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Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
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Neurose urbana

Mulher sozinha à mercê de estranhos:
eis o pesadelo de Jodie Foster em
O Quarto do Pânico

Isabela Boscov

 
Columbia Pictures

Jodie e Kristen Stewart: o lugar mais seguro é também o mais perigoso



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O americano David Fincher é o cineasta das pessoas erradas nas circunstâncias erradas: Sigourney Weaver como a única mulher num planeta-prisão em Alien 3, um psicopata obcecado pela moral religiosa num mundo que já não prima por ela em Seven, um homem numa era que tirou aos homens o significado que eles tinham em Clube da Luta. Ou Jodie Foster e sua filha pré-adolescente sozinhas, numa casa imensa em Nova York, em O Quarto do Pânico (Panic Room, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país. No novo filme de Fincher, Jodie é Meg Altman, recém-divorciada de um executivo milionário da indústria farmacêutica, que a trocou por outra. Obrigada a encontrar uma nova moradia, Meg se vinga escolhendo o que encontra de mais caro: uma casa de quatro andares, com jardim e elevador, na Rua 94, perto do Central Park. A conta, obviamente, será paga pelo ex-marido.

Desde o momento em que entra nesse edifício espetacular – e, sem nenhum móvel à vista, um tanto angustiante –, Fincher começa a exercitar uma de suas virtudes, a imensa criatividade visual. A câmara caminha por cada quarto e cada canto, entra na alça de uma chaleira e sai do outro lado – faz, em suma, o impossível. É uma homenagem declarada a Alfred Hitchcock na maneira como transforma um cenário em personagem e constrói a tensão a partir daquilo que mostra ou deixa de mostrar. O cômodo mais sinistro é o que dá nome ao filme. Trata-se de um cubículo inexpugnável, reforçado com concreto e aço, dotado de linha de telefone e sistema de ventilação próprios e equipado com monitores que mostram cada canto da casa. Ali, explica o corretor, o morador pode refugiar-se em caso de invasão e esperar a salvo pela chegada da polícia.

Meg e sua filha têm a oportunidade de testar o quarto do pânico já em sua primeira noite na nova residência. Um trio de bandidos entra na casa atrás de algo de muito específico. Meg consegue fechar-se a tempo com a menina na fortaleza. O primeiro problema é que ela ainda não teve tempo de conectar essa segunda linha telefônica, e não pode avisar a polícia. O segundo é que o que os homens desejam está exatamente ali onde elas se isolaram, no quarto do pânico. Segue-se uma guerra psicológica entre Meg e os criminosos – eles tentando tirá-la de lá, ela determinada a ficar –, durante a qual a protagonista, à maneira de James Stewart em Janela Indiscreta, será arrancada de sua postura de observadora para se envolver na ação e, ao final, tomar as rédeas dela.

Fincher faz parte daquele pequeno clube de cineastas de Hollywood que podem ser chamados de autores. Como tal, imprime a O Quarto do Pânico muito mais idéias do que seria razoável esperar desse enredo. A presença de Jodie Foster (em substituição a Nicole Kidman, que sofreu uma lesão no joelho e teve de desistir do papel), sempre uma atriz complexa, torna plausível a evolução radical da protagonista. Há também a excelente sacada de fazer com que segurança e perigo emanem do mesmo lugar, indivisivelmente. Pode-se ver ainda no filme, segundo o diretor, uma metáfora do divórcio – a casa seria o casamento que termina destruído na ânsia por vantagens materiais. Mas o fato é que O Quarto do Pânico carece daquele destemor que, até aqui, havia feito de Fincher um cineasta tão especial. De acordo com ele mesmo, trata-se de um movie, e não de um film – como os americanos diferenciam o simples entretenimento de uma produção com pretensões artísticas. Pode vir a ser emblemático dos rumos que o diretor irá tomar. Ele está dividido entre dois projetos: uma adaptação de Dália Negra, o livro de James Ellroy sobre um assassinato grotesco na Los Angeles dos anos 40, e Missão Impossível 3. O primeiro é um film. O segundo, que já é o provável escolhido, um movie.

   
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