Japão

O país do sol poente

Travada pela desconfiança da população,
que não consome, a economia japonesa encolhe


Até o início da década o Japão foi o símbolo da produtividade, da riqueza crescente, do emprego garantido pela vida inteira. Era o país do consumo escandaloso. Nos fins de semana, as famílias despejavam seus aparelhos antigos de TV e de videocassete na calçada para que os trabalhadores imigrantes de baixo salário os levassem para casa. O Japão de 1999 é uma máquina econômica travada e, aparentemente, não há azeite capaz de destrancá-la. Entre 1990 e 1997 o crescimento foi pífio, de 1,5% ao ano. No ano passado a economia contraiu-se em 2,5% e neste ano pode afundar ainda mais. Entre pequenos e grandes, o governo já aplicou pelo menos oito pacotes para estimular empresas, bancos e trabalhadores que caíram no tatame e não querem levantar. No ano passado foram gastos 336 bilhões de dólares em crédito a empresas e em obras de infra-estrutura. Não funcionou. O único efeito foi elevar o déficit orçamentário, que se aproxima de 10%.

Agora, até Tóquio desanimou. Na semana passada, num encontro em Washington, o G-7 implorou ao governo japonês que usasse qualquer ferramenta para levantar o país. "O governo já fez tudo o que podia", respondeu o ministro das Finanças, Kiichi Miyazawa. O que estragou a economia japonesa foi a própria bolha de especulação do começo da década e seu efeito mais próximo, um estado de embriaguez que faz as pessoas gastar muito e os bancos emprestar mal. As conseqüências são conhecidas. Descobriu-se de repente que no porão bancário havia 700 bilhões de dólares em empréstimos incobráveis e o crédito às empresas foi cortado. No império do emprego eterno, as companhias começaram a demitir. A taxa de desemprego é recorde, atingindo 4,6% dos trabalhadores. E o pior não é nem isso. O pior é que o consumidor japonês passou da euforia para um delírio constante de desconfiança econômica.

Hoje ele é um poupador compulsivo. Embora o governo tenha baixado os juros para perto de zero, o que em teoria desestimula a poupança e esquenta as compras, a população guarda atualmente 10 trilhões de dólares. Por um certo tempo, as lojas mais caras se esvaziaram e as de desconto ganharam clientes. Mesmo estas começam a fraquejar. Venderam 8% menos do que no ano passado. Entesourando seu dinheiro e sem comprar, o japonês realimenta a crise, reduzindo o lucro das empresas, que demitem mais ainda. Teme-se que o Japão tenha caído no que os economistas chamam de "armadilha de liquidez", situação em que o dinheiro existe, mas fica empoçado e perde sua função. Uma das saídas para o problema, que já está sendo apontada por alguns economistas, é criar alguma inflação, sob controle. Isso levaria as pessoas a gastar dinheiro antes que ele perca o valor. É uma opção drástica, mas talvez seja a única capaz de arrancar o país da letargia.

 

 




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