Edição 1963 . 5 de julho de 2006

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Copa
La mano de Dios...

...desta vez castigou os
argentinos e deu a vitória
aos anfitriões, prolongando
a orgulhosa celebração alemã


Carlos Maranhão e André Fontenelle
DE FRANKFURT

 
Thomas Kienzle/AP
Volker Hatmann/AFP/Getty Images

Dois ídolos da Alemanha neste Mundial: o goleiro Lehmann (à esq., pegando o pênalti decisivo) e o oriental Ballack (à dir.)

Vinte anos atrás, a Argentina conquistou uma Copa do Mundo com méritos e a ajuda da mão esquerda de Diego Maradona – aquela que empurrou a bola no célebre gol contra a Inglaterra, indevidamente validado. Ele disse ter marcado com "la mano de Dios". Desta vez, outras mãos – as do goleiro alemão Jens Lehmann – tiraram os argentinos do Mundial. Lehmann, há dois meses ainda reserva do famoso Oliver Kahn, defendeu dois pênaltis na decisão da partida de sexta-feira em Berlim. Com isso, classificou os alemães para a semifinal contra a Itália na terça-feira, despachou os argentinos rumo ao Aeroporto de Ezeiza e prolongou um carnaval que já dura três semanas.

É uma festa e tanto. A Alemanha vive um período de euforia como não se via desde 1989, quando a queda do Muro de Berlim representou o fim de quatro décadas de divisão do país em uma porção capitalista e outra comunista. Para muitos, a celebração atual tem um significado ainda mais importante, porque os alemães tiraram do armário um sentimento reprimido – o orgulho nacional. A consciência de uma parcela da população de 82 milhões de habitantes associa o nacionalismo à lembrança trágica do nazismo. Por isso, as manifestações de patriotismo costumavam ser contidas, quase constrangidas.

Roberto Schmidt/AFP
Angela Merkel, com Beckenbauer: na torcida

Agora tudo mudou. Mesmo nas partidas em que a Alemanha não está em campo, em algum momento os torcedores se levantam, agitando bandeiras, e cantam "Steht auf, wenn ihr Deutsche seid" ("De pé os que forem alemães"). "Pode-se discutir se essa onda de patriotismo será temporária. Mas certamente envergonhada ela não é", escreveu o redator-chefe do semanário Stern, Thomas Osterkorn. De Berlim a Frankfurt, só se fala de futebol. Mesmo a chefe do governo, Angela Merkel, várias vezes flagrada pela TV enquanto vibrava com os gols na tribuna de honra, se meteu a dar palpites, cobrando a renovação do contrato do técnico Jürgen Klinsmann. O kit básico do torcedor consiste em pintura facial, chapéu tricolor com o nome do país, suporte para fixar a bandeira no carro e a camisa branca ou vermelha da seleção. Eles acompanharam as cinco vitórias consecutivas da equipe não apenas nos estádios, mas também pelos telões montados em praças. Em Stuttgart, 100.000 pessoas viram a vitória sobre a Argentina.

O orgulho alemão não se deve unicamente aos bons resultados de seu time, mas ao sucesso de organização do torneio. Não faltou nem a ajuda do tempo, que tem sido melhor que o previsto: ao contrário do que se esperava, choveu pouco e fez calor nas últimas semanas. Também há uma ativa participação da maioria dos cidadãos. Vistos no exterior como frios e pouco hospitaleiros, os alemães revelaram-se anfitriões calorosos e simpáticos. Convivem admiravelmente bem com os estrangeiros, descontados pequenos incidentes que envolveram torcedores ingleses e poloneses. Contribuiu para tanto uma campanha nacional para receber com cordialidade os visitantes, resumida no slogan "Die Welt zu Gast bei Freunden" (em português, "o mundo hospedado entre amigos"). Em um anúncio na televisão, os jogadores da seleção aparecem ajudando os turistas que desembarcam no aeroporto. O goleiro Kahn carrega as malas de uma passageira, enquanto o meio-campista Michael Ballack abre a porta do táxi para outro.

Ballack, capitão do time e seu mais refinado craque, personifica as divisões que persistem na Alemanha, dezessete anos depois da queda do Muro. Nascido no lado oriental, foi criado em Karl-Marx-Stadt, cidade rebatizada como Chemnitz com a unificação. Seu sucesso, porém, não é uma unanimidade. Alguns alemães do leste, nostálgicos do comunismo, vêem o camisa 13 – recentemente contratado pelo Chelsea, da Inglaterra, por um salário anual de 25 milhões de reais – como um mercenário. A desigualdade entre as duas Alemanhas continua causando ressentimentos. No lado oriental, o desemprego atinge 18%, aproximadamente o dobro da parte ocidental. A migração de jovens para o oeste é maciça. Do seu lado, parte dos alemães ocidentais vê como um fardo a antiga parte comunista, cuja reconstrução, calcula-se, consome 4% do PIB nacional.

Esses problemas foram temporariamente postos de lado, pelo menos enquanto os donos da casa continuarem ganhando. Os alemães venceram a Copa do Mundo três vezes, e cada uma dessas vitórias simbolizou um período diferente na sua conturbada história. A primeira, em 1954, deu confiança a uma nação que começava a se reerguer das devastadoras conseqüências da II Guerra Mundial. A de 1974 foi marcada pelo bizarro e único confronto nos gramados entre as duas Alemanhas, uma lembrança amarga da divisão provocada pela Guerra Fria. Ganharam os orientais por 1 a 0, mas os ocidentais acabariam levantando a taça. A terceira conquista, em 1990, ocorreu poucos meses depois da derrubada do Muro de Berlim e poucos meses antes da reunificação. Seja ou não campeã pela quarta vez, a Alemanha se lembrará desta Copa como a de um povo que se reconciliou e voltou a se dar as mãos.

 
 
 
 
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