Luxo na taça
A Argentina entra no mapa
dos grandes
produtores de vinho
de alta qualidade
Raul
Juste Lores, de Buenos Aires
Foto: Jorge
Butsuen e Editorial Perfil
 |
A Argentina, quinto
produtor mundial de vinhos, contentava-se com o mercado
interno e era uma espécie de patinho feio do setor.
Não é mais. Vinhos caros feitos na Argentina,
como Felipe Rutini, Norton, Catena Zapata e Finca Flichman,
começam a ser reconhecidos não só
no Brasil mas também nos exigentes mercados da
Europa e dos Estados Unidos. O resultado no país
é que vinícolas centenárias são
disputadas por grandes grupos europeus e americanos e
novos vinhedos plantados por investidores estrangeiros
são direcionados para a exportação.
Na Argentina toda refeição que se preze
deve ser acompanhada por um bom tinto. Apesar de os primeiros
vinhedos terem sido cultivados no final do século
XVIII, pelos imigrantes espanhóis, só a
partir de 1880 é que surgiram grandes vinícolas
na província de Mendoza. Naquela época,
quase 40% da população do país era
formada por imigrantes recém-chegados da Itália
e da Espanha, que sentiam falta da bebida mais típica
de seu país de origem. Vários vinhedos ocuparam
grandes territórios das províncias de Mendoza,
La Rioja e Salta para a imensa demanda local por vinhos
de mesa baratos, não exatamente os de melhor qualidade.
Agora a qualidade é que conta.
Nos últimos
cinco anos houve uma grande mudança. Primeiro veio
a crise no consumo interno. Em 1970, consumiam-se 90 litros
anuais por pessoa, hoje são 38 litros. Em seguida,
cresceu a demanda pela qualidade. Em 1970, a quase totalidade
da produção argentina era de vinhos de mesa
baratos. Atualmente, 25% dos vinhos argentinos são
considerados finos e visam à exportação.
A ordem agora é conquistar os mercados externos.
Editorial Perfil
 |
A qualidade
das uvas
atraiu
investidores estrangeiros
que trouxeram
técnicas novas
de cultivo
e fabricação
dos
vinhos argentinos |
"A demanda por vinhos
finos aumentou muito no exterior ao mesmo tempo que caíram
as vendas de vinhos de mesa", diz o enólogo Miguel
Brascó, autor de mais de vinte livros e publicações
sobre os vinhos argentinos. Junto com a demanda, subiam
os preços dos hectares das tradicionais regiões
produtoras – onde
a maioria dos terrenos já estão ocupados.
Um hectare de vinhedos na Califórnia, no famoso Napa
Valley (onde celebridades como Robin Williams, Carly Simon
ou Francis Ford Coppola têm suas vinícolas),
custa entre 160.000 e 250.000 dólares. Em Mendoza,
cada hectare varia de 3.000 até o máximo de
100.000 dólares. Várias multinacionais de
bebidas compraram tudo que viam pela frente no sopé
da Cordilheira dos Andes. Hoje, dois terços das maiores
vinícolas argentinas são estrangeiros.
A canadense Seagram
comprou a San Telmo, a americana Allied Domecq encampou
a vinícola Balbi enquanto a francesa Pernod Ricard
adquiriu a Bodegas Etchart. Duas das mais tradicionais e
famosas vinícolas do país também foram
parar em mãos estrangeiras. O grupo português
Sogrape comprou a Finca Flichman e os austríacos
da Swarovski compraram a Bodegas Norton. A internacionalização
dos vinhedos foi decisiva para o crescimento das vendas
externas. Em 1993, as exportações de vinhos
finos totalizavam 13 milhões de dólares. Em
1999, este número saltou para 105 milhões.
As previsões para o final deste ano são de
que as vendas ultrapassarão os 120 milhões
de dólares.
Editorial Perfil
 |
Plantadas
aos pés da
Cordilheira
dos Andes, as vinícolas argentinas
atraem 100 000 visitantes por ano
em excursões
chamadas de
"turismo de degustação"
|
Com a renda em dólar
gerada pelas vendas externas, a indústria do vinho
fino floresceu e pode contratar a melhor tecnologia. Os
melhores técnicos dos Estados Unidos e da França
são levados pelas multinacionais para trabalhar na
Argentina entre janeiro e março, quando a colheita
está encerrada nas vinícolas de seus países
de origem. O mais bem-sucedido produtor de vinhos finos
da Argentina, Nicolás Catena, foi buscar na Califórnia
os técnicos de que precisava para dar o salto de
qualidade. Hoje, Catena tem vendas de 90 milhões
de dólares nos mercados interno e externo, três
vinícolas e 2.200 hectares cultivados. No início
do ano, comprou outros 300 hectares na província
de Rio Negro para fazer vinhos de zona fria. Não
reclama da competição com os gigantes estrangeiros:
"A exportação favorece a todos. Eles agregaram
tecnologia, qualidade e estão ajudando a vincular
a Argentina ao conceito de vinho fino em todo o mundo. Fizeram-nos,
na verdade, um grande favor".
Gaúchos
no sertão
Raul Junior
 |
| Vale
do Rio São Francisco: cinco safras em
dois anos
|
A Serra Gaúcha é
o local de excelência para a produção
de vinho no país –
isso desde que as grandes levas de imigrantes italianos
chegaram ao Brasil, no final do século XIX.
As vinícolas da região do Vale dos
Vinhedos já levaram prêmios de concursos
do mundo inteiro. Agora, esses produtores descobriram
um segundo pólo de produção:
o Vale do São Francisco, o oásis localizado
no sertão, entre a Bahia e Pernambuco. Lá,
a irrigação feita com as águas
do Rio São Francisco garante a colheita de
cinco safras em dois anos. A abundância despertou
o interesse de conceituadas vinícolas gaúchas
que estão trocando o frio do Sul pelo calor
sufocante do Nordeste. Em princípio, a mudança
pode parecer estranha. A grande maioria dos bons
vinhos do mundo vem das zonas temperadas, onde é
raro o termômetro ultrapassar os 25 graus
Celsius e o solo é rochoso. Mas a idéia
dos produtores de vinho gaúchos é
repetir o mesmo sucesso dos premiados vinhos da
Califórnia. Como chove pouco na região,
a pouca umidade favorece a produção
de um tipo de vinho mais leve e jovem –
com uvas mais verdes do que o habitual. As primeiras
produções vindas da região
foram um sucesso. A vinícola Miolo, a mais
badalada do momento, vendeu toda a produção
de 25.000 garrafas. A experiência foi tão
boa que a vinícola está lançando
uma série no mercado com vinho sertanejo.
Resta conferir.
|