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Copa
"Vencer não é uma obrigação"
Parreira,
que aprendeu a dar autógrafos com a mão esquerda para exercitar
a mente, conta que o Mundial lhe tirou o sono, o apetite e 3 quilos 
Carlos Maranhão e André Fontenelle
DE BERGISCH GLADBACH
Martin Meissner/AP  | Thomas
Kienzle/AP  |
"Kaká
é um líder. Ele é o futuro capitão da seleção."
Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção
brasileira |
Ronaldo não foi o único que perdeu
peso nesta Copa do Mundo. Depois de quarenta dias de preparativos, jogos, dúvidas
e pressões, o técnico Carlos Alberto Parreira, que não está
preocupado em fazer regime, emagreceu 3 quilos. "Perdi o apetite, passei a comer
só saladas e pratos leves", contou ele a VEJA na quinta-feira em uma sala
do castelo Lerbach, onde a seleção estava hospedada. Ao fundo, ouvia-se
o pagode comandado por Robinho, uma forma de a equipe enfrentar a tensão
48 horas antes do jogo capital contra a França.
Mesmo com a experiência dos seus seis Mundiais anteriores, Parreira não
esconde que a ansiedade lhe custou alguns fios brancos a mais (aos 63 anos, garante
que não tinge o cabelo) e sono de menos. No Brasil, costuma dormir seis
ou sete horas por noite. Na Alemanha, têm sido cinco em média. "Descarrega-se
muita adrenalina e fica todo mundo agitadíssimo", explica. "Acontece com
os jogadores também." Na noite da vitória por 3 a 0 sobre Gana,
ninguém dormiu antes de 1 hora da manhã. O técnico comemorou
com uma taça de vinho tinto, escolhido na adega do castelo pelo neoconhecedor
do assunto, o preparador físico Moraci Sant'Anna. "Só porque fez
um curso de uma semana, o Moraci se acha um grande entendido no assunto", provoca.
Um gole de vinho ou de cerveja é
o máximo prazer que Parreira tem se permitido ultimamente. Mesmo nos dias
de folga, deu apenas uma rápida escapada ao museu dos esportes da cidade
de Colônia. "Aqui não me dedico a outras atividades. O que eu faço
é treinar o time, dar entrevistas e ver jogos na TV", diz. Ele trouxe na
mala o best-seller O Código Da Vinci, que não abriu por falta
de tempo. O outro livro em sua bagagem, Filosofia da Vida, do filósofo
americano Will Durant (1885-1981), nem precisa folhear, pois conhece muitas passagens
de cor. Uma delas, sobre o amor, é a favorita dele e da mulher, Leila,
com quem se comunica diariamente por telefone ou e-mail. Ele recita, derramado:
"O melhor do amor não se escreve nunca e talvez não se fale jamais.
Refugia-se nos longos olhares, nos longos beijos, peito contra peito, o coração
nos lábios". A paixão por esse livro, repleto de pílulas
sobre amor, família, religião e trabalho, é típica
do gosto de Parreira por ensinamentos que contribuam para a evolução
pessoal, aquilo que se convencionou chamar de auto-ajuda. Isso se reflete em alguns
de seus hábitos pessoais, como o de dar autógrafos com a mão
esquerda, segundo ele uma técnica chinesa. "É um jeito de trabalhar
o outro lado do cérebro, que fica morto a maior parte do tempo", acredita.
O técnico não gosta
do termo auto-ajuda, mas ele próprio é autor de uma obra do gênero,
Formando Equipes Vencedoras, lançada em maio. Muitas das lições
do livro foram postas em prática na Copa, inclusive quando as coisas não
correram conforme o previsto. Na demora de Ronaldo para entrar em forma, por exemplo.
"A gente esperava que ele pudesse render mais desde o início. Ninguém
entendeu sua atuação na estréia, nem ele." Parreira foi fiel
a seus princípios e bancou a manutenção do Fenômeno,
que considera "talhado para os grandes momentos". Ronaldo correspondeu, subindo
de produção e marcando os três gols que o converteram no maior
artilheiro da história das Copas. Essa não foi sua única
aposta. Outra, igualmente arriscada, foi a opção por poucos amistosos
antes do Mundial, enquanto as seleções adversárias disputavam
um jogo atrás do outro. A idéia era fazer o time chegar ao auge
apenas na segunda quinzena da Copa. Funcionou, apesar dos sustos nas primeiras
partidas. "Eu tinha muita apreensão em relação à estréia.
A Croácia chegou com tudo. Por isso, achei importantíssimo ganhar.
Foi só 1 a 0, mas a equipe adquiriu confiança."
Transmitir essas idéias e manter unido e motivado um grupo de 23 jogadores
durante quase um mês e meio exige paciência e habilidade. Na concentração,
Parreira exibiu um clipe de dez minutos, com imagens da infância e da carreira
dos próprios jogadores, para lembrá-los do longo caminho que trilharam
até a Alemanha. Às vezes o trabalho motivacional inclui gestos inesperados,
como a decisão de pôr em campo, nos dez minutos finais contra o Japão,
o goleiro reserva Rogério Ceni. "Eu o chamei no banco e ele me perguntou,
espantado: 'Você quer que eu entre?'. Respondi: 'Quero. É uma homenagem
que estou fazendo a você'. Acho que foi uma bola dentro minha." Embora Rogério
seja um dos jogadores mais elogiados por Parreira pela personalidade, talvez nenhum
o impressione mais do que Kaká. "É um profissional superdedicado
e respeitado. Mesmo jovem, tem todo o perfil para vir a ser no futuro o capitão
da seleção brasileira."
Na Alemanha, Parreira resistiu a outros tipos de pressão para efetivar
os reservas e para que a seleção trocasse o pragmatismo por mais
espetáculo. Ignorou tudo. "Eu sempre quero a vitória, mas não
viemos com a obrigação de ganhar, e sim de fazer o melhor", afirma
ele, que costuma pontuar suas frases com citações em inglês
de personagens que admira, como o líder negro americano Martin Luther King.
"I have a dream (eu tenho um sonho)." No fim de semana, Parreira continuou dormindo
pouco porque sabia que, para realizá-lo, precisava tirar os franceses de
seu caminho. |