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Copa Futebol
com bobagem A cobertura da Copa na TV é para
lá de exaustiva e cheia de bolas fora  Marcelo
Marthe
Na
terça-feira passada, quando a seleção brasileira derrotou
Gana nas oitavas-de-final da Copa do Mundo, a televisão mais uma vez não
economizou para satisfazer o apetite dos espectadores pelo torneio. Depois de
alcançar 66 pontos no ibope e ser sintonizada por nove em cada dez aparelhos
com a transmissão da partida, a Globo ainda explorou o tema à exaustão
em seus noticiários e num debate que entrou pela madrugada, sob o comando
do locutor Galvão Bueno. Participante dessa última atração,
a cantora Ivete Sangalo gastou seu ufanismo. "Vamos fazer uns quatro nesses franceses
metidos a besta", disse a baiana sobre as chances do Brasil nas quartas-de-final.
A seu lado, o ex-jogador Leonardo também soltou suas pérolas. "Ronaldinho
Gaúcho não vai encantar enquanto ficar prisioneiro do sistema da
seleção", afirmou sim, até no futebol a culpa é
sempre do "sistema". Para arrematar, o apresentador Pedro Bial sentenciou: "Ronaldinho
é prisioneiro dos elogios". A mesa-redonda da Globo foi um bom painel dos
estilos de comentaristas que pipocam na TV nesta Copa (veja quadros).
De rádios do interior do Amapá às
redes de TV, um exército de 600 profissionais foi enviado pelos veículos
de comunicação brasileiros para a cobertura do Mundial. Nenhum outro
país enviou tantos correspondentes à Alemanha. Essa exuberância
foi alvo de comentários venenosos da imprensa estrangeira. Tome-se um artigo
veiculado pela agência de notícias Reuters, intitulado "Brasil traz
uma mídia enlouquecedora". "Como uma manada de gnus cruzando o Serengeti
(parque de animais selvagens na África), a imprensa brasileira baixa
sobre os locais mais insuspeitos, aplanando e entrevistando tudo
o que encontra pelo caminho", lê-se no texto. À falta de pautas mais
relevantes, diz ainda a matéria, os jornalistas brasileiros não
se fazem de rogados em entrevistar-se uns aos outros. Uma reportagem do diário
inglês The Guardian vai no mesmo tom. Afirma que o Brasil "mede a
sua história" em Copas e que a imprensa nacional não poupa das transmissões
ao vivo nem mesmo as sessões de alongamento dos jogadores.
O interesse dos brasileiros por futebol é mesmo inesgotável. Para
muitos torcedores do país, faz todo o sentido acompanhar boletins exaustivos
sobre o edema na coxa de Robinho. O único porém é que, diante
dessa overdose de cobertura, as asneiras surgem inevitavelmente. Na semana passada,
uma reportagem do canal Globonews especulava: por que Ronaldinho Gaúcho
passa a língua nos lábios ao cantar o Hino Nacional? Nas
mesas-redondas, as bobagens também fluem. Para além de Galvão
Bueno e seus colegas, outros comentaristas encontraram seu lugar ao sol na Copa.
As mulheres ganharam mais espaço nesses programas que em qualquer outra
Copa. A vereadora paulistana Soninha Francine, que foi VJ da MTV e hoje ganha
o pão como comentarista do canal ESPN Brasil, revelou-se especialista em
tiradas nacionalistas açucaradas. "É tocante ver as crianças
alemãs com a bandeira do Brasil, superorgulhosas", já declarou.
Milly Lacombe, do concorrente SporTV, não perde a chance de se arriscar
como técnica um vício renitente, faça-se justiça,
em comentaristas de qualquer sexo. "O que falta ao Zé Roberto é
desobediência tática", disse, numa análise sobre o meio-campista.
Às profissionais juntam-se as diletantes
invariavelmente, sem papas na língua. Na condição
de namorada de Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da CBF, a atriz Maitê
Proença acompanha a seleção de perto na Alemanha. Num programa
no SporTV, deu uma de psicóloga de Ronaldo Fenômeno: "O problema
dele não é a bolha no pé nem o dente. É depressão".
