Edição 1 643 -5/4/2000

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Eles eram assim

Retratos mortuários que enfeitavam múmias
revelam a fisionomia dos antigos egípcios

Bia Barbosa

  Fotos Metropolitan Museum

Múmias do tempo dos Césares: os retratos eram pintados com rigor quase fotográfico entre os séculos I e III e revelavam quem era o morto (centro). Detalhes como os olhos grandes e penteados em simetria mostram a influência da pintura greco-romana na sociedade cosmopolita que habitou o país por mais de 700 anos

No Egito do tempo dos faraós vislumbrar uma pessoa morta depois de mumificada era um sacrilégio. No máximo, podia-se tentar identificar as feições do falecido com base em imagens esculpidas e pintadas sobre o sarcófago, pouco fiéis ao modelo original. Essa cultura começou a mudar com a conquista do Egito pelo Império Romano, no ano 30 a.C. Os corpos continuaram sendo embalsamados, mas passaram a ser expostos diante da casa em que tinham vivido, exibidos em câmaras e até partilhavam da vida familiar por meses a fio. Para informar quem se escondia sob as bandagens e tornar o convívio que precedia o sepultamento mais natural, os egípcios romanizados fixavam um retrato pintado em linho ou placas de madeira sobre a múmia. Em vez de imagens estilizadas e repletas de simbologia fúnebre do passado, os mortos eram representados de forma realista e com uma impressionante vivacidade. Passados 2.000 anos, esses retratos produzidos aos milhares estão reduzidos a poucas dezenas, pulverizados por coleções de todo o planeta depois de pilhados das necrópoles por ladrões de relíquias. A maioria foi escavada em sítios arqueológicos de Memphis, Saqqara e Hawara e, sobretudo, do Oásis de Fayum, entre 1887 e 1911.

Uma seleção de setenta desses retratos está atualmente exposta no Metropolitan Museum of Art, em Nova York. São peças pintadas entre os séculos I e III, emprestadas por vários museus da Europa e dos Estados Unidos, e guardadas com medidas extraordinárias de segurança. Devido à extrema fragilidade do material, dificilmente voltarão a ser reunidas. O conjunto é deslumbrante. Algumas têm o requinte de ser folhadas a ouro, o que aumentava seu valor no mercado de arte antiga. Quase todas foram separadas das suas múmias, de modo que hoje é impossível, em quase todos os casos, restituir o retrato ao cadáver original. O mais impressionante é a história que contam. Como se o visitante estivesse folheando um álbum de família, só que os retratos são de pessoas desaparecidas há quase dois milênios. A janela que se abre ajuda a compreender uma sociedade multicultural que habitou o Egito por séculos, até o cristianismo mudar inteiramente os costumes funerários. Pode-se ver que se tratava de uma população de feições tipicamente mediterrâneas, não muito diferente dos habitantes atuais da região.

O Egito do período romano era cosmopolita e próspero. Na época em que os primeiros retratos realistas desceram às necrópoles, ainda era recente a derrota de Cleópatra, a última soberana de uma dinastia de origem helênica, a dos Ptolomeos, diante das legiões romanas. Integrado ao Império dos Césares, o Egito tornou-se uma província de economia sólida, com fartas colheitas, em especial a de trigo, proporcionadas pelas cheias anuais do Rio Nilo. O Porto de Alexandria exportava artigos de luxo e produtos manufaturados, como papiro e vidro. A mistura de costumes religiosos, de roupas e ornamentos de diferentes origens, revelada pelos retratos dos mortos, é uma lembrança do modo com que Roma administrava seus domínios. "Os romanos foram sutis e estavam mais interessados nas vantagens econômicas do que na aculturação das províncias conquistadas", diz a historiadora Eliza Torquatto Sales, da Universidade de São Paulo. "Nunca subjugaram inteiramente a civilização e a cultura do Egito, que permaneceram fortes."

A arte dessa época era um nítido retrato dessa ambivalência. Enquanto a construção de templos e palácios no tradicional estilo dos faraós sobreviveu até o final do século II, muitas estátuas de divindades e retratos passaram a ser concebidos de acordo com a linguagem artística greco-romana. E a mumificação também não escapou da influência das novas culturas. A visão mais positiva da vida após a morte atraiu os romanos assim como já havia seduzido os gregos, que aderiram aos hábitos religiosos do antigo Egito. "Foi um período em que ocorreu uma democratização do culto funerário", diz o egiptólogo Antonio Brancaglion. "O processo de embalsamamento se tornou mais simples e barato, e por isso existem muito mais múmias desse período do que faraônicas." Com isso, atletas, soldados e sacerdotes, cidadãos comuns gregos, romanos ou egípcios também puderam ser mumificados.

