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Brasil
Supersafra de derrotas
Cansado do atraso do PT e da inação
oficial diante da crise, Rodrigues vai
embora e priva o governo de
um de seus melhores nomes

Alexandre Oltramari
Beto Barata/AE
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| Roberto Rodrigues, em seu gabinete, e a baderna
de militantes do MLST dentro do Congresso: em meio à
maior crise do setor agrícola, o ministro não
teve a atenção de Lula |
Adriano Machado/AE
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Faltando seis meses para o fim do governo Lula,
o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, anunciou que está
deixando o cargo. "A minha colaboração está
terminada. Saio com o sentimento do dever cumprido." A estranheza
de um pedido de demissão por "dever cumprido"
a tão pouco tempo do fim do mandato produziu uma supersafra
de explicações. Uma delas informa que Roberto Rodrigues,
que não é filiado a nenhum partido político,
sentia-se desconfortável com as pressões veladas para
que participasse da campanha reeleitoral de Lula. Outra explicação
para sua demissão é a intenção do governo
de aumentar o índice mínimo de produtividade para
desapropriar uma fazenda para fins de reforma agrária
medida concebida apenas para elevar o volume de desapropriações
e agradar ao MST, o que contava com a oposição tenaz
do ministro. Uma terceira versão seria a falta de reação
do governo diante da monumental crise que atinge a agricultura,
a pior dos últimos quarenta anos. A saída do ministro,
contudo, não se deve a nenhuma razão específica.
Deve-se ao conjunto da obra.
Desde que assumiu o cargo, no início
do mandato de Lula, Roberto Rodrigues vinha travando sucessivas
batalhas contra os setores mais atrasados do governo petista. Na
discussão sobre os transgênicos, engalfinhou-se publicamente
com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, contrária
ao plantio e à comercialização desses produtos.
A muito custo, o ministro conseguiu imunizar o governo contra o
vírus ideológico que contaminava a discussão.
Venceu a batalha, não a guerra. De lá para cá,
Rodrigues vinha perdendo todas as disputas em que se envolveu. O
orçamento de seu ministério minguou em plena crise
da febre aftosa. A desvalorização cambial, associada
à estiagem, produziu uma monumental quebradeira no campo
e o ministro colheu apenas vento quando tentou convencer
a área econômica a socorrer os agricultores falidos.
Conforme cálculos do próprio governo, as perdas na
agricultura chegam a 30 bilhões de reais nos últimos
dois anos. "A crise será a marca da minha gestão",
resumiu o ministro ao anunciar sua saída.
Recentemente, o ministro Roberto Rodrigues
ficou ainda mais constrangido ao ver a reação titubeante
do governo em relação à baderna promovida no
Congresso Nacional por militantes do PT vinculados ao MLST. Rodrigues
já pedira demissão a Lula em pelo menos três
oportunidades. Em todas, Lula conseguiu demovê-lo. Na semana
passada, o desfecho foi diferente em decorrência da conjunção
de dois fatores. Um deles: o desânimo crescente do ministro.
"Ele estava cansado, abatido. Ele simplesmente desistiu de continuar
arrumando uma briga atrás da outra no governo", diz um amigo,
que esteve com Rodrigues durante duas horas, logo antes de ele anunciar
publicamente sua saída. A outra razão é que,
aparentemente, Lula não se esforçou tanto para mantê-lo
no cargo. "Se tivesse recebido o apoio do presidente, acho que ele
ficaria. Mas Lula, ao ouvir as queixas do Roberto, limitou-se a
marcar a data de sua saída", conta o amigo do ministro. Especulou-se
que a mudança de atitude de Lula decorria da intenção
do governo de adular o PMDB, oferecendo ao partido a anexação
da pasta da Agricultura ao seu latifúndio político.
Era pura fumaça. Na sexta-feira passada, o presidente nomeou
o novo titular do cargo. É Luís Carlos Guedes Pinto,
amigo de Rodrigues e o segundo homem na hierarquia do ministério.
A saída de um quadro como Roberto Rodrigues,
além de fragilizar ainda mais um setor que responde por 30%
do PIB nacional, é uma nova evidência do cenário
desolador em que se transformou o primeiro escalão do governo
Lula. Com a saída de Rodrigues, o presidente perde um de
seus últimos ministros com estatura técnica e respeito
político. Atualmente, a galeria de ministros de Lula é
uma paisagem de desconhecidos, coisa que tende a acontecer em todo
final de governo e não é necessariamente ruim. Os
ministros técnicos muitas vezes fazem administrações
bastante superiores às dos ministros políticos. O
problema, no caso de Lula, é que, além de ter de enfrentar
a diáspora eleitoral comum em fim de mandato, ele está
abrindo mão dos poucos quadros de inquestionável competência
de seu governo. Fazendo assim, com quem será que Lula pretende
governar se ganhar nas urnas um segundo mandato?
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