Edição 1963 . 5 de julho de 2006

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Copa
"Vencer não é
uma obrigação"

Parreira, que aprendeu a
dar autógrafos com a mão
esquerda para exercitar a
mente, conta que o Mundial lhe
tirou o sono, o apetite e 3 quilos


Carlos Maranhão e André Fontenelle
DE BERGISCH GLADBACH


Martin Meissner/AP
Thomas Kienzle/AP
"Kaká é um líder. Ele é o futuro capitão da seleção."
Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção brasileira

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Especial: Copa 2006

Ronaldo não foi o único que perdeu peso nesta Copa do Mundo. Depois de quarenta dias de preparativos, jogos, dúvidas e pressões, o técnico Carlos Alberto Parreira, que não está preocupado em fazer regime, emagreceu 3 quilos. "Perdi o apetite, passei a comer só saladas e pratos leves", contou ele a VEJA na quinta-feira em uma sala do castelo Lerbach, onde a seleção estava hospedada. Ao fundo, ouvia-se o pagode comandado por Robinho, uma forma de a equipe enfrentar a tensão 48 horas antes do jogo capital contra a França.

Mesmo com a experiência dos seus seis Mundiais anteriores, Parreira não esconde que a ansiedade lhe custou alguns fios brancos a mais (aos 63 anos, garante que não tinge o cabelo) e sono de menos. No Brasil, costuma dormir seis ou sete horas por noite. Na Alemanha, têm sido cinco em média. "Descarrega-se muita adrenalina e fica todo mundo agitadíssimo", explica. "Acontece com os jogadores também." Na noite da vitória por 3 a 0 sobre Gana, ninguém dormiu antes de 1 hora da manhã. O técnico comemorou com uma taça de vinho tinto, escolhido na adega do castelo pelo neoconhecedor do assunto, o preparador físico Moraci Sant'Anna. "Só porque fez um curso de uma semana, o Moraci se acha um grande entendido no assunto", provoca.

Um gole de vinho ou de cerveja é o máximo prazer que Parreira tem se permitido ultimamente. Mesmo nos dias de folga, deu apenas uma rápida escapada ao museu dos esportes da cidade de Colônia. "Aqui não me dedico a outras atividades. O que eu faço é treinar o time, dar entrevistas e ver jogos na TV", diz. Ele trouxe na mala o best-seller O Código Da Vinci, que não abriu por falta de tempo. O outro livro em sua bagagem, Filosofia da Vida, do filósofo americano Will Durant (1885-1981), nem precisa folhear, pois conhece muitas passagens de cor. Uma delas, sobre o amor, é a favorita dele e da mulher, Leila, com quem se comunica diariamente por telefone ou e-mail. Ele recita, derramado: "O melhor do amor não se escreve nunca e talvez não se fale jamais. Refugia-se nos longos olhares, nos longos beijos, peito contra peito, o coração nos lábios". A paixão por esse livro, repleto de pílulas sobre amor, família, religião e trabalho, é típica do gosto de Parreira por ensinamentos que contribuam para a evolução pessoal, aquilo que se convencionou chamar de auto-ajuda. Isso se reflete em alguns de seus hábitos pessoais, como o de dar autógrafos com a mão esquerda, segundo ele uma técnica chinesa. "É um jeito de trabalhar o outro lado do cérebro, que fica morto a maior parte do tempo", acredita.

O técnico não gosta do termo auto-ajuda, mas ele próprio é autor de uma obra do gênero, Formando Equipes Vencedoras, lançada em maio. Muitas das lições do livro foram postas em prática na Copa, inclusive quando as coisas não correram conforme o previsto. Na demora de Ronaldo para entrar em forma, por exemplo. "A gente esperava que ele pudesse render mais desde o início. Ninguém entendeu sua atuação na estréia, nem ele." Parreira foi fiel a seus princípios e bancou a manutenção do Fenômeno, que considera "talhado para os grandes momentos". Ronaldo correspondeu, subindo de produção e marcando os três gols que o converteram no maior artilheiro da história das Copas. Essa não foi sua única aposta. Outra, igualmente arriscada, foi a opção por poucos amistosos antes do Mundial, enquanto as seleções adversárias disputavam um jogo atrás do outro. A idéia era fazer o time chegar ao auge apenas na segunda quinzena da Copa. Funcionou, apesar dos sustos nas primeiras partidas. "Eu tinha muita apreensão em relação à estréia. A Croácia chegou com tudo. Por isso, achei importantíssimo ganhar. Foi só 1 a 0, mas a equipe adquiriu confiança."

Transmitir essas idéias e manter unido e motivado um grupo de 23 jogadores durante quase um mês e meio exige paciência e habilidade. Na concentração, Parreira exibiu um clipe de dez minutos, com imagens da infância e da carreira dos próprios jogadores, para lembrá-los do longo caminho que trilharam até a Alemanha. Às vezes o trabalho motivacional inclui gestos inesperados, como a decisão de pôr em campo, nos dez minutos finais contra o Japão, o goleiro reserva Rogério Ceni. "Eu o chamei no banco e ele me perguntou, espantado: 'Você quer que eu entre?'. Respondi: 'Quero. É uma homenagem que estou fazendo a você'. Acho que foi uma bola dentro minha." Embora Rogério seja um dos jogadores mais elogiados por Parreira pela personalidade, talvez nenhum o impressione mais do que Kaká. "É um profissional superdedicado e respeitado. Mesmo jovem, tem todo o perfil para vir a ser no futuro o capitão da seleção brasileira."

Na Alemanha, Parreira resistiu a outros tipos de pressão – para efetivar os reservas e para que a seleção trocasse o pragmatismo por mais espetáculo. Ignorou tudo. "Eu sempre quero a vitória, mas não viemos com a obrigação de ganhar, e sim de fazer o melhor", afirma ele, que costuma pontuar suas frases com citações em inglês de personagens que admira, como o líder negro americano Martin Luther King. "I have a dream (eu tenho um sonho)." No fim de semana, Parreira continuou dormindo pouco porque sabia que, para realizá-lo, precisava tirar os franceses de seu caminho.

 
 
 
 
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