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Brasil O
vampiroduto do PT Surgem
indícios de que Delúbio Soares, o ex-tesoureiro, tinha
ligações com a máfia dos vampiros 
Diego Escosteguy
Adriano Machado/AE  |
| Delúbio Soares, o ex-tesoureiro: ele fez pelo menos dezessete
ligações para o celular do lobista do esquema | | O escândalo dos vampiros,
conforme acabou batizado o bilionário esquema de fraudes em licitações
do Ministério da Saúde, ficou conhecido como um caso de associação
criminosa entre funcionários públicos corruptos, lobistas obscuros
e empresários sem escrúpulos. A quadrilha começou a ser desbaratada
na madrugada de 19 de maio de 2004, quando agentes da Polícia Federal lançaram
a Operação Vampiro e prenderam dezessete envolvidos no esquema em
três cidades. De lá para cá, as investigações
mostraram que o esquema dos vampiros fora instalado ainda no tempo do governo
de Fernando Collor (1990-1992) e pode ter chegado a desviar a monumental cifra
de 2 bilhões de reais, de acordo com estimativa da Polícia Federal.
Apesar de sua dimensão e sua longevidade, o esquema nunca ultrapassou as
fronteiras da criminalidade comum era mais um caso de assalto aos cofres
públicos envolvendo personagens desconhecidos e funcionários subalternos.
Agora, dois anos depois, surgem indícios sólidos de que o esquema
tinha uma face oculta: uma conexão com o caixa dois do PT.
VEJA conseguiu acesso aos 25 volumes do inquérito do caso, guardados na
Polícia Federal em Brasília. Com cerca de 7.000 páginas,
o inquérito traz depoimentos e transcrições de escutas telefônicas
cujo conteúdo nunca veio a público e mostra que havia ligações
entre a máfia dos vampiros e o então tesoureiro do PT, Delúbio
Soares. O elo é o lobista Laerte de Arruda Corrêa Junior, 49 anos.
As investigações mostraram que Laerte Corrêa era um novato
na máfia dos vampiros, à qual se integrou apenas depois que o governo
do PT tomou posse, em 2003, mas na qual rapidamente adquiriu certa proeminência.
Quando estava prestes a ser preso, ele tentou transferir 4,5 milhões de
reais de suas empresas para as contas bancárias de sua mãe, mas
a operação foi bloqueada em tempo. Ficou 136 dias preso na carceragem
da Polícia Federal. Investigado, acabou denunciado pelo Ministério
Público Federal e hoje responde a processo judicial por corrupção,
formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, entre outros crimes.
A principal acusação contra Laerte
Corrêa aparece no depoimento do empresário Sérgio Krishnamurt
Noschang, o principal executivo para a América Latina do Novo Nordisk,
um laboratório dinamarquês que figura como o maior fabricante mundial
de insulina, substância usada por diabéticos. Em seu depoimento,
prestado em 15 de junho de 2004, Noschang contou que começou a ser procurado
por Laerte Corrêa em setembro de 2003 e acabou recebendo o lobista em janeiro
do ano seguinte. A conversa foi um achaque. Conforme Noschang contou à
PF, Laerte Corrêa apresentou-se como homem com "fortes ligações"
com o PT, disse que tinha a atribuição de "arrecadar recursos" para
o partido e, com base nessa tenebrosa introdução, começou
a oferecer seus "serviços de consultoria". Curiosamente, o agente da Polícia
Federal que tomou o depoimento do empresário, ao ouvir essa exposição,
simplesmente encerrou a oitiva e não perguntou nada mais nem mesmo
se o "serviço" foi contratado. Procurado por VEJA, Noschang não
quis falar sobre o assunto, mas sua advogada, Mary Livingston, mandou dizer que
ele mantém tudo o que disse à PF e nega ter dado dinheiro ao lobista.
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 | Ricardo
Benichio  |
"HOMEM DO PT"
Em seu depoimento à Polícia Federal, prestado no dia 15
de junho de 2004, o empresário Sérgio Noschang, importante executivo
da Novo Nordisk, disse que o lobista Laerte de Arruda Corrêa apresentou-se
como homem do PT, que tinha funções de arrecadador e, usando essa
credencial, começou a oferecer seus serviços junto ao Ministério
da Saúde | Sérgio Noschang: ele confirma tudo o que
disse à PF, mas nega ter dado dinheiro ao lobista | Os
detalhes comprometedores da conversa entre o lobista e o empresário aparecem
numa escuta telefônica feita às 19h36 de 22 de janeiro de 2004. Nessa
conversa, monitorada pela polícia, Laerte Corrêa narra seu encontro
com o empresário Sérgio Noschang com a liberdade de quem fala com
um comparsa. Seu interlocutor é Jaisler Jabour, um dos acusados de comandar
a quadrilha dos vampiros e talvez o personagem mais conhecido do escândalo,
por ser pai da modelo Ellen Jabour, namorada do ator Rodrigo Santoro. No diálogo,
Laerte Corrêa diz a Jabour que a conversa foi "fantástica" e conta
que não terá de "tirar dinheiro" do empresário. "Nós
vamos ganhar dinheiro dele", diz. No trecho mais explícito de suas intenções,
relata ter falado ao empresário que sua taxa não poderia ser de
6%, que teria de cobrar 10%. A razão é que 6% de tudo o que cobrasse
já tinha destino previamente selado. "Eu não posso com 6. Eu tenho
de mandar 6 para um lugar", diz. Mais adiante, ele volta ao assunto e repete:
"Eu tenho de levar xis para tal lugar. Esse xis tem de ir". Há vários
indícios de que "tal lugar" ou "um lugar" é o caixa dois do PT então
manipulado por Delúbio Soares. Um desses
indícios está em outro depoimento colhido pela Polícia Federal.
