Calma! Ela não está morta
Em vez de balas de verdade, dardos com tranqüilizantes.
São os caçadores que descobriram o prazer
do safári ecológico, que derruba mas não
mata
Anna Paula Buchalla
Arquivo pessoal
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O empresário Sergio Almeida
e sua presa: dois dardos para imobilizar a onça
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Os caçadores de animais inventaram uma forma de
driblar a cara feia dos ambientalistas: substituíram
as balas de suas espingardas por dardos tranqüilizantes.
Eles ainda perseguem, miram e atiram com o mesmo prazer
de acertar a presa. Mas a simples troca de munição
vem alterando significativamente a imagem do esporte. Antes,
os animais eram abatidos e seus chifres ou a cabeça
levados como troféus para enfeitar a sala de estar
do caçador. Com a nova prática, os bichos
ficam dormindo por duas horas e depois se levantam como
se nada tivesse acontecido. O tempo de anestesia é
suficiente para que o praticante da caça esportiva
ganhe dois prêmios: um molde da cabeça do animal
feito enquanto o bicho dorme e uma foto com a presa. Além
disso, ele não pode ser acusado de estar contribuindo
para o desequilíbrio ecológico do planeta.
Quem vem gostando da novidade são os grupos de defesa
dos animais. Organizações que eram contra
a caça passaram a ver no esporte uma maneira de arrecadar
fundos para a preservação das espécies.
Isso porque cada participante de um safári ecológico
desembolsa em média 5.000
dólares para acertar um animal. De olho nos lucros,
os parques e as fazendas especializadas vêm adotando
essa prática na África do Sul e no México.
Aqui no Brasil já será possível caçar
com tranqüilizantes até o final do ano.
A chamada "caçada verde" é o resultado de
uma mistura que reúne aventura, turismo e ecologia.
Ela começou faz dez anos na África do Sul,
mas há apenas cinco vem ganhando adeptos. No ano
passado, o número de rinocerontes abatidos mortalmente
na África já foi o mesmo dos derrubados com
tranqüilizantes. A idéia do safári foi
a evolução de uma prática que já
existia. Em todo o mundo, centenas de animais são
abatidos pacificamente por biólogos. Os pesquisadores
usam os tranqüilizantes para imobilizar os bichos e
instalar sensores que produzem informações
sobre o paradeiro, o ciclo de acasalamento e o habitat desses
animais. Se os ambientalistas podiam, por que não
difundir os dardos entre os caçadores? Será
que eles topariam? Ao contrário do que se poderia
imaginar, a recepção foi ótima. Os
caçadores estão adotando a prática
e querendo informações sobre o animal abatido
mesmo depois que voltam para casa. "Se os animais somem,
não há caçada. Portanto, temos o maior
interesse em preservar a fauna", diz Marco Antonio Moura
de Castro, presidente do Safari Club International do Brasil,
uma organização internacional de apoio à
caça.
A caça esportiva é uma atividade bastante
cara. Além da espingarda e da munição,
o praticante precisa pagar pelos animais que mata. Na África,
o caçador é obrigado a despender de 35.000
a 40.000 dólares por um
elefante e de 30.000 a 35.000
dólares por um rinoceronte. Ele acerta o animal e
o serviço inclui o frete do corpo para que o caçador
faça o que bem entender com a presa. Um dos grandes
atrativos do safári ecológico é justamente
o preço. O valor de um animal abatido com tranqüilizantes
nunca ultrapassa os 10.000 dólares.
A "pechincha" vem atraindo levas de americanos. Quase 80%
dos "caçadores verdes" nasceram nos Estados Unidos.
O país é o maior centro de aficionados por
caça do planeta. Existem canais de televisão
especializados, revistas e 14 milhões de pessoas
com licença para matar animais. É um mercado
de 25 bilhões de dólares por ano. Mesmo com
a prática sendo liberada por lá, os americanos
viajam com bastante freqüência para caçar
em lugares distantes. Ultimamente, eles vêm gastando
quase 30.000 dólares por
um pacote que inclui passagem aérea para a África
do Sul, hospedagem e um rinoceronte branco anestesiado.
No século XIX, a caça de animais surgiu
como esporte chique entre os membros da nobreza européia.
Reis, príncipes e lordes se divertiam ao abater bichos
e mostrar as suas habilidades com armas de fogo. Até
meados da década de 60, a prática havia se
popularizado. Foi a partir daí que os caçadores
tiveram os seus dias de caça. Desde que a consciência
ecológica se tornou a arma número 1 da preservação,
diversas leis foram criadas para punir crimes ambientais.
Embora seja regulamentada em países da Europa, África
e América do Sul, no Canadá e nos Estados
Unidos, a caça vem sendo perseguida com extremo rigor
pelos grupos ambientalistas. No Brasil, ela é proibida
na maior parte do território. Aqui, apenas dois Estados
a autorizam: o Paraná e o Rio Grande do Sul. Até
o final do ano, algumas fazendas em Mato Grosso do Sul vão
promover o safári com dardos.
O empresário Sergio Almeida, 34 anos, é
um dos poucos brasileiros que já participaram de
uma caçada verde. Caçador há 25 anos,
Almeida diz que a aventura de uma caça com dardos
é tão emocionante quanto a caçada letal.
"O risco pode ser maior nesse caso, porque você não
mata o animal", diz. Recentemente, Sergio tomou parte em
um empreendimento para o estudo científico da onça-preta,
uma espécie rara no Brasil. Sua missão era
acertar a presa com tranqüilizantes. A mata, localizada
no interior de Mato Grosso do Sul, era fechada e havia muitos
terrenos alagados. A onça se escondeu em cima de
uma árvore, Almeida colocou a quantidade de tranqüilizante
necessária e atirou. O projétil fez a onça
balançar, mas foi preciso outro tiro, também
com relaxante muscular, para capturar o animal. A onça
depois foi solta, e Almeida ficou com seu troféu:
a foto.
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