Eles eram assim
Retratos mortuários que enfeitavam
múmias
revelam a fisionomia dos antigos egípcios
Bia Barbosa
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Fotos Metropolitan
Museum |
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| Múmias
do tempo dos
Césares: os retratos eram
pintados com rigor quase fotográfico entre
os séculos I e III e
revelavam quem era o morto
(centro). Detalhes como
os olhos grandes e penteados
em simetria mostram a influência
da pintura greco-romana
na sociedade cosmopolita
que habitou o país por
mais de 700 anos
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No Egito do tempo dos faraós vislumbrar uma pessoa
morta depois de mumificada era um sacrilégio. No
máximo, podia-se tentar identificar as feições
do falecido com base em imagens esculpidas e pintadas sobre
o sarcófago, pouco fiéis ao modelo original.
Essa cultura começou a mudar com a conquista do Egito
pelo Império Romano, no ano 30 a.C. Os corpos continuaram
sendo embalsamados, mas passaram a ser expostos diante da
casa em que tinham vivido, exibidos em câmaras e até
partilhavam da vida familiar por meses a fio. Para informar
quem se escondia sob as bandagens e tornar o convívio
que precedia o sepultamento mais natural, os egípcios
romanizados fixavam um retrato pintado em linho ou placas
de madeira sobre a múmia. Em vez de imagens estilizadas
e repletas de simbologia fúnebre do passado, os mortos
eram representados de forma realista e com uma impressionante
vivacidade. Passados 2.000 anos,
esses retratos produzidos aos milhares estão reduzidos
a poucas dezenas, pulverizados por coleções
de todo o planeta depois de pilhados das necrópoles
por ladrões de relíquias. A maioria foi escavada
em sítios arqueológicos de Memphis, Saqqara
e Hawara e, sobretudo, do Oásis de Fayum, entre 1887
e 1911.
Uma seleção de setenta desses retratos está
atualmente exposta no Metropolitan Museum of Art, em Nova
York. São peças pintadas entre os séculos
I e III, emprestadas por vários museus da Europa
e dos Estados Unidos, e guardadas com medidas extraordinárias
de segurança. Devido à extrema fragilidade
do material, dificilmente voltarão a ser reunidas.
O conjunto é deslumbrante. Algumas têm o requinte
de ser folhadas a ouro, o que aumentava seu valor no mercado
de arte antiga. Quase todas foram separadas das suas múmias,
de modo que hoje é impossível, em quase todos
os casos, restituir o retrato ao cadáver original.
O mais impressionante é a história que contam.
Como se o visitante estivesse folheando um álbum
de família, só que os retratos são
de pessoas desaparecidas há quase dois milênios.
A janela que se abre ajuda a compreender uma sociedade multicultural
que habitou o Egito por séculos, até o cristianismo
mudar inteiramente os costumes funerários. Pode-se
ver que se tratava de uma população de feições
tipicamente mediterrâneas, não muito diferente
dos habitantes atuais da região.
O
Egito do período romano era cosmopolita e próspero.
Na época em que os primeiros retratos realistas desceram
às necrópoles, ainda era recente a derrota
de Cleópatra, a última soberana de uma dinastia
de origem helênica, a dos Ptolomeos, diante das legiões
romanas. Integrado ao Império dos Césares,
o Egito tornou-se uma província de economia sólida,
com fartas colheitas, em especial a de trigo, proporcionadas
pelas cheias anuais do Rio Nilo. O Porto de Alexandria exportava
artigos de luxo e produtos manufaturados, como papiro e
vidro. A mistura de costumes religiosos, de roupas e ornamentos
de diferentes origens, revelada pelos retratos dos mortos,
é uma lembrança do modo com que Roma administrava
seus domínios. "Os romanos foram sutis e estavam
mais interessados nas vantagens econômicas do que
na aculturação das províncias conquistadas",
diz a historiadora Eliza Torquatto Sales, da Universidade
de São Paulo. "Nunca subjugaram inteiramente a civilização
e a cultura do Egito, que permaneceram fortes."
A arte dessa época era um nítido retrato
dessa ambivalência. Enquanto a construção
de templos e palácios no tradicional estilo dos faraós
sobreviveu até o final do século II, muitas
estátuas de divindades e retratos passaram a ser
concebidos de acordo com a linguagem artística greco-romana.
E a mumificação também não escapou
da influência das novas culturas. A visão mais
positiva da vida após a morte atraiu os romanos assim
como já havia seduzido os gregos, que aderiram aos
hábitos religiosos do antigo Egito. "Foi um período
em que ocorreu uma democratização do culto
funerário", diz o egiptólogo Antonio Brancaglion.
"O processo de embalsamamento se tornou mais simples e barato,
e por isso existem muito mais múmias desse período
do que faraônicas." Com isso, atletas, soldados e
sacerdotes, cidadãos comuns gregos, romanos ou egípcios
também puderam ser mumificados.
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Fotos Metropolitan
Museum |
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Diversidade
técnica: cada
região
do país tinha
um estilo próprio
de retratar os mortos |
São dessas pessoas os retratos colados às
múmias, essenciais para o cumprimento de um ritual
também recém-adotado. Textos antigos contam
que as múmias permaneciam em casa ou em capelas por
meses, às vezes anos, para ser veneradas pelos parentes.
Era comum que os parentes mortos estivessem presentes às
ocasiões festivas da família. "Por isso elas
precisavam ter um rosto, já que eram vistas", diz
Brancaglion. A salada cultural é bem representada
na forma como eram sepultados os mortos. O objetivo da mumificação
– preservar o corpo para a
vida além-túmulo –
tinha sido herdado do Egito clássico. Muitas outras
coisas remetiam ao período faraônico. Múmias
retiradas da mesma escavação de Hawara, da
qual saíram muitas das preciosidades expostas no
Metropolitan, são decoradas com máscaras feitas
pelo processo chamado de cartonagem, o mesmo usado sobre
os cadáveres embalsamados dos faraós. Eram
produzidas pela aplicação sucessiva de camadas
de panos sobre papiro, cola e gesso. Embora diretamente
descendentes das peças usadas no tempo de Tutancâmon,
mostram que os mortos usavam penteados e adornos no estilo
greco-romano. Com tanta diversidade, a representação
fúnebre era, para os habitantes do Egito daquele
tempo, uma questão de escolha.
A pintura de retratos é uma dentre muitas formas
disponíveis para preparar o morto para a última
jornada. Os retratos que procuravam reproduzir com fidelidade
a fisionomia do mumificado eram feitos, provavelmente, por
artistas que o tinham conhecido em vida ou tiveram a oportunidade
de pintá-lo logo após a morte. O realismo
relacionava-se diretamente à tradição
da pintura greco-romana e tem pouco a ver com o Egito antigo.
"A valorização do sorriso típico da
arte jônica, os olhos grandes, cabelos encaracolados,
penteados em simetria e pregas de roupas bem ordenadas são
características da arte grega retomadas nesse período",
descreve Elza Ajzenberg, professora de estética e
história da arte na USP.
Não apenas o estilo, mas também a técnica
utilizada na maioria dos retratos é a mesma usada
pelos gregos em pinturas antigas dos séculos V e
IV a.C. Chamada de encáustica, a técnica é
similar à pintura a óleo e consiste na mistura
de cera com pigmentos de cor. Os artistas utilizavam esse
tipo de tinta diretamente no linho que servia para enrolar
o corpo do morto ou em placas de madeira que depois eram
fixadas na parte superior da múmia. Algumas eram
banhadas em ouro antes de ser pintadas e outras ostentavam
lâminas do metal para representar as jóias
e adornos que o falecido teria usado em vida. Também
se encontraram retratos pintados em têmpera, método
usado a partir do fim do século I. São facilmente
identificados pelas cores mais quentes e pelos traços
menos definidos.
As vedetes da mostra são as peças feitas
pela técnica da encáustica. Isso porque os
detalhes são tão minuciosos que a tornam quase
uma fotografia. "São retratos realistas de homens
e mulheres de todas as idades, com marcas expressivas de
pessoas que tinham a expectativa de chegar a uma vida além-túmulo",
observa Elza. Pesquisas concluíram que esses costumes
funerários continuaram comuns até o final
da era romana. As variações técnicas,
sobretudo entre a pintura encáustica e a têmpera,
correspondem a diferenças regionais. Contemplados
quase 2.000 anos depois, são
mais do que fragmentos espetaculares de uma civilização
original e surpreendente. São como uma espiada na
vida de pessoas comuns de um mundo há muito desaparecido
A morada eterna
Na época dos gregos
e dos romanos os cemitérios do Egito eram verdadeiras
cidades, que receberam corpos ininterruptamente por
mais de dez séculos. As imagens ao lado são
simulações modernas do que pode ter
sido a aparência da necrópole de Alexandria
em seu apogeu, no século I. Numa grande seção
desse cemitério, identificada há apenas
três anos, encontraram-se desde sepulturas rudimentares
até múmias ricamente decoradas em mausoléus
e capelas. Na superfície, a necrópole
lembrava um cemitério moderno. Mas a forma
mais comum era o sepultamento em nichos nas amplas
catacumbas.
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