Em 25 de maio de 2004, o lobista Francisco Danúbio Honorato, que trabalhava
com Jaisler Jabour e esteve preso por sua participação no esquema,
contou à polícia que seu chefe comentava que Laerte Corrêa
"por diversas vezes o procurou exigindo dinheiro e apresentando-se como pessoa
influente junto ao governo federal". Mais adiante, no depoimento, o lobista Francisco
Honorato diz que seu chefe costumava lhe dizer que "o dinheiro solicitado seria
utilizado para campanhas políticas do PT". Além de examinar os 25
volumes do inquérito, VEJA entrevistou dois integrantes da quadrilha. Eles
também reforçam as suspeitas de que Laerte Corrêa se ocupava
em achacar e reservar uma parcela do achaque ao PT. Os dois, que também
chegaram a ficar presos na Polícia Federal por envolvimento com o esquema,
falaram à revista com a condição de que sua identidade não
fosse revelada. Um deles foi ouvido pela reportagem em seis ocasiões
cinco em contatos pessoais e uma vez por telefone. O outro foi entrevistado três
vezes, duas pessoalmente e uma por telefone. Os
dois, ouvidos sempre em conversas separadas, disseram a VEJA que Laerte Corrêa
se aproximou da quadrilha no segundo semestre de 2003, alardeando influência
junto ao governo. Dizia que sua missão era arrecadar dinheiro para o caixa
petista e pleiteava uma parcela das propinas embolsadas pelos vampiros. "Laerte
ligava a todo momento para Delúbio na minha frente, para contar detalhes
do que estava acontecendo", diz um deles. Laerte Corrêa poderia ser um falastrão?
Alguém que divulga influências e amizades que na verdade não
tem? Quando o escândalo dos vampiros veio à tona, em maio de 2004,
Delúbio Soares admitiu que tivera contato com Laerte Corrêa, mas
apenas isso. "O Laerte prestava consultoria é assim que ele falava
para os laboratórios. Até então não havia nada
que depusesse contra ninguém", afirmou Delúbio, na época.
Na realidade, as ligações entre ambos eram mais profundas. Conheceram-se
na campanha presidencial de 2002, num jantar oferecido na casa do empresário
Ivo Rosseti, em São Paulo, cujo objetivo era aproximar Lula do PIB nacional.
Lula Marques/Folha Imagem  |
| A Polícia Federal em ação, em 2004: pegando fraudes de
2 bilhões de reais | "Depois do jantar,
quatro empresas com as quais eu tinha contato resolveram contribuir para a campanha,
mas tudo de forma oficial e transparente", diz Laerte Corrêa. Ele conta
que, depois desse jantar, se encontrou mais uma meia dúzia de vezes com
Delúbio. "Mas foi só para apresentar projetos na área de
saúde do governo", diz o lobista, sem demonstrar constrangimento com a
estupenda informação de que o tesoureiro do PT cuidava da saúde
no governo...! "Quando fiz uma cirurgia, ele me visitou em casa", lembra Laerte
Corrêa. "Eu também compareci ao aniversário dele na churrascaria
Porcão em Brasília, em 2003." Os contatos então se restringiram
a isso? Tudo indica que não. Os extratos telefônicos de Delúbio
Soares, requisitados pela extinta CPI dos Correios, mostram que o então
tesoureiro costumava se comunicar com um número de celular 8114-6565
que os integrantes da CPI não conseguiram identificar a quem pertencia.
Esse celular, sabe-se agora, era de Laerte Corrêa. Os extratos de Delúbio
mostram que, entre 25 de agosto e 18 de dezembro de 2003, esse número foi
acionado dezessete vezes. Dá uma média de uma conversa por semana
periodicidade um tanto exagerada para duas pessoas que mal se conhecem.
Laerte Corrêa diz que, nessa época, o celular em questão era
usado por um colega. Que colega? O lobista não se lembra...
E será que Laerte Corrêa, além da amizade com Delúbio
Soares, tinha mesmo influência junto ao governo, conforme alardeava para
os colegas vampiros? O fato é que, na mesma época em que ele tentou
achacar o empresário Sérgio Noschang, o Ministério da Saúde
preparava uma compra de insulina, um dos mais cobiçados contratos do governo
federal. No início de março de 2004, pouco mais de um mês
depois da conversa entre o lobista e o empresário, o Novo Nordisk estava
assinando contrato com o Ministério da Saúde para vender insulina
no valor de 127 milhões de reais. Pura coincidência? O procurador
Gustavo Velloso, do Ministério Público Federal em Brasília,
que teve acesso às escutas telefônicas de membros da quadrilha feitas
pela Polícia Federal, diz em sua denúncia à Justiça
Federal que as gravações mostram que houve fraude no edital do pregão
para compra de insulina e que funcionários do Ministério da Saúde
envolvidos com a vampiragem atropelaram pareceres técnicos para celebrar
o contrato. Laerte Corrêa nega que tenha
se associado à máfia dos vampiros, que tenha achacado o empresário
Sérgio Noschang ou que tenha arrecadado dinheiro para o PT. "Isso tudo
é uma fantasia. Falam isso tentando me atingir", diz ele. Com certeza,
não se pode acusar a Polícia Federal de estar entre os que querem
atingir o lobista. Na PF, o inquérito que apura o caso e contém
informações explosivas apresenta lacunas impressionantes. Uma delas
é que a Justiça, a pedido da PF, autorizou a quebra do sigilo telefônico
de Laerte Corrêa e também a instalação de escuta em
pelo menos um dos celulares usados pelo lobista justamente o 8114-6565,
com o qual Delúbio Soares mantinha contato freqüente. O curioso é
que, entre as 7.000 páginas do inquérito, não consta nenhum
extrato telefônico de Laerte Corrêa e não há uma única
transcrição de conversa que manteve em seu celular. Qual será
o motivo de tamanha lacuna?
| O
ACHAQUE
No curso das investigações
sobre a máfia dos vampiros, a Polícia Federal monitorou os telefones
de dezenas de suspeitos durante cerca de um ano. Um dos monitorados foi Laerte
de Arruda Corrêa, apontado pela polícia como um dos principais integrantes
da quadrilha. Nesta conversa telefônica, iniciada às 19h36 do dia
22 de janeiro de 2004, o lobista Laerte Corrêa conversa com o empresário
Jaisler Jabour, um dos comandantes da máfia dos vampiros, e conta os termos
em que abordou o empresário Sérgio Noschang, principal executivo
da Novo Nordisk na América Latina, na tentativa de extorqui-lo. Na conversa,
Corrêa conta que não poderia pedir propina de apenas 6%, mas que
teria de exigir 10%, pois 6% precisavam ser destinados "para um lugar". As investigações
indicam que a expressão "um lugar" significava o caixa do PT.
A seguir os principais trechos: Corrêa
Eu não tenho que tirar dinheiro dele (refere-se a Sérgio
Noschang). Nós vamos ganhar dinheiro dele. E não tirar dinheiro
dele. De uma coisa que não existe. Jabour
Exatamente. Corrêa
Não existe nada de 18% de ICM, não existe... Quer
dizer... Eu quis deixar claro pra ele... Ó, Sérgio (Noschang),
aonde eu puder ajudar, vou ajudar, se tiver que pagar, vai pagar. Se não
tiver que pagar, eu vou falar que não precisa pagar.
Alan Marques/Folha Imagem  |
| Jaisler Jabour, um dos chefes do esquema: comparsa no
achaque | Jabour
Exatamente.
(...) Corrêa
Se você tinha algum tipo de compromisso com o Lourenço
(refere-se a Lourenço Peixoto, outro integrante da máfia dos
vampiros, mas rival de Corrêa e Jabour no esquema), então, você
acabou de perder... Acabou de deixar de existir hoje. Jabour
Então tá ótimo. Corrêa
Até porque existe um acerto a ser feito e precisa dos 10%.
É isto que eu falei pro Sérgio (Noschang). Jabour
Hum. Corrêa
Eu não posso com seis. Eu tenho que mandar seis para um
lugar. Três têm que ficar com o Eduardo (refere-se a Eduardo Pedrosa,
outro integrante da máfia dos vampiros), um com o Jabour. Porque eu
tenho que dar três... Enfim, cê tá entendendo o que eu tô
falando pro cê? Jabour
Hum, hum, e ele? Corrêa
...não, é o que você fala. Cê acerta com o Jabour, e
é isso aí. (...) Corrêa
Chega com o Sérgio (Noschang) e fala que precisa
de tanto. Acabou. Jabour
Exatamente. Corrêa
Eu não posso chegar, é... porque os malucos (refere-se aos funcionários
do Ministério da Saúde que compactuavam com o esquema) têm
que ter tanto, porque não sei o quê... Jabour
Hum, hum. Corrêa
Eu tenho que levar xis para tal lugar. Esse xis tem que ir. Acabou.
Jabour Entendi.
Fonte: escutas
da Polícia Federal na Operação Vampiro |
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