Caçada cósmica
Descoberta de planetas menores que Saturno
dá impulso à busca por vida fora da Terra
Daniel Hessel Teich
Há
dois grandes mistérios na astronomia. O primeiro
diz respeito à existência de planetas similares
à Terra fora do sistema solar. O segundo é
a possibilidade de existir vida entre as estrelas. Na semana
passada, deu-se um novo salto no conhecimento existente
sobre corpos orbitando em torno de estrelas. Um grupo liderado
por especialistas da Universidade da Califórnia,
em Berkeley, nos Estados Unidos, detectou os dois menores
planetas já encontrados na Via Láctea, nas
constelações de Baleia e de Unicórnio,
a pouco mais de 100 anos-luz de distância da Terra.
Ainda são planetas grandes quando comparados ao nosso,
com massa cerca de setenta vezes maior que a da Terra. Mas
é um avanço considerável quando se
leva em conta que os outros 32 planetas já identificados
fora do sistema solar nos últimos cinco anos são
maiores ou iguais a Júpiter, um colosso onde cabem
317 planetas como o nosso.
Os dois planetas de Baleia e Unicórnio, descobertos
pelos astrônomos Geoffrey Marcy e Paul Butler, ainda
estão longe de apresentar as condições
perfeitas para o surgimento de vida da forma como conhecemos.
Compostos basicamente de hidrogênio e hélio,
estão muito próximos da estrela. O planeta
de Unicórnio orbita a 6 milhões de quilômetros
da estrela HD 46375, distância que equivale a um décimo
da órbita de Mercúrio, o planeta mais próximo
do nosso Sol. O de Baleia é mais distante, girando
numa órbita elíptica de 52 milhões
de quilômetros de distância da estrela HD 16141.
São uma antevisão do inferno, tão quentes
que se enquadram na categoria de planetas que os astrônomos
chamam jocosamente de braseiros, tamanho é o calor
em sua superfície. Calcula-se que o planeta em HD46375
tenha uma temperatura média de 1.130
graus Celsius, enquanto o de HD 16141 seja de 830 graus.
Apesar de ser tão inóspitos, foram aclamados
como marcos e sua descoberta provocou uma onda de euforia
nos centros de pesquisa astronômica. Isso porque demonstraram
que é possível, com a tecnologia existente
hoje, buscar planetas cada vez menores. "Dentro de um ou
dois anos já poderemos encontrar corpos do tamanho
de Urano, um planeta apenas catorze vezes maior que a Terra",
entusiasma-se a astrofísica Heidi Hammel, do Instituto
de Ciência Espacial, em Boulder, no Colorado. "Eles
são fundamentais para que um dia encontremos planetas
parecidos com a Terra", diz ela.
Erro nas contas – Nenhum
dos planetas descobertos até agora foi visto por
olho humano. O máximo a que se chegou foi vislumbrar
a sombra de um deles se deslocando sobre uma estrela. Os
astrônomos inferem a presença dessas esferas
gasosas a partir do deslocamento gravitacional que provocam
na estrela. Imensos e muito próximos de seu sol,
esses planetões o deslocam ligeiramente de seu eixo.
É essa oscilação que os cientistas
medem, a partir de observações feitas em potentes
telescópios, como o do Observatório Keck,
no Havaí. "Quando percebemos um corpo que pode ser
um planeta, antes mesmo de comemorar, nos perguntamos se
não cometemos um erro qualquer nas contas", afirmou
Marcy na entrevista realizada na sede da Nasa em Washington
e transmitida por satélite para todo o mundo.
Entre todos os planetas já descobertos em torno
de estrelas, 21 foram detectados pelo grupo de Berkeley.
Há um ano, os mesmos astrônomos anunciaram
a descoberta do primeiro sistema planetário orbitando
uma estrela próxima ao Sol, a Upsilon Andrômeda.
Tratava-se de três grandes planetas, com massa variando
de 230 a 1.470 vezes o tamanho
da Terra. Atualmente, Marcy e sua equipe checam os dados
de outros dez possíveis planetas, alguns deles com
dimensões saturnianas, e vasculham outras 1.100
estrelas a até 300 anos-luz de distância da
Terra atrás de novidades.
Apesar de patrocinar os estudos de Marcy e Butler, a Nasa
quer meios mais eficientes de detecção. O
problema da técnica de Marcy e Butler é só
enxergar planetas muito grandes e que estejam em uma órbita
solar bem pequena. A Nasa está desenvolvendo uma
metodologia alternativa para captar apenas planetas pequenos.
Há duas semanas a agência espacial americana
lançou um ambicioso projeto para a localização
de planetas semelhantes à Terra em estrelas que ficam
num raio de cinqüenta anos-luz do Sol. De tecnologia
avançada, o programa tem como objetivo ir além
da detecção feita atualmente e captar a imagem
dos planetas, coisa que os pesquisadores atuais ainda não
conseguiram fazer.
Setenta e cinco pesquisadores da Nasa, empresas aeroespaciais
e cinqüenta universidades estão trabalhando
no projeto de quatro satélites que devem começar
a funcionar apenas em 2011. Os satélites, construídos
no formato de discos espelhados, ficarão voltados
para fora do sistema solar e seguirão atrelados à
órbita terrestre em torno do Sol. Dotados de interferômetros,
aparelhos capazes de captar a radiação luminosa
de diferentes elementos químicos a uma grande distância,
esses satélites poderão até ver se
o planeta tem em sua estrutura os elementos ligados às
formas de vida como conhecemos, principalmente carbono,
nitrogênio, água, metano e ozônio. Os
dados serão processados em um quinto satélite.
"Procuraremos basicamente por planetas de temperaturas amenas,
capazes de reter água em forma líquida e até
mesmo representar sinais de vida primitiva", diz Charles
Beichman, cientista responsável pela missão
no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa.
A missão deve durar cinco anos e os primeiros equipamentos
que comporão os telescópios já começaram
a ser testados em vários observatórios, como
o próprio Keck e o de Monte Palomar. Uma vez que
a flotilha de satélites se instale no espaço,
só resta aos cientistas cruzar os dedos e vasculhar
o espaço em busca de planetas e de vida.