Edição 1 643 -5/4/2000

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A estrela brilha

Mercedes-Benz redesenha o Classe C
para brigar com a Audi e a BMW

Klester Cavalcanti

 

Reuters
Faróis em forma de oito: reforma de
1,2 bilhão de dólares


De tempo em tempo o quartel-general da Mercedes-Benz em Sindelfingen, na Alemanha, é chacoalhado por uma agitação surda. É a senha de que um novo clássico dos automóveis de luxo está prestes a ganhar as ruas e rodovias do mundo. Foi exatamente isso que aconteceu há duas semanas. Numa cerimônia pomposa, logo depois de a violinista cingapuriana Vanessa Mae tocar uma peça inspirada em Prokofiev especialmente composta para a ocasião, os alemães exibiram sua grande aposta: o novo Classe C, um sedã que custou à fabrica quatro anos de pesquisas e 1,2 bilhão de dólares. Remodelado de pára-choque a pára-choque, ele pretende ser a resposta definitiva às línguas ferinas que haviam apelidado a versão anterior de "Mercedes de pobre", por causa de seu desenho sem charme e antiquado. Com esse lançamento, a marca da estrela quer deixar claro que está disposta a brigar palmo a palmo com as arqui-rivais Audi e BMW, que teimam em roubar-lhe nacos do mercado de carros de luxo. A empresa espera despejar, entre maio e dezembro, 160.000 desses carrões no mundo. O Brasil está nesses planos, já que o novo Classe C chega por aqui em agosto.

Cercado de mistérios, o Classe C ainda não tem preço definido. Estima-se que o C-320 custará cerca de 90.000 dólares, o valor de um apartamento médio em São Paulo. É caro, mas já nasce como um mito e pretensões a objeto de desejo entre os entusiastas da marca. "Esse carro é mais um sinal de que o nome Mercedes-Benz já diz tudo", observa o consultor de automóveis Péricles Malheiros, de São Paulo. É muito mais do que a simples renovação do modelo anterior, que custava cerca de 50.000 dólares. O Classe C é um carro novo, totalmente redesenhado. Os faróis foram inspirados no modelo circular que equipa o Classe E, uma linha mais sofisticada, com a diferença de que as duas esferas, num sinal de arrojo, se unem e formam um oito irregular, num formato inédito. O desenho do veículo é arredondado, com a capota semelhante à dos cupês, o vidro traseiro rebaixado e a traseira alta, características das máquinas mais esportivas. Por dentro, o acabamento é de carro de milionário: revestimento de couro e madeira sobre estruturas levíssimas de alumínio.

O bólido já nasce com o título de melhor aerodinâmica do mundo. Empurrado por potente motor de 218 cavalos, o Classe C vai de zero a 100 quilômetros por hora em apenas 9,3 segundos e chega à velocidade de 230 quilômetros por hora sem ratear. Os sistemas de segurança trazem mecanismos até então exclusivos dos modelos maiores e mais caros, como as bolsas infláveis que protegem o motorista e o passageiro da frente dos estilhaços das janelas em caso de acidente. O carro tem ainda um limitador eletrônico de velocidade, sistema de climatização interna automático e o inovador Linguatronic, mecanismo que permite ao motorista controlar, apenas com o comando da voz, o aparelho de som e os equipamentos de telefonia. Um arraso na concorrência.

Os rivais do novo Classe C estão claramente marcados. A Mercedes o projetou especialmente para golpear na briga com o BMW Série 3 e o Audi A4. Mais modernos e com desenho arrojado, os dois modelos engoliram fatias substanciais do mercado de veículos na Europa e no resto do mundo, onde o antigo Classe C reinava com conforto. Lançado em 1993, esse sedã intermediário foi um sucesso e vendeu 1,6 milhão de unidades. Vítima da teimosia e do preciosismo da marca, acabou ficando melancolicamente envelhecido em relação aos demais. Seus faróis quadradões, a traseira triangular e o desenho excessivamente retilíneo o tornavam o patinho feio da família. Um pecado grave até mesmo por aqui, onde custava quase 100.000 reais e estava muito aquém da concorrência. No que diz respeito ao Brasil, a estratégia da marca alemã provavelmente será trazer os modelos mais simples, com motores menos potentes como o C200 e o C180 e uma quantidade menor de opcionais. O Classe C é oferecido em sete motorizações de diferentes desempenhos e três versões de acabamento. A sóbria Classic é o padrão, a Elegance é mais sofisticada e a Avantgarde segue uma linha esportiva. Nos três casos, o requinte é enorme e o apelo mítico da marca mais presente do que nunca.

 

O mínimo e o máximo

Divulgação
Smart: arrojo para superar
o fracasso

Com o novo Classe C saindo da linha de montagem, a Mercedes-Benz começa a se dedicar às próximas estrelas. Entre os modelos prometidos para os próximos dois anos está um par de automóveis em que o desenho inusitado e o estilo marcante falam mais alto. O primeiro deles é a limusine Maybach, um carrão espetacular, com quase 6 metros de comprimento, apresentado em 1997 no Salão de Tóquio. Tem um perfil arrojado inspirado em formas clássicas e leva o nome de um lendário carro de luxo produzido nos anos 30, batizado em homenagem ao projetista Wilhelm Maybach. É uma aposta da montadora na categoria de carros de alto luxo, dominada hoje pelos Rolls-Royce e Jaguar. O outro é uma versão incrementada do Smart, um pequeno automóvel produzido em parceria com a fabricante de relógios Swatch desde 1998. Moderno e jovial, parece um carrinho de brinquedo com suas partes de plástico e alumínio. Com ele, os alemães pretendem revitalizar a marca em que os modelos iniciais não fizeram muito sucesso.

 

Divulgação
Maybach: limusine por
250 000 dólares

O Maybach é um exagero em todos os sentidos. Tem quase 2 metros de largura e marcará a partir de 2001 a volta da Mercedes à produção de limusines, que a fábrica não monta há quase vinte anos. Em seu interior espaçoso carrega videocassete, três telefones, computador, frigobar e sistema de navegação por satélite. Os bancos traseiros possuem apoio para as pernas e ajuste elétrico iguais aos da classe executiva dos aviões. A carroceria é de fibra de magnésio e alumínio e, em vez de capota, exibe um imenso teto de vidro. Tudo por estratosféricos 250.000 dólares. Já o minúsculo Smart, com apenas 3 metros de comprimento, é extremamente leve, pesando 700 quilos. É um pouco maior que o antecessor, que tem 2,5 metros de comprimento, motor de 0,6 litro, 54 cavalos de potência e preço de 8.000 dólares. Com a nova versão, a Mercedes pretende apagar a imagem de fragilidade e baixa potência do carro. Para isso, caprichou no design do roadster, com pneus largos e rodas de liga leve. Só faltou a estrela no capô. O que até certo ponto é bom para quem compra, já que barato não rima com Mercedes.

 

Saiba mais
Da internet
  www.mercedes-benz.com