Edição 1 643 -5/4/2000

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Luxo na taça

A Argentina entra no mapa dos grandes
produtores de vinho de alta qualidade

Raul Juste Lores, de Buenos Aires



Foto: Jorge Butsuen e Editorial Perfil

A Argentina, quinto produtor mundial de vinhos, contentava-se com o mercado interno e era uma espécie de patinho feio do setor. Não é mais. Vinhos caros feitos na Argentina, como Felipe Rutini, Norton, Catena Zapata e Finca Flichman, começam a ser reconhecidos não só no Brasil mas também nos exigentes mercados da Europa e dos Estados Unidos. O resultado no país é que vinícolas centenárias são disputadas por grandes grupos europeus e americanos e novos vinhedos plantados por investidores estrangeiros são direcionados para a exportação. Na Argentina toda refeição que se preze deve ser acompanhada por um bom tinto. Apesar de os primeiros vinhedos terem sido cultivados no final do século XVIII, pelos imigrantes espanhóis, só a partir de 1880 é que surgiram grandes vinícolas na província de Mendoza. Naquela época, quase 40% da população do país era formada por imigrantes recém-chegados da Itália e da Espanha, que sentiam falta da bebida mais típica de seu país de origem. Vários vinhedos ocuparam grandes territórios das províncias de Mendoza, La Rioja e Salta para a imensa demanda local por vinhos de mesa baratos, não exatamente os de melhor qualidade. Agora a qualidade é que conta.

Nos últimos cinco anos houve uma grande mudança. Primeiro veio a crise no consumo interno. Em 1970, consumiam-se 90 litros anuais por pessoa, hoje são 38 litros. Em seguida, cresceu a demanda pela qualidade. Em 1970, a quase totalidade da produção argentina era de vinhos de mesa baratos. Atualmente, 25% dos vinhos argentinos são considerados finos e visam à exportação. A ordem agora é conquistar os mercados externos.

 

 
Editorial Perfil
A qualidade das uvas atraiu
investidores
estrangeiros
que
trouxeram técnicas novas
de cultivo e fabricação dos
vinhos argentinos

"A demanda por vinhos finos aumentou muito no exterior ao mesmo tempo que caíram as vendas de vinhos de mesa", diz o enólogo Miguel Brascó, autor de mais de vinte livros e publicações sobre os vinhos argentinos. Junto com a demanda, subiam os preços dos hectares das tradicionais regiões produtoras onde a maioria dos terrenos já estão ocupados. Um hectare de vinhedos na Califórnia, no famoso Napa Valley (onde celebridades como Robin Williams, Carly Simon ou Francis Ford Coppola têm suas vinícolas), custa entre 160.000 e 250.000 dólares. Em Mendoza, cada hectare varia de 3.000 até o máximo de 100.000 dólares. Várias multinacionais de bebidas compraram tudo que viam pela frente no sopé da Cordilheira dos Andes. Hoje, dois terços das maiores vinícolas argentinas são estrangeiros.

A canadense Seagram comprou a San Telmo, a americana Allied Domecq encampou a vinícola Balbi enquanto a francesa Pernod Ricard adquiriu a Bodegas Etchart. Duas das mais tradicionais e famosas vinícolas do país também foram parar em mãos estrangeiras. O grupo português Sogrape comprou a Finca Flichman e os austríacos da Swarovski compraram a Bodegas Norton. A internacionalização dos vinhedos foi decisiva para o crescimento das vendas externas. Em 1993, as exportações de vinhos finos totalizavam 13 milhões de dólares. Em 1999, este número saltou para 105 milhões. As previsões para o final deste ano são de que as vendas ultrapassarão os 120 milhões de dólares.

 
Editorial Perfil
Plantadas aos pés da Cordilheira
dos Andes, as vinícolas argentinas
atraem 100 000 visitantes por ano
em
excursões chamadas de
"turismo de
degustação"

Com a renda em dólar gerada pelas vendas externas, a indústria do vinho fino floresceu e pode contratar a melhor tecnologia. Os melhores técnicos dos Estados Unidos e da França são levados pelas multinacionais para trabalhar na Argentina entre janeiro e março, quando a colheita está encerrada nas vinícolas de seus países de origem. O mais bem-sucedido produtor de vinhos finos da Argentina, Nicolás Catena, foi buscar na Califórnia os técnicos de que precisava para dar o salto de qualidade. Hoje, Catena tem vendas de 90 milhões de dólares nos mercados interno e externo, três vinícolas e 2.200 hectares cultivados. No início do ano, comprou outros 300 hectares na província de Rio Negro para fazer vinhos de zona fria. Não reclama da competição com os gigantes estrangeiros: "A exportação favorece a todos. Eles agregaram tecnologia, qualidade e estão ajudando a vincular a Argentina ao conceito de vinho fino em todo o mundo. Fizeram-nos, na verdade, um grande favor".

 

Gaúchos no sertão

Raul Junior
Vale do Rio São Francisco: cinco safras em dois anos

A Serra Gaúcha é o local de excelência para a produção de vinho no país isso desde que as grandes levas de imigrantes italianos chegaram ao Brasil, no final do século XIX. As vinícolas da região do Vale dos Vinhedos já levaram prêmios de concursos do mundo inteiro. Agora, esses produtores descobriram um segundo pólo de produção: o Vale do São Francisco, o oásis localizado no sertão, entre a Bahia e Pernambuco. Lá, a irrigação feita com as águas do Rio São Francisco garante a colheita de cinco safras em dois anos. A abundância despertou o interesse de conceituadas vinícolas gaúchas que estão trocando o frio do Sul pelo calor sufocante do Nordeste. Em princípio, a mudança pode parecer estranha. A grande maioria dos bons vinhos do mundo vem das zonas temperadas, onde é raro o termômetro ultrapassar os 25 graus Celsius e o solo é rochoso. Mas a idéia dos produtores de vinho gaúchos é repetir o mesmo sucesso dos premiados vinhos da Califórnia. Como chove pouco na região, a pouca umidade favorece a produção de um tipo de vinho mais leve e jovem com uvas mais verdes do que o habitual. As primeiras produções vindas da região foram um sucesso. A vinícola Miolo, a mais badalada do momento, vendeu toda a produção de 25.000 garrafas. A experiência foi tão boa que a vinícola está lançando uma série no mercado com vinho sertanejo. Resta conferir.