O Brasil é um país onde não faltam
paraísos intocados, com água cristalina,
dunas, vegetação exuberante e cenários
cinematográficos. O único problema é
que a beleza desses lugares costuma ser proporcional
à dificuldade de acesso e ao alojamento precário.
Jericoacoara, no litoral cearense, sempre foi um exemplo
clássico dessa situação: dunas
e praias deslumbrantes cercadas por estradas em péssimo
estado de conservação e pousadas para
lá de rudimentares. Isso até o final do
ano passado. De lá para cá, a pequena
vila de pescadores passou a exibir entre seus atributos
um aeroporto, instalado na vizinha Camocim, o que reduziu
em seis horas o tempo de viagem desde a capital, Fortaleza,
a 317 quilômetros de distância. Dez vôos
semanais feitos em um pequeno bimotor Bandeirante despejam
150 turistas em Jericoacoara. Eles levam apenas cinqüenta
minutos para chegar lá. E a conta sai por 290
reais, ida e volta. "Começamos com sete vôos,
mas a procura foi tão grande que tivemos de aumentar
em mais três", diz Murillo Carvalho, diretor da
Correta Turismo, empresa que opera a linha Fortaleza–Camocim.
"Já estamos pensando em substituir o Bandeirante
por um avião maior, com o dobro da capacidade",
comemora.
Barreirinhas,
no Maranhão, é outro desses cafundós
encravados em meio a paisagens deslumbrantes onde já
se pode chegar de avião a partir da capital mais
próxima. A cidade, de 30.000
habitantes, é o ponto de partida para a região
dos Lençóis Maranhenses, um incrível
conjunto de dunas brancas e lagoas verde-esmeralda que
se estendem por uma área equivalente à
da cidade de São Paulo a 272 quilômetros
de São Luís. Desde janeiro, a TAM Viagens,
uma divisão da companhia aérea, vende
pacotes, em agências de todo o país, que
incluem passagem de avião e três noites
de hospedagem em Barreirinhas e duas na capital. O preço
é alto: 1.700 reais
por cabeça. Às empresas de turismo de
São Luís, que também fretam aviões
para a região, pagam-se 450 reais, com dois dias
de hospedagem em pousada. Todos os vôos são
feitos em monomotores fretados de empresas maranhenses
de táxi aéreo e poupam o turista da pouco
tentadora experiência de viajar por estradas repletas
de buracos e lama a uma velocidade média de 30
quilômetros por hora. Além de ser longe
e inacessível, a região dos Lençóis
Maranhenses detém a peculiaridade de ter sua
alta estação entre março e abril.
Trata-se da época das chuvas, quando as lagoas
ficam cheias entre as dunas. É o momento em que
a terra vermelha das estradas, a piçarra, vira
um lodaçal medonho. Nada melhor que o asfalto
de um aeroporto recém-reformado para espantar
essa assombração.
Felipe
Golfman
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Para atender aos turistas pouco acostumados a solavancos,
poeira e buracos, até a infra-estrutura local
começa a dar um jeito na improvisação
turística. Em Barreirinhas, as antigas pensões
com quartos coletivos ocupados por mochileiros já
enfrentam a concorrência de pousadas com conforto
mínimo da civilização como ar condicionado
e banheiro contíguo ao quarto. Como luxo extra
há até piscina na mais nova delas, a Pousada
do Buriti, inaugurada em outubro. Como hóspedes
preferenciais estão os turistas que chegam de
avião. Em Jericoacoara, cidade que já
conta com 800 leitos para turistas, a mesma agência
que freta os aviões está inaugurando quatro
pousadas, aumentando em mais 200 vagas a capacidade
hoteleira da região. As quatro terão ar
condicionado e telefone e uma delas terá piscina,
um progresso num lugar que viu a luz elétrica
chegar há menos de dois anos.
Os planos vão além. Carvalho pretende
até maio estender o alcance de seus aviões
também no sentido leste, para a cidade de Aracati,
vizinha da vila de Canoa Quebrada. A 160 quilômetros
de Fortaleza, essa praia, com suas falésias coloridas,
não é tão remota assim. Foi reduto
dos hippies nos anos 70 e tem até um resort da
rede Best Western. "Com o avião queremos mostrar
que vai longe o tempo em que apenas mochileiro se interessava
em fazer ecoturismo", diz ele. O difícil vai
ser controlar a chiadeira dos ecologistas de plantão
contra o turismo de massa nessas áreas, mantidas
intocadas por tanto tempo exatamente por serem longe
de tudo.