Edição 1 643 - 5/4/2000

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A suspeita atroz de que
a banda podre venceu

É tal a quantidade de escândalos que o Brasil
não é mais
um país onde a corrupção floresce
mas um país, em si, corrupto

Corrupção é bom? Ou melhor, para o leitor não se assustar: os escândalos de corrupção são bons? Vêm para o bem? É saudável que aconteçam? Por um lado sim, por outro não. Não são bons porque é sempre desagradável dar de cara com a podridão. Causa revolta e dá asco. Mas os escândalos são bons porque consistem na revelação de algo ilícito, ou criminoso, até então escondido. Equivalem a um desmascaramento. Ocorrem quando o ladrão, ou a quadrilha, é apanhado. Satisfazem, portanto, a expectativa da sociedade, que ao se constituir convencionou denunciar os transgressores das regras em que se funda, e mais importante sugerem um clima político benigno. Se os escândalos vêm à tona, é porque, ao contrário do que ocorre nas ditaduras, é possível cavoucar nos porões da delinqüência política e econômica.

Por um lado são bons, por outro não eis os dois pólos que, a cada escândalo, se contrapõem em nossos espíritos. O caso Collor está próximo o bastante para nos recordarmos dos sentimentos que provocou. Por um lado era lamentável que aquilo ocorresse. Por outro, que bom. Os atos criminosos vieram à tona, o próprio presidente foi deposto. Isso levava a concluir que houvera uma mudança de qualidade na sociedade brasileira. Ficava claro que o país não agüentava mais esse tipo de coisa. Uma dupla lição haveria de ser aprendida. Os ocupantes de cargo público não ousariam reincidir em práticas criminosas. Os eleitores, por seu lado, não votariam mais nos tipos suspeitos que se apresentam a cada eleição.

A dualidade de sentimentos continua a se fazer sentir, a cada escândalo. Tome-se o caso da prefeitura de São Paulo. A que lamentável estado foi arrastada a administração municipal... e, no entanto, que oportunidade de ouro para uma limpeza em regra. O problema é que... Ora, essa lição não era já para ter sido aprendida? O país já não mudara? Não ficara claro que não agüentávamos mais esse tipo de coisa? Não estava combinado que os políticos não delinqüiriam mais, e os eleitores não votariam em delinqüentes?

Acresce que a temporada de escândalos não se limita a São Paulo. Olhe-se em volta. Estão aí, nos jornais, do caso da polícia do Rio de Janeiro ao da Câmara Municipal de Cariacica (ES), onde dez dos 21 vereadores foram presos na semana passada. Do da polícia do Paraná ao do traficante Fernandinho Beira-Mar. Sem falar em Guarulhos (SP), onde o prefeito foi preso, no Acre do deputado que fazia picadinho dos inimigos, em centenas de Câmaras Municipais contaminadas, em empresários corruptores ou emprestadores de dinheiro... Nessa matéria, há muito, há demais.

A quantidade absurda de escândalos, um gerando outro, um atropelando outro, uns se multiplicando em outros, abala o efeito bom que deles se espera. Claro, sempre é saudável que o crime seja desvendado e os criminosos desmascarados. Mas a sensação é de cansaço. De que não adianta. A uma quadrilha sempre se sucederá outra. A cada prefeito, deputado ou delegado de polícia destituído, cassado ou preso, se sucederão outros iguais. A cada empresário emprestador de dinheiro se seguirá outro. A Primeira Guerra Mundial também oferecia um lado otimista. Era "a guerra que veio para acabar com todas as guerras". Pois à Primeira sucedeu a Segunda, muito pior. Em seguida ao caso Collor, e ao dos anões do Orçamento, que o complementou, imaginou-se que o Brasil vivia os escândalos que tinham vindo para acabar com todos os escândalos. Mudáramos de qualidade. Engano.

Mudamos de qualidade, talvez, num outro sentido o da velha lei dialética segundo a qual a quantidade produz a qualidade. Tal é a quantidade de escândalos que o Brasil mudou de qualidade. Não é mais um país onde pululam casos de corrupção, mas um país, em si, corrupto. Ou melhor: de estruturas de poder corruptas, pois o país que existe fora dos circuitos do dinheiro e da influência, o país do povão, não tem nada com isso. O atual panorama levanta a suspeita de que vivemos um momento de ultrapassagem. Os maus ultrapassaram os bons. Os corrompidos acumularam mais poder que seus contrários. A banda podre venceu.

 

P.S.: A figura mais patética do momento não é o prefeito Celso Pitta, nem mesmo sua ex-mulher Nicéa. Os Pitta são patéticos porque estão num enredo em que entraram de contrapeso, figuras pequenas a serviço de interesses que os superavam, e viraram vítimas do próprio deslumbramento mas mais que eles é o governador Anthony Garotinho. Este é um prisioneiro. Caiu nas garras da própria polícia. Está nas mãos de uma gente que, se não é capaz de combater o crime, pode desencadeá-lo em larga escala, assolando o Rio de Janeiro como não o fariam as bestas do Apocalipse. Que, a um assoprão mais forte, pode fazer soçobrar a própria cadeira do governador. Uma dúvida suscitada pelo caso fluminense: será que não se consegue governar no Brasil sem condescender com a corrupção? Uma conclusão: sim, a banda pobre venceu.