Edição 1 643 -5/4/2000

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Vagas para todos

Maior oferta de empregos faz crescer procura
pelos cursos que formam professores

Eduardo Nunomura

Ricardo Benichio
Aula de licenciatura da USP: futuros professores

O magistério, profissão que viveu dias de pouco brilho nas últimas duas décadas, está passando por uma reviravolta. Em quatro anos, o número de inscritos nos vestibulares para as faculdades que formam professores triplicou em relação à média de outros cursos, incluindo os de engenharia, medicina e direito. Só nos exames da Universidade Estadual de Campinas, a quantidade de candidatos para o curso de licenciatura em química e física cresceu sete vezes. Na Universidade de São Paulo, a média habitual de 4.000 vestibulandos de letras saltou para quase 6.000. O fenômeno tem explicação simples: enquanto tantas profissões vivem o fantasma do desemprego, a procura por docentes só aumenta. Se o ensino médio, o antigo colegial, continuar crescendo os mesmos 11% dos últimos cinco anos, será preciso contratar outros 150.000 professores e abrir 70.000 novas salas de aula na primeira metade desta década. A demanda será maior para as disciplinas de ciências e matemática, exatamente aquelas em que é maior a escassez de mão-de-obra.

A procura pelo magistério não é percebida apenas entre os vestibulandos. Com tantas vagas disponíveis, o ensino médio se tornou uma boa oportunidade de renda complementar para engenheiros, economistas, médicos e arquitetos. Ou mesmo uma nova carreira. Como já possuem um diploma universitário, eles só precisam freqüentar um curso complementar de curta duração para poder lecionar. "Espero que o magistério seja minha principal fonte de renda", diz o engenheiro Luís Cláudio Alves Pedreti, de 33 anos, aluno do curso de formação pedagógica no Centro Universitário Augusto Motta, no Rio de Janeiro. "Mas não é só salário. É uma opção vocacional." Algumas características tornam atraente essa carreira, além da fartura de vagas. Uma delas é a estabilidade no emprego se o professor for contratado como funcionário público. Outra é uma jornada de trabalho menor que a da maioria das profissões. Os salários não são altos, mas estão longe de desprezíveis. Um professor da rede pública paulista recebe 1.250 reais por 24 horas semanais. É mais que o dobro do salário de um bancário em início de carreira.


As diferenças salariais são grandes de Estado para Estado. Em contraste com o Distrito Federal, que paga 1.400 reais por jornada de quarenta horas semanais, Pernambuco remunera com apenas 560 reais. A expansão do sistema educacional do país está ocorrendo sobretudo na rede pública. Nas escolas da rede particular, que pagam salários melhores, o número de vagas disponíveis é bem menor. No nível médio, por exemplo, as matrículas cresceram 67,5% na rede pública e menos de 20% na particular nos últimos seis anos. O magistério brasileiro está passando por grandes transformações. Há quatro anos, o Ministério da Educação determinou que o colegial não é suficiente para qualificar um professor. É preciso passar pela universidade. Isso significa que 850.000 professores do ensino fundamental e médio serão obrigados a apresentar diplomas universitários até 2007. Apenas seis de cada dez professores brasileiros freqüentaram a faculdade. Mais de 80.000 deles só estudaram até a 8ª série, o antigo curso ginasial. Desses, 32.000, que trabalham sobretudo em escolas rurais do Norte e do Nordeste, nem sequer concluíram o ensino fundