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Entrevista:
Maria Sylvia de Carvalho Franco "Ideologia
emburrece" A filósofa diz que
Lula age como um tirano, afirma que Alckmin foi escolhido para perder
e denuncia o oportunismo de intelectuais de esquerda
 Marcelo
Carneiro
Antonio Milena
 | "Não
há nada mais flexível do que a espinha de um político brasileiro"
| | Professora
dos departamentos de filosofia da USP e da Unicamp, Maria Sylvia de Carvalho Franco
passou os últimos quarenta anos de vida acadêmica nadando contra
a corrente. Durante o regime militar, entre optar pelo exílio como
fizeram muitos de seus colegas que militavam em organizações clandestinas
e manter aberta a cátedra da USP mesmo sob a vigilância da
polícia, a decana da faculdade de filosofia preferiu a segunda alternativa.
Dava aulas para até 100 estudantes, alguns deles investigadores policiais
infiltrados. Começava ali um histórico de polêmicas com boa
parte da intelectualidade brasileira, à direita e à esquerda. Seus
trabalhos de pesquisa, em especial o clássico Homens Livres na Ordem
Escravocrata, de 1969, conseguiram desagradar a marxistas e liberais. Hoje,
a professora ainda cultiva o destemor ao refletir sobre o oportunismo na vida
política tanto dos partidos quanto dos intelectuais, em especial
os de esquerda. Veja
Apesar de todas as denúncias contra o seu governo, e com o PT caminhando
para um encolhimento nas urnas, o presidente Lula continua com alta popularidade.
Como explicar esse fenômeno? Maria Sylvia Primeiro, isso
se deu graças a uma política populista desenfreada e ao uso desmedido
do dinheiro público e da estrutura governamental para propagandear essa
política. Depois, ocorreu porque Lula é um sobrevivente, exatamente
como na definição do escritor Elias Canetti (búlgaro,
prêmio Nobel de Literatura em 1981 e autor do livro Massa e Poder).
Para Canetti, os homens que têm uma posição carismática,
e de poder, terminam por criar um vazio em torno de si. Exemplo disso é
a capacidade que Lula tem de se livrar até dos auxiliares mais próximos,
quando isso é necessário. Ele sabe que o perigo o cerca de todos
os lados. Atento a isso, criou um deserto à sua volta. Tem mensalão,
ministro que pede demissão, outro que é acusado de corrupção,
um monte de gente do PT envolvida mas, para cada um desses problemas, ele
inventa uma desculpa. Ora diz que foi traído, ora que não sabia
de nada. Ou, então, se livra sem pudores dos auxiliares mais próximos.
Veja o (ex-ministro da Fazenda) Palocci. Lula o defendeu até o último
minuto. Quando ficou claro que o ministro estava comprometido, ele simplesmente
o tirou. O mesmo aconteceu com o José Dirceu. Esse é o destino do
tirano: ele acaba se isolando porque, para conseguir chegar ao poder, elimina
qualquer tipo de relação, seja ela política ou social, de
amizade ou de confiança. Tudo isso em proveito de si próprio.
Veja Esse seria o
traço mais forte da personalidade política do presidente?
Maria Sylvia Lula é um fenômeno que guarda peculiaridades.
Sua característica mais evidente seria a esperteza. Ele tem um certo tipo
de inteligência que pega o momento oportuno e segue nesse rumo. Hoje eu
não tenho mais dúvida de que, mesmo no período em que era
líder sindical, seu projeto era uma mudança de classe. A mudança
dele já que, pela natureza do capitalismo, é impossível
a mudança estrutural de toda a classe operária. Ocorre que, quando
indivíduos isolados transpõem essa barreira, perdem a determinação
da classe da qual saíram e assumem a determinação de outra
classe. Essa, aliás, é uma análise marxista. Diz-se que,
desde o período sindical, Lula fazia alianças com a burguesia. Era
agressivo no palanque e conciliador na mesa de negociação com os
empresários. O marco disso é o momento em que ele conseguiu se eleger.
Houve uma mudança até na sua aparência física. Hoje
seria impossível distinguir Lula em uma reunião de empresários
a não ser pelo fato de que ele talvez estaria mais bem vestido.
Aquele alfaiate dele é muito bom. Só não conseguiu mudar
tudo, como se vê pelas gafes e pelos erros de português que comete.
Veja Mas os
discursos o ajudam a tornar-se mais popular. Maria Sylvia Não
sei se o ajudam, mas o fato é que isso não deveria ocorrer. Lula
teve trinta anos para se cultivar. Ou ele não fez isso porque é
muito preguiçoso ou porque explora essa falta de cultura como mais uma
faceta da sua atitude esperta diante do mundo. Ou é preguiça ou
é canalhice. Na verdade, o bom português é o mínimo
que se exige de um presidente da República. Não aceito o argumento
de alguns lingüistas de que a língua falada é dinâmica.
Existe uma gramática, com significados definidos. São estruturas
que têm de ser respeitadas, senão a língua desaparece, vira
um dialeto incompreensível.
Veja A história da democracia no Brasil tem episódios
de avanços e retrocessos. Qual a explicação para o ressurgimento
de um fenômeno populista como o lulismo neste momento? Maria Sylvia
O problema está na forma como o poder republicano se institucionalizou
no Brasil. A lógica da Presidência é imperial, de concentração
de poderes. Mas há também os defensores dos interesses regionais,
que têm sua sede no Parlamento. A função deles é garantir
uma parte dos recursos que são sugados para os cofres do governo federal.
Nessa queda-de-braço, o presidente da República dificilmente contará
com um bloco muito fiel entre os deputados e senadores. Em decorrência disso,
passa a exercer pressão sobre o Congresso de duas maneiras: fazendo a interlocução
direta com as massas, e virando o pai dos pobres, ou desviando dinheiro público
para encher o bolso de parlamentares aliados e, assim, garantir apoio. É
Bolsa Família e mensalão.
Veja Em que medida a tibieza da oposição ajudou
o presidente Lula a passar ao largo das denúncias e dar continuidade a
esse projeto? Maria Sylvia A blindagem de Lula vem, em certa medida,
dos interesses políticos envolvidos. Por que o PSDB se cala diante das
denúncias? Arthur Virgílio (senador do PSDB do Amazonas),
que vinha fazendo um grande ataque, no outro dia recua. A mesma coisa acontece
com as CPIs. A CPI dos Correios criou várias oportunidades para que se
pedisse o impeachment de Lula por exemplo, quando foram descobertos pagamentos
de campanhas eleitorais em contas no exterior. Isso não aconteceu porque
os tucanos têm telhado de vidro um pouco mais sólido, é
verdade. Se nada de significativo apareceu contra os tucanos até agora,
foi apenas porque eles têm mais experiência no poder, não são
afoitos como esse pessoal do PT, que se juntou com criminosos ligados a esquemas
de lixo e a bingos. Veja
Na sua opinião, quais as chances de o candidato tucano, Geraldo
Alckmin, vencer a eleição? Maria Sylvia Eu sempre
imaginei que havia algo por trás dessa escolha de Alckmin. Por que a opção
por uma pessoa tão inexpressiva sem carisma, sem ligações
importantes em lugar nenhum para enfrentar um homem como Lula? Hoje está
na cara. Alckmin foi escolhido para perder.
Veja Como assim? Maria Sylvia Aécio (Neves,
governador de Minas Gerais) e Tasso (Jereissati, presidente do PSDB) escolheram
alguém para ser queimado. O projeto do PSDB é para 2010. As chances
de Alckmin são muito pequenas porque, inclusive, o tucanato não
vai se empenhar. Diz-se que Lula não tem herdeiros, daí o "Lulécio",
o Lula com Aécio. Meu marido (o filósofo Roberto Romano) tem
uma expressão muito adequada. Afirma que os tucanos são primos do
PT e que, no futuro, vão se reunir em família e dividir o bolo.
Acho que haverá um ajuntamento entre Lula e esses dirigentes mais novos,
como Aécio. O único problema é o PMDB, um partido muito forte
e oligárquico. O Brasil é assim: de um lado, a força do governo
federal; de outro, o poder das oligarquias regionais. E quem congrega essas oligarquias
é o PMDB. Veja
A senhora já disse que tanto Lula como Geraldo Alckmin têm traços
autoritários. Quais os exemplos de autoritarismo dos dois candidatos?
Maria Sylvia Em Lula, há exemplos todo dia, como nessa frase de
que é fácil governar para pobre. Porque, segundo ele, pobre não
protesta então, é fácil de dominar. Em Alckmin, o
exemplo fundamental ainda é sua atitude na pré-candidatura. Ele
disse: "Eu quero ser candidato, e é para já" apesar de todas
as indicações de que ele não ganharia a eleição.
Veja A senhora
acredita que, em caso de vitória por larga margem de votos no primeiro
turno, Lula se sentiria tentado a governar desprezando as instituições
e dialogando diretamente com as massas, como sugeriu o ex-petista e também
candidato a presidente, Cristovam Buarque? Maria Sylvia Acho possível,
mas não temos muito que fazer, só rezar. Essa reeleição
do Lula é perigosa. Há um vazio político muito grande. Toda
uma geração está deixando a vida política e não
há uma nova para assumir esse posto. Entre os partidos, só vejo
o PV, do Fernando Gabeira, e o PSOL.
Veja Mas o PSOL, além de uma visão de mundo ultrapassada,
traz alguns vícios idênticos aos do PT. Maria Sylvia
Sei disso. Sei que há também demagogia e oportunismo, todos os males
da política brasileira. Mas é preciso que um partido de oposição
sobreviva. O PMDB não vai fazer oposição, é visceralmente
conciliador. O PSDB está mostrando a cara: concilia também, e muito.
O PFL é outro conciliador. Quando se trata de repartir o poder, eles estão
todos juntos. Não há nada mais flexível do que a espinha
de um político brasileiro.
Veja A senhora é conhecida por distribuir críticas
a pensadores tanto do PT quanto do PSDB. Há alguma diferença entre
um intelectual petista e um tucano? Maria Sylvia No PT, há
dois tipos de intelectual. O primeiro é correto, mas tem um fanatismo exacerbado.
São pessoas que não tiram vantagem nenhuma de apoiar o PT, às
vezes dão de si e do próprio bolso, sem receber nada em troca. Mas
são capazes de cortar relações com você só porque
você faz críticas ao PT. É um apego ideológico, e ideologia
emburrece. O segundo tipo é o intelectual de um oportunismo atroz, como
Marilena Chaui. Uma pessoa com a formação dela não pode dizer
que, quando Lula abre a boca, o mundo se ilumina. É uma professora universitária
que diz que o mundo é iluminado por alguém que faz a apologia da
ignorância, que é capaz de dizer "minha mãe nasceu analfabeta".
Alguns membros do PT fazem essa apologia.
Veja E o intelectual tucano? Maria Sylvia É
cultivado, até mais do que os do PT, mas tem uma certa desvinculação
da estrutura partidária. Os tucanos são mais individualistas e têm
uma capacidade maior de ajustamento às circunstâncias.
Veja Qual a origem desses dois grupos? Maria Sylvia
Os dois grupos são formados por intelectuais originados da ortodoxia marxista.
Houve um bom período de domínio hegemônico dessa corrente
na universidade. Os partidos comunistas mais ortodoxos sustentavam grupos universitários
de poder, controlando cargos acadêmicos, formação de colegiados
e até publicações. Nem precisava ser membro de algum desses
partidos para ter essa sustentação, bastava ser uma linha auxiliar,
um simpatizante. Essa instrumentalização hoje se mantém,
ainda que com menor vigor. Esses monopólios são difíceis
de ser quebrados. Veja
Para quem olha de fora, parece que a intelectualidade marxista continua bem
forte nas universidades brasileiras. Maria Sylvia Sim, mas o fato
é que já foi bem mais dominante. Além da ortodoxia marxista,
outra corrente acadêmica muito forte era aquela com raízes românticas,
representada principalmente pelo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).
Raízes do Brasil, por exemplo, é um livro de fundamentos românticos.
Veja Quais
as conseqüências da predominância dessas duas correntes na vida
acadêmica? Maria Sylvia Elas produziram grupos extremamente
conservadores. Do romantismo você não pode esperar outra coisa. É
uma posição pacificadora. Hoje em dia ninguém acredita no
homem cordial do Sérgio Buarque, em uma sociedade harmoniosa, mas essa
idéia persiste e passou pela antropologia americana, pela Igreja, pelas
comunidades eclesiais de base, pelas organizações não governamentais
e deu origem a um vocabulário próprio. Você, por exemplo,
não pode mais falar "favela", tem de falar "comunidade".
Veja Seu livro Homens
Livres na Ordem Escravocrata, lançado em 1969, hoje é um clássico.
Mas levou dez anos para ser publicado. Qual a razão da demora?
Maria Sylvia. Ele foi resultado de uma tese de doutorado e, na ocasião,
era contra todas as interpretações correntes no Brasil. Desagradava
tanto aos ortodoxos marxistas quanto aos liberais. Essas dificuldades do período
inicial da minha carreira persistiram até não faz muito tempo. Os
estereótipos, as idéias feitas, principalmente quando são
propostos por intelectuais de importância, têm uma força enorme.
Veja Por quê?
Maria Sylvia Porque são grupos de poder que se instalam e que
têm uma circulação interna de auto-sustentação
muito grande. Em seus trabalhos de pesquisa, as pessoas se citam reciprocamente,
e abundantemente. Se você procurar a literatura publicada imediatamente
depois do meu livro, não encontrará nenhuma citação.
Isso só foi ocorrer anos depois. A censura ideológica neste país
é muito grande. |