Maitê ironizou ainda o casamento-relâmpago do jogador com a modelo
Daniella Cicarelli. "Ronaldo topou com uma pedra no caminho. Uma pedrona", disse.
E emendou: "Aquela ali atrapalhou bastante". Em outra mesa-redonda no SporTV,
a cantora Fernanda Abreu fez sua contribuição ao bestiário
da Copa, ao divagar (ou melhor, viajar) sobre a força da equipe anfitriã.
Recordou até o genocídio nazista em suas estultices.
Os comentaristas velhos de guerra também redobraram sua visibilidade na
Copa o que não significa que suas mesas-redondas tenham ficado menos
modorrentas. Milton Neves, que comanda o 3º Tempo na Record, está
mais bravateiro do que nunca. Teve de se retratar depois de cantar a derrota de
Portugal para a Holanda uma previsão furada. "Se Portugal passar
pela Holanda, mudo meu nome para Luís de Camões", declarou (essa,
Camões não merecia). Nada é mais emblemático da encheção
de lingüiça na cobertura da Copa que as mesas-redondas conduzidas
por José Trajano na ESPN Brasil. Com semblante de eterno mau humor, ele
é daqueles que têm a primeira e a última palavra em tudo
e ai de quem se rebelar. Como Trajano é diretor de programação
do canal, os colegas de bancada pisam em ovos. Não raro, a discussão
sai do campo do futebol e descamba para a lavagem de roupa suja. Seu principal
alvo é o jornalista Juca Kfouri, a quem ele adora desautorizar no ar. E
bem que costuma ter razão. Os participantes não se agüentam
de rir toda vez que Kfouri tira da manga a teoria estapafúrdia de que está
em curso um complô para impedir o Brasil de ganhar a Copa.
Os comentaristas "poetas" também têm sua parte nas asneiras. O pai
das reportagens de TV com texto rimado é o veterano Armando Nogueira
que marca presença nas mesas-redondas do SporTV. De Pedro Bassan a César
Tralli, ele possui discípulos na cobertura da Globo. O mais aplicado deles
é Pedro Bial. Ele não se contenta em descrever um gol. Tem de recorrer
a uma linguagem neoconcretista, ou coisa que o valha: "Bola rolando e o time mordia.
Transpirava atitude, vontade tamanho GG. O primeiro gol foi made in Brazil". Para
Bial, a Copa do Mundo é um sarau. Com o perdão da rima.
O QUE OS OUVIDOS NÃO OUVEM...  | | Parreira:
irritação com a Globo |
Na semana passada, uma trombada entre Carlos Alberto Parreira e a Rede Globo agitou
os bastidores da Copa. O técnico da seleção ficou furioso
com um quadro do Fantástico em que adolescentes surdos decifraram,
por meio da leitura labial, o que ele falou durante partidas do Brasil. Parreira
confidencia ao assistente Zagallo que gostou do desempenho de Gilberto Silva,
mas que seria duro escalá-lo no lugar de Emerson. Quando Ronaldo marcou
um gol contra o Japão, desancou os críticos. "Ainda pedem para o
Ronaldo ir embora", disse. As frases são entremeadas de palavrões
como é de esperar no calor de um jogo. Numa entrevista coletiva
no dia seguinte à exibição do quadro, um Parreira carrancudo
reclamou de invasão de privacidade. Temerosa de que sua cobertura da seleção
fosse limitada pelo técnico, a Globo, que enviou 160 profissionais à
Alemanha, apressou-se em colocar panos quentes na polêmica. O apresentador
Pedro Bial pediu desculpas a Parreira depois da coletiva, e mais tarde sua colega
Fátima Bernardes fez o mesmo no Jornal Nacional. Em nota, a Globo
negou a intenção de aborrecer o treinador. Embora a emissora negue,
sabe-se que a retratação gerou divergências em sua cúpula
de jornalismo. Apesar do imbróglio, a atração será
mantida no Fantástico. Uma decisão sensata, já que
a leitura labial se revelou uma idéia divertida e está longe de
ser uma invasão da privacidade. O que ocorre em campo é de interesse
legítimo do torcedor. | | |