 
  Fotos Metropolitan Museum

Diversidade técnica: cada região
do país
tinha um estilo próprio
de retratar os mortos

São dessas pessoas os retratos colados às múmias, essenciais para o cumprimento de um ritual também recém-adotado. Textos antigos contam que as múmias permaneciam em casa ou em capelas por meses, às vezes anos, para ser veneradas pelos parentes. Era comum que os parentes mortos estivessem presentes às ocasiões festivas da família. "Por isso elas precisavam ter um rosto, já que eram vistas", diz Brancaglion. A salada cultural é bem representada na forma como eram sepultados os mortos. O objetivo da mumificação preservar o corpo para a vida além-túmulo tinha sido herdado do Egito clássico. Muitas outras coisas remetiam ao período faraônico. Múmias retiradas da mesma escavação de Hawara, da qual saíram muitas das preciosidades expostas no Metropolitan, são decoradas com máscaras feitas pelo processo chamado de cartonagem, o mesmo usado sobre os cadáveres embalsamados dos faraós. Eram produzidas pela aplicação sucessiva de camadas de panos sobre papiro, cola e gesso. Embora diretamente descendentes das peças usadas no tempo de Tutancâmon, mostram que os mortos usavam penteados e adornos no estilo greco-romano. Com tanta diversidade, a representação fúnebre era, para os habitantes do Egito daquele tempo, uma questão de escolha.

A pintura de retratos é uma dentre muitas formas disponíveis para preparar o morto para a última jornada. Os retratos que procuravam reproduzir com fidelidade a fisionomia do mumificado eram feitos, provavelmente, por artistas que o tinham conhecido em vida ou tiveram a oportunidade de pintá-lo logo após a morte. O realismo relacionava-se diretamente à tradição da pintura greco-romana e tem pouco a ver com o Egito antigo. "A valorização do sorriso típico da arte jônica, os olhos grandes, cabelos encaracolados, penteados em simetria e pregas de roupas bem ordenadas são características da arte grega retomadas nesse período", descreve Elza Ajzenberg, professora de estética e história da arte na USP.

Não apenas o estilo, mas também a técnica utilizada na maioria dos retratos é a mesma usada pelos gregos em pinturas antigas dos séculos V e IV a.C. Chamada de encáustica, a técnica é similar à pintura a óleo e consiste na mistura de cera com pigmentos de cor. Os artistas utilizavam esse tipo de tinta diretamente no linho que servia para enrolar o corpo do morto ou em placas de madeira que depois eram fixadas na parte superior da múmia. Algumas eram banhadas em ouro antes de ser pintadas e outras ostentavam lâminas do metal para representar as jóias e adornos que o falecido teria usado em vida. Também se encontraram retratos pintados em têmpera, método usado a partir do fim do século I. São facilmente identificados pelas cores mais quentes e pelos traços menos definidos.

As vedetes da mostra são as peças feitas pela técnica da encáustica. Isso porque os detalhes são tão minuciosos que a tornam quase uma fotografia. "São retratos realistas de homens e mulheres de todas as idades, com marcas expressivas de pessoas que tinham a expectativa de chegar a uma vida além-túmulo", observa Elza. Pesquisas concluíram que esses costumes funerários continuaram comuns até o final da era romana. As variações técnicas, sobretudo entre a pintura encáustica e a têmpera, correspondem a diferenças regionais. Contemplados quase 2.000 anos depois, são mais do que fragmentos espetaculares de uma civilização original e surpreendente. São como uma espiada na vida de pessoas comuns de um mundo há muito desaparecido

 

A morada eterna

Na época dos gregos e dos romanos os cemitérios do Egito eram verdadeiras cidades, que receberam corpos ininterruptamente por mais de dez séculos. As imagens ao lado são simulações modernas do que pode ter sido a aparência da necrópole de Alexandria em seu apogeu, no século I. Numa grande seção desse cemitério, identificada há apenas três anos, encontraram-se desde sepulturas rudimentares até múmias ricamente decoradas em mausoléus e capelas. Na superfície, a necrópole lembrava um cemitério moderno. Mas a forma mais comum era o sepultamento em nichos nas amplas catacumbas.

 
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  www.metmuseum.org
  www.sis.gov.eg
  www.british-museum.ac.uk