Edição 1963 . 5 de julho de 2006

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Independência e morte

Um belo relato sobre 1776, o ano
crucial na luta americana para
se libertar dos britânicos


Rinaldo Gama

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Trecho do livro

Quando, em 4 de julho de 1776, foi promulgada a Declaração de Independência dos Estados Unidos, os americanos ainda estavam longe de se livrar da coroa britânica. Assim, para muitos, o documento pareceu uma perigosa provocação, um "esquife de papel". As tropas inglesas só seriam vencidas em 1781 e o reconhecimento da soberania viria apenas em 1783. No entanto, aquela data é que passou para a história como a de nascimento da nação que, no século XX, se tornou a maior potência do planeta. Em 1776 – A História dos Homens que Lutaram pela Independência dos Estados Unidos (tradução de Roberto Franco Valente; Jorge Zahar Editor; 422 páginas; 59 reais), David McCullough traz à tona um relato em que o discurso centrado nos ideais iluministas – aos quais se costuma vincular o movimento americano de libertação – fica em segundo plano para dar lugar a um minucioso painel das adversidades presentes no dia-a-dia de uma campanha que parecia fadada ao fracasso. Numa prosa bem-cuidada e fluente, McCullough mistura episódios célebres e retratos sem retoques de seus protagonistas. Para tanto, ele se vale de sua experiência de historiador e biógrafo premiado.

Os problemas dos Estados Unidos começavam na própria constituição de seu Exército, comandado por George Washington. Os revoltosos não passavam de uma tropa de miseráveis. Eram, nas palavras do inimigo inglês, "caipiras", "molambentos" – a "ralé armada". McCullough mostra que não havia exagero algum nessa classificação. Os combatentes viviam imundos, eram freqüentemente atacados por doenças como a febre tifóide, não tinham disciplina e atiravam mal – isso, quando havia pólvora para atirar. Filho de um plantador de tabaco da Virgínia, o próprio Washington, 44 anos em 1776, jamais dirigira algo além de um regimento. Ao receber o posto que o consagraria, declarou diante do Congresso que temia não corresponder à responsabilidade que lhe davam.

Correspondeu. Mesmo destacando a importância do apoio financeiro vindo da França e da Holanda, e o apoio militar do Exército e da Marinha franceses para o resultado final, McCullough sublinha que o êxito na guerra pela independência americana se deveu a Washington e à sua armada de maltrapilhos. Sem ser um brilhante estrategista nem um orador talentoso, Washington, acentua o autor, foi capaz de manter as tropas unidas. "Um povo desacostumado a se controlar precisa ser conduzido e não pressionado", disse o comandante no fim de 1776, após a vitória em Trenton, fundamental para reerguer os rebelados depois da derrota que haviam sofrido pouco antes, em Nova York.

Uma das inegáveis qualidades de Washington foi saber se cercar de pessoas de talento como Nathanael Greene, o mais jovem general daquele primeiro Exército dos Estados Unidos. O perfil de Greene é um dos pontos altos da obra de McCullough e suas cartas figuram entre as principais fontes de 1776. Mas a correspondência de maior peso para o trabalho foi mesmo a de Washington – até porque, entre julho de 1775 e a primeira semana de 1777, ele escreveu nada menos do que 947 cartas. Como frisa McCullough, é espantoso que, em meio ao conflito, aqueles senhores encontrassem tempo para redigir missivas. É como se soubessem – e sabiam – que estavam escrevendo a história.

A lição que fica de 1776 é que tropas bem treinadas, equipamentos bélicos de última geração e experiência militar não são suficientes para derrotar um ideal se por trás – ou melhor, à frente – dele estiver um idealista como foi Washington. Ele compreendeu que era preciso pegar em armas para assegurar a permanência da idéia de que "todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade" – como se lê na Declaração de Independência americana.

 

O grande libertador

"Washington nunca se esqueceu de tudo que se encontrava em risco, e em momento algum desistiu. Em cartas ao Congresso e aos seus oficiais, e também em suas ordens gerais, ele clamou por 'perseverança e vigor', por 'paciência e perseverança', por 'inabaláveis coragem e perseverança'. Sem a liderança e a incansável perseverança de Washington, com quase toda certeza a revolução teria fracassado. Como previu Nathanael Greene durante a guerra, ele seria o libertador de seu país. "

Trecho de 1776

 
 
 
 
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