Edição 1 643 -5/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Homem não tem nada a ver com o neandertal
Identificados os genes da velhice
A procura por cursos para professores
Mercedes redesenha o Classe C
Argentina no mapa dos vinhos de qualidade
Retratos mortuários revelam como eram os egípcios
Paraísos ficam mais acessíveis com vôos regionais
Safáris ecológicos abatem animais sem matar
Tratamentos não cirúrgicos contra rugas e olheiras
Mineiro afirma sua marca em Londres
Cientistas descobrem dois novos planetas
Beijo entre astronautas
Um milhão de brasileiros entram na rede em dois meses
Por que o mundo está trabalhando mais
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Calma! Ela não está morta

Em vez de balas de verdade, dardos com tranqüilizantes. São os caçadores que descobriram o prazer do safári ecológico, que derruba mas não mata

Anna Paula Buchalla

Arquivo pessoal

O empresário Sergio Almeida e sua presa: dois dardos para imobilizar a onça

Os caçadores de animais inventaram uma forma de driblar a cara feia dos ambientalistas: substituíram as balas de suas espingardas por dardos tranqüilizantes. Eles ainda perseguem, miram e atiram com o mesmo prazer de acertar a presa. Mas a simples troca de munição vem alterando significativamente a imagem do esporte. Antes, os animais eram abatidos e seus chifres ou a cabeça levados como troféus para enfeitar a sala de estar do caçador. Com a nova prática, os bichos ficam dormindo por duas horas e depois se levantam como se nada tivesse acontecido. O tempo de anestesia é suficiente para que o praticante da caça esportiva ganhe dois prêmios: um molde da cabeça do animal feito enquanto o bicho dorme e uma foto com a presa. Além disso, ele não pode ser acusado de estar contribuindo para o desequilíbrio ecológico do planeta. Quem vem gostando da novidade são os grupos de defesa dos animais. Organizações que eram contra a caça passaram a ver no esporte uma maneira de arrecadar fundos para a preservação das espécies. Isso porque cada participante de um safári ecológico desembolsa em média 5.000 dólares para acertar um animal. De olho nos lucros, os parques e as fazendas especializadas vêm adotando essa prática na África do Sul e no México. Aqui no Brasil já será possível caçar com tranqüilizantes até o final do ano.

A chamada "caçada verde" é o resultado de uma mistura que reúne aventura, turismo e ecologia. Ela começou faz dez anos na África do Sul, mas há apenas cinco vem ganhando adeptos. No ano passado, o número de rinocerontes abatidos mortalmente na África já foi o mesmo dos derrubados com tranqüilizantes. A idéia do safári foi a evolução de uma prática que já existia. Em todo o mundo, centenas de animais são abatidos pacificamente por biólogos. Os pesquisadores usam os tranqüilizantes para imobilizar os bichos e instalar sensores que produzem informações sobre o paradeiro, o ciclo de acasalamento e o habitat desses animais. Se os ambientalistas podiam, por que não difundir os dardos entre os caçadores? Será que eles topariam? Ao contrário do que se poderia imaginar, a recepção foi ótima. Os caçadores estão adotando a prática e querendo informações sobre o animal abatido mesmo depois que voltam para casa. "Se os animais somem, não há caçada. Portanto, temos o maior interesse em preservar a fauna", diz Marco Antonio Moura de Castro, presidente do Safari Club International do Brasil, uma organização internacional de apoio à caça.

A caça esportiva é uma atividade bastante cara. Além da espingarda e da munição, o praticante precisa pagar pelos animais que mata. Na África, o caçador é obrigado a despender de 35.000 a 40.000 dólares por um elefante e de 30.000 a 35.000 dólares por um rinoceronte. Ele acerta o animal e o serviço inclui o frete do corpo para que o caçador faça o que bem entender com a presa. Um dos grandes atrativos do safári ecológico é justamente o preço. O valor de um animal abatido com tranqüilizantes nunca ultrapassa os 10.000 dólares. A "pechincha" vem atraindo levas de americanos. Quase 80% dos "caçadores verdes" nasceram nos Estados Unidos. O país é o maior centro de aficionados por caça do planeta. Existem canais de televisão especializados, revistas e 14 milhões de pessoas com licença para matar animais. É um mercado de 25 bilhões de dólares por ano. Mesmo com a prática sendo liberada por lá, os americanos viajam com bastante freqüência para caçar em lugares distantes. Ultimamente, eles vêm gastando quase 30.000 dólares por um pacote que inclui passagem aérea para a África do Sul, hospedagem e um rinoceronte branco anestesiado.

No século XIX, a caça de animais surgiu como esporte chique entre os membros da nobreza européia. Reis, príncipes e lordes se divertiam ao abater bichos e mostrar as suas habilidades com armas de fogo. Até meados da década de 60, a prática havia se popularizado. Foi a partir daí que os caçadores tiveram os seus dias de caça. Desde que a consciência ecológica se tornou a arma número 1 da preservação, diversas leis foram criadas para punir crimes ambientais. Embora seja regulamentada em países da Europa, África e América do Sul, no Canadá e nos Estados Unidos, a caça vem sendo perseguida com extremo rigor pelos grupos ambientalistas. No Brasil, ela é proibida na maior parte do território. Aqui, apenas dois Estados a autorizam: o Paraná e o Rio Grande do Sul. Até o final do ano, algumas fazendas em Mato Grosso do Sul vão promover o safári com dardos.

O empresário Sergio Almeida, 34 anos, é um dos poucos brasileiros que já participaram de uma caçada verde. Caçador há 25 anos, Almeida diz que a aventura de uma caça com dardos é tão emocionante quanto a caçada letal. "O risco pode ser maior nesse caso, porque você não mata o animal", diz. Recentemente, Sergio tomou parte em um empreendimento para o estudo científico da onça-preta, uma espécie rara no Brasil. Sua missão era acertar a presa com tranqüilizantes. A mata, localizada no interior de Mato Grosso do Sul, era fechada e havia muitos terrenos alagados. A onça se escondeu em cima de uma árvore, Almeida colocou a quantidade de tranqüilizante necessária e atirou. O projétil fez a onça balançar, mas foi preciso outro tiro, também com relaxante muscular, para capturar o animal. A onça depois foi solta, e Almeida ficou com seu troféu: a foto.

 
Saiba mais
Da internet
  www.amazonsafaris.com