A suspeita atroz de
que
a banda podre venceu
É
tal a quantidade
de escândalos
que o Brasil
não é mais um
país onde a corrupção floresce
mas um país, em si, corrupto
Corrupção
é bom? Ou melhor, para o leitor não se assustar:
os escândalos de corrupção são
bons? Vêm para o bem? É saudável que
aconteçam? Por um lado sim, por outro não.
Não são bons porque é sempre desagradável
dar de cara com a podridão. Causa revolta e dá
asco. Mas os escândalos são bons porque consistem
na revelação de algo ilícito, ou criminoso,
até então escondido. Equivalem a um desmascaramento.
Ocorrem quando o ladrão, ou a quadrilha, é
apanhado. Satisfazem, portanto, a expectativa da sociedade,
que ao se constituir convencionou denunciar os transgressores
das regras em que se funda, e –
mais importante –
sugerem um clima político benigno. Se os escândalos
vêm à tona, é porque, ao contrário
do que ocorre nas ditaduras, é possível cavoucar
nos porões da delinqüência política
e econômica.
Por um lado são
bons, por outro não –
eis os dois pólos que, a cada escândalo, se
contrapõem em nossos espíritos. O caso Collor
está próximo o bastante para nos recordarmos
dos sentimentos que provocou. Por um lado era lamentável
que aquilo ocorresse. Por outro, que bom. Os atos criminosos
vieram à tona, o próprio presidente foi deposto.
Isso levava a concluir que houvera uma mudança de
qualidade na sociedade brasileira. Ficava claro que o país
não agüentava mais esse tipo de coisa. Uma dupla
lição haveria de ser aprendida. Os ocupantes
de cargo público não ousariam reincidir em
práticas criminosas. Os eleitores, por seu lado,
não votariam mais nos tipos suspeitos que se apresentam
a cada eleição.
A dualidade de sentimentos
continua a se fazer sentir, a cada escândalo. Tome-se
o caso da prefeitura de São Paulo. A que lamentável
estado foi arrastada a administração municipal...
e, no entanto, que oportunidade de ouro para uma limpeza
em regra. O problema é que... Ora, essa lição
não era já para ter sido aprendida? O país
já não mudara? Não ficara claro que
não agüentávamos mais esse tipo de coisa?
Não estava combinado que os políticos não
delinqüiriam mais, e os eleitores não votariam
em delinqüentes?
Acresce que a temporada
de escândalos não se limita a São Paulo.
Olhe-se em volta. Estão aí, nos jornais, do
caso da polícia do Rio de Janeiro ao da Câmara
Municipal de Cariacica (ES), onde dez dos 21 vereadores
foram presos na semana passada. Do da polícia do
Paraná ao do traficante Fernandinho Beira-Mar. Sem
falar em Guarulhos (SP), onde o prefeito foi preso, no Acre
do deputado que fazia picadinho dos inimigos, em centenas
de Câmaras Municipais contaminadas, em empresários
corruptores ou emprestadores de dinheiro... Nessa matéria,
há muito, há demais.
A quantidade absurda
de escândalos, um gerando outro, um atropelando outro,
uns se multiplicando em outros, abala o efeito bom que deles
se espera. Claro, sempre é saudável que o
crime seja desvendado e os criminosos desmascarados. Mas
a sensação é de cansaço. De
que não adianta. A uma quadrilha sempre se sucederá
outra. A cada prefeito, deputado ou delegado de polícia
destituído, cassado ou preso, se sucederão
outros iguais. A cada empresário emprestador de dinheiro
se seguirá outro. A Primeira Guerra Mundial também
oferecia um lado otimista. Era "a guerra que veio para acabar
com todas as guerras". Pois à Primeira sucedeu a
Segunda, muito pior. Em seguida ao caso Collor, e ao dos
anões do Orçamento, que o complementou, imaginou-se
que o Brasil vivia os escândalos que tinham vindo
para acabar com todos os escândalos. Mudáramos
de qualidade. Engano.
Mudamos de qualidade,
talvez, num outro sentido –
o da velha lei dialética segundo a qual a quantidade
produz a qualidade. Tal é a quantidade de escândalos
que o Brasil mudou de qualidade. Não é mais
um país onde pululam casos de corrupção,
mas um país, em si, corrupto. Ou melhor: de estruturas
de poder corruptas, pois o país que existe fora dos
circuitos do dinheiro e da influência, o país
do povão, não tem nada com isso. O atual panorama
levanta a suspeita de que vivemos um momento de ultrapassagem.
Os maus ultrapassaram os bons. Os corrompidos acumularam
mais poder que seus contrários. A banda podre venceu.
P.S.: A figura mais
patética do momento não é o prefeito
Celso Pitta, nem mesmo sua ex-mulher Nicéa. Os Pitta
são patéticos porque estão num enredo
em que entraram de contrapeso, figuras pequenas a serviço
de interesses que os superavam, e viraram vítimas
do próprio deslumbramento –
mas mais que eles é o governador Anthony Garotinho.
Este é um prisioneiro. Caiu nas garras da própria
polícia. Está nas mãos de uma gente
que, se não é capaz de combater o crime, pode
desencadeá-lo em larga escala, assolando o Rio de
Janeiro como não o fariam as bestas do Apocalipse.
Que, a um assoprão mais forte, pode fazer soçobrar
a própria cadeira do governador. Uma dúvida
suscitada pelo caso fluminense: será que não
se consegue governar no Brasil sem condescender com a corrupção?
Uma conclusão: sim, a banda pobre venceu.