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Livros Cartas
na mesa A correspondência dos grandes escritores
que tentaram ensinar sua arte aos novatos  Jerônimo
Teixeira
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Ao contrário da música
e da pintura, a arte da literatura nunca foi bem ensinada nas academias. Em Lições
dos Mestres, o crítico francês George Steiner observa que a "orientação
didática" dos grandes escritores costuma se dar "ao acaso" por exemplo,
numa conversa de bar. Mesmo assim, há uma tradição antiga,
ainda que um tanto rarefeita, de autores que oferecem seus preceitos para a educação
dos novatos. O romancista peruano Mario Vargas Llosa se une a essa linhagem com
Cartas a um Jovem Escritor (tradução de Regina Lyra;
Alegro; 188 páginas; 29,90 reais), recém-lançado no Brasil.
O título remete a Cartas a um Jovem Poeta, do poeta austríaco
Rainer Maria Rilke, tido como um clássico do gênero. A carta tem
sido a forma preferida para os mestres das letras transmitirem seus conselhos.
O mais antigo representante do gênero talvez seja a Epístola aos
Pisões, do poeta latino Horácio, uma carta que ficou conhecida
como Ars Poetica (Arte Poética) e que forneceu, por séculos,
o receituário da escola classicista. Unidade e simplicidade eram as virtudes
literárias favoritas de Horácio, mas, formulado com preceitos rígidos,
seu modelo caiu em desuso pelo menos desde o romantismo. Aliás, é
assim que os conselhos dos grandes autores sobrevivem na sua melhor forma: não
como mandamentos, mas como exemplos saborosos de ensaísmo literário.
Esse é o caso da correspondência do
francês Gustave Flaubert, o maior testemunho da dedicação
exclusiva de um escritor a seu ofício. Especialmente reveladoras são
suas cartas a Guy de Maupassant, que ele adotou como discípulo. Conhecido
pelo rigor do estilo, Flaubert exigia a mesma exatidão do aluno. A "formatura"
de Maupassant se deu quando ele apresentou ao mestre o conto Bola de Sebo.
Na carta em que Flaubert elogia essa pequena obra-prima, há uma significativa
mudança do tratamento pessoal em francês no lugar do formal
vous, Flaubert passa a se endereçar a Maupassant com a intimidade
do tu. O aluno era afinal admitido no mesmo patamar do mestre.
As cartas de Rilke ao tal jovem poeta, o alemão Franz Xaver Kappus, são
constrangedoras em comparação. Rilke era um grande poeta, mas
como já dizia a Arte Poética de Horácio até
Homero às vezes "cochila". Cochilo é a palavra certa para definir
o efeito das aborrecidas Cartas a um Jovem Poeta. Rilke recomenda a prática
da solidão e o amor a Deus, mas fala pouco em poesia. Esquivou-se de avaliar
com honestidade os versos ruins de Kappus. O jornalista inglês Christopher
Hitchens, que também se valeu do título famoso em seu Cartas
a um Jovem Contestador, observa que as cartas de Rilke têm a atmosfera
de "inocência doentia" dos anos que precederam a I Guerra Mundial. No Brasil,
em pleno entreguerras, Mário de Andrade conservava outra forma de inocência:
a crença em uma expressão literária ao mesmo tempo moderna
e brasileirinha. "Escrevo língua imbecil, penso ingênuo", anunciava
ele em carta a Carlos Drummond de Andrade. Missivista compulsivo, Mário
correspondeu-se com virtualmente todo o mundo literário brasileiro de seu
tempo. Mas sua importância para autores como Drummond parece mais psicológica
do que literária o reconhecimento do papa do modernismo paulista
foi um incentivo fundamental para o iniciante poeta mineiro.
Diferentemente de todos esses antecessores, importunados por aprendizes de verdade,
Llosa inventou um correspondente fictício e anônimo para seu Cartas
a um Jovem Escritor. A escolha da carta para dar forma a esse ensaio dá
um ar tardio a um livro que aparece no momento em que a carta vai sendo desbancada
pelo e-mail. O tom sentencioso com que o autor fala da "vocação
literária" intensifica esse odor de velharia. Com exemplos que vão
de Cervantes a Gabriel García Márquez, Llosa tenta definir os elementos
básicos do romance: estilo, narrador, tempo etc. Não ultrapassa
a literatura acadêmica sobre os mesmos temas (o leitor interessado nessas
minúcias técnicas terá melhor sorte com A Retórica
da Ficção, do americano Wayne Booth, ou com Discurso da Narrativa,
do francês Gérard Genette). Embora cite Flaubert com imensa admiração,
Llosa não consegue o grande feito do mestre francês: escrever cartas
sobre a arte literária que sejam, elas mesmas, grande literatura.
Conselheiros literários Alguns
escritores que deixaram suas receitas em cartas aos aprendizes RAINER
MARIA RILKE (1875-1926) Destinatário:
Franz Xaver Kappus, um pretendente a poeta Conselho: o poeta de Elegias
de Duíno recomenda que seu aprendiz busque a solidão e a proximidade
da natureza Tem utilidade? Aprende-se muito pouco de poesia nas Cartas
a um Jovem Poeta. O lero-lero sobre solidão e amor funciona melhor
como auto-ajuda GUSTAVE
FLAUBERT (1821-1880) Destinatários: escritores,
críticos, amantes Conselho: o romancista francês recomendava
a aprendizes como Maupassant a busca da palavra perfeita e a dedicação
total à literatura Tem utilidade? Sim. A correspondência
do autor de Madame Bovary é o melhor documento que se conhece sobre
o ofício do escritor
MÁRIO
DE ANDRADE (1893-1945) Destinatário:
praticamente todo brasileiro que escrevia nos anos 30 e 40 Conselho:
defendia uma arte moderna bem brasileirinha que ele praticava em grafias
canhestras como "milhor" (melhor) Tem utilidade? Mário ajudou
um poeta como Carlos Drummond de Andrade a deslanchar mas seu pensamento
e estilo já não passam de curiosidades de época
Joel
Saget/AFP
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MARIO
VARGAS LLOSA (1936) Destinatário: um
correspondente fictício Conselho: o escritor peruano tenta ensinar
os elementos básicos da construção de um romance estilo,
narrador, tempo etc. Tem utilidade? Pouca. O autor não chega
a dizer nada de novo dezenas de críticos e teóricos já
trataram do mesmo tema Fotos Martinie/Roger
Viollet/Getty | | |