|
|
Internacional
Prisão fora da lei
Suprema Corte considera ilegal
tribunal
criado por Bush para julgar terroristas
Jim Watson/AFP
 |
| Bush: planos para fechar Guantánamo
|
A estratégia da guerra
ao terror do governo Bush sofreu uma derrota dentro de casa. Na
semana passada, por 5 votos a 3, a Suprema Corte dos Estados Unidos
considerou ilegal a existência do tribunal militar de exceção
na prisão instalada na base naval de Guantánamo. Estabelecido
pela Casa Branca, esse tribunal poderia julgar os acusados de terrorismo
em sessões secretas e condenar sem direito a apelação.
A decisão foi anunciada no parecer do processo movido por
um dos prisioneiros de Guantánamo, o iemenita Salim Ahmed
Hamdan, que foi motorista de Osama bin Laden no Afeganistão.
Preso desde 2001, ele contesta na Justiça americana o direito
do governo Bush de julgá-lo em um tribunal militar. Ao afirmar
que tal tribunal contraria as leis americanas e internacionais,
a Suprema Corte desfechou um golpe em Bush, que agia como se tivesse
carta-branca para fazer o que bem entendesse em nome da guerra ao
terror.
A decisão não levará
ao fechamento imediato da prisão em Guantánamo. "O
que está em jogo é o alcance do poder da Casa Branca",
disse a VEJA o americano Kal Raustiala, professor de direito da
Universidade da Califórnia. "Bush foi advertido sobre o fato
de que não pode deixar de se submeter aos outros poderes
nem às leis sob o pretexto de combater o terrorismo." No
centro de detenção criado na base de Guantánamo,
em Cuba, hoje há 460 prisioneiros acusados de pertencer à
Al Qaeda e ao Talibã. Todos estão num limbo jurídico.
O governo americano não os reconhece como "prisioneiros de
guerra", status que, pela Convenção Internacional
de Genebra, lhes garantiria liberdade ao fim do conflito. Como eles
estão fora dos Estados Unidos, a Casa Branca sustenta que
não podem ser julgados por um tribunal civil em que
as audiências são públicas e é possível
apelar da decisão do juiz. Na prática, os detentos
não têm nenhum direito reconhecido. Muitos estão
presos há quatro anos sem acusação formal.
Os apelos pelo fechamento de
Guantánamo aumentaram há três semanas, quando
três prisioneiros se suicidaram. Até Bush admitiu a
vontade de se livrar da cadeia estigmatizada. Além de Handam,
outros nove detentos já estavam sendo acusados perante o
tribunal militar e mais 65 tinham audiências marcadas. Com
o veredicto da Suprema Corte, não só esses julgamentos
tiveram de ser cancelados como o próprio status dos prisioneiros
foi colocado em questão. Os Estados Unidos precisam punir
aqueles que participaram de organizações terroristas.
A questão é como fazer isso sem passar por cima de
regras humanitárias que a comunidade internacional e os próprios
americanos demoraram tanto tempo para criar.
|