânea, o debate tornou-se mais bizantino do que o sexo
dos anjos. Algumas bandas tocam tão alto que às vezes é impossível
discernir o que os vocalistas estão cantando debaixo de toda a distorção
o que talvez seja uma forma inconsciente de autocrítica. Quem prestar
atenção às letras dessa gente pode se surpreender: muitas
são de um romantismo convencional, que parece incongruente com os braços
tatuados e a pose agressiva das bandas. Se bem que, na desconexão geral
de sujeito e predicado que impera no rock nacional, não deveria ser surpresa
que as letras estejam em contradição com a atitude.
Alexandre Magno Abrão, o Chorão, é o exemplo mais consumado
desse abismo entre letra e postura. Vocalista e líder do Charlie Brown
Jr., ele já deu uma cabeçada no cantor de uma banda rival e recentemente
colocou todos os integrantes da formação original do grupo no olho
da rua. Suas letras, porém, investem na linha "malandro carinhoso". Ele
faz o tipo que, com um charme de bandido, rouba as namoradas dos filhinhos de
papai. Em Ela Vai Voltar, Chorão conseguiu uma esquisita contradição
em termos fez uma letra feminista-cafajeste: "Ela tem força, ela
tem sensibilidade, ela é guerreira / Ela é daquelas que tu gosta
na primeira / Ela é discreta e cultua os bons livros / E ama os animais,
tá ligado, eu sou o bicho".
A turma dos "excluídos" do pop nacional os artistas que, como Chorão,
vieram da periferia e cantam sobre suas experiências marginais raramente
assume um discurso incendiário (confirma-se uma ancestral tese marxista:
o lumpemproletariado não é uma classe revolucionária). O
carioca Marcelo D2, que já foi famoso por sua campanha pela legalização
da maconha, hoje ensina que o verdadeiro malandro é aquele que trabalha
duro e encontra esperança mesmo quando só lhe sobra o "bagaço
da laranja". "Não me dou por vencido, vejo a luz no fim do túnel
/ A corrente tá cerrada, como meus punhos", diz em Qual É?, música
que, a despeito dos tais punhos cerrados, prega o "amor black". O Rappa ainda
é a banda mais contestadora no gênero. Em Reza Vela, por exemplo,
ataca as esperanças vãs da religião: "Pedidos e preces /
viram cera quente". O problema é que a mensagem agressiva se perde em curtos-circuitos
de sentido: "Sete ventos de palavra-chave / Não interessa o jogo andou
/ você está no domínio", diz a letra de Na Frente do Reto.
Ao lado da turma do gueto, há
os radicais de classe média como Pitty. A baiana gosta de bancar a rebelde
cabeça, na linha "consciência crítica". Usa as referências
literárias mais óbvias para isso seu disco de estréia
chamava-se Admirável Chip Novo, uma referência a Admirável
Mundo Novo, expressão de Shakespeare que deu título à
distopia tecnológica do romancista inglês Aldous Huxley. Pela simploriedade
das letras, fica a impressão de que Pitty só tomou contato com Huxley
em alguma adaptação ruim para a TV: "Parafuso e fluido em lugar
de articulação / Até achava que aqui batia um coração",
diz a canção-título (alô, governo Lula: com essa pobreza
de rimas, não era o caso de inscrever a moça no Bolsa Família?).
O lamento pelo coração perdido do robô repete o apelo sentimental
do homem de lata em O Mágico de Oz e a comparação
com um clássico infantil é mesmo pertinente: não há
nada mais pueril do que a rebeldia de Pitty, com seu figurino cuidadosamente desarrumado.
Outros representantes da revolta dos privilegiados seguem de perto a escola da
letra de auto-ajuda, fundada pelo Legião Urbana. O CPM 22 realizou o impensável:
empobreceu a "poesia" de Renato Russo, letrista do Legião. "Há dias
que os dias passam devagar", canta o grupo em Tarde de Outubro.
Nem todos os roqueiros brasileiros
ladram mas não mordem. Tem aqueles que não ladram nem mordem
a turma alto-astral do Skank e do Jota Quest. Herdeiros das mineirices do Clube
da Esquina, o Skank gosta de falar em cachoeira e pôr-do-sol. Às
vezes até tenta enfeitar na técnica, como em Formato Mínimo,
canção em que todas as rimas são em palavra proparoxítona
tem "amor épico" que se perde em um "jogo cínico". Nos manuais
de versificação, as rimas em proparoxítona são chamadas
de "esdrúxulas" e nunca esse termo fez tanto sentido. Rogério
Flausino, letrista do Jota Quest, é mais despretensioso. É um rapaz
otimista: "Vivemos esperando / O dia em que seremos melhores / Melhores no amor
/ Melhores na dor / Melhores em tudo". Tudo bem cantar a alegria mas será
que alegria precisava ser sinônimo de vazio? Música instrumental
na caixa, por favor, DJ. |