Edição 1 643 -5/4/2000

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Muito inglês, uai

Em Londres, o mineiro Inácio Ribeiro veste
artistas famosos e firma a sua marca

Eduardo Salgado, de Londres

 

Criações da dupla: ousadia no vestido de Naomi Campbell e bolinhas em Madonna

Muito se ouviu falar nos últimos tempos de estilistas brasileiros batendo ponto em passarelas internacionais. Mas a história do mineiro Inácio Ribeiro é diferente, a começar pela ausência de Brasil – a Clements Ribeiro, nome que divide com o da mulher, Suzanne Clements, nasceu em Londres, é inglesíssima e vem fazendo e acontecendo no mundo do show biz. Madonna, a cantora que adora uma grife, usa Clements Ribeiro. Mick Jagger também. Brad Pitt, Michelle Pfeiffer, Cameron Diaz, todos têm Clements Ribeiro no guarda-roupa. Avalizada por esse pessoal, a dupla assinou recentemente seu primeiro contrato com uma empresa de grande porte: vai desenhar a coleção primavera-verão 2001 da francesa Cacharel. "O fato de eu ser brasileiro tem influência em meu trabalho", diz Ribeiro. "Mas não é um traço óbvio."

Quarto-e-sala – Filho de engenheiro e professora, Ribeiro, 38 anos, nasceu em Belo Horizonte e lá foi vitrinista e aprendiz de estilista antes de largar tudo e partir para Londres, aos 24 anos. "Eu queria testar meu talento", explica. "Ou dava um pulinho e ia para São Paulo, ou dava um salto e viajava para a Europa." Conheceu Suzanne, hoje com 31 anos, na renomada St. Martin's School of Arts, onde ambos se formaram em desenho de moda. Em 1993, abriram seu negócio no quarto-e-sala onde moravam em Londres. O forte já eram os suéteres de cashmere listrados em várias cores e as estampas de bolinhas (que ele chama de "confete colorido"). "Se tudo tivesse acabado em seis meses, não teria ficado surpresa", diz Suzanne. Não só não acabou como foi se ampliando. O quarto-e-sala foi trocado por uma bela casa de três andares e, neste ano, a previsão é que as criações de ambos rendam 5,1 milhões de dólares.

O casal cria as coleções em conjunto. Cada um faz seus desenhos – os dele, minuciosos e perfeccionistas; os dela, espontâneos e "bagunçados" – e a seguir eles discutem conceitos, cores e tecidos. Depois, Ribeiro toca a produção e Suzanne cuida da administração da marca. "Dá certo, mas não acho saudável um casal trabalhar junto. Se um tem algum problema, não pode chegar em casa à noite e discutir com o outro", reclama Ribeiro. Ele e Suzanne trabalham dez horas por dia e quase não encontram tempo para ficar com seu filho de 2 anos, Hector. O menino é assistido por quatro babás brasileiras, que se revezam ao longo do dia. O resultado do esforço pode ser avaliado nas lojas das principais cidades do mundo (no Brasil, a grife é vendida na paulista Daslu). Os preços são salgados: um suéter custa de 500 a 850 dólares. No meio da roda-viva, eles sonham em desacelerar. "Nossa maior meta é trabalhar menos", afirma Ribeiro. "Não existe processo criativo que resista a longas horas no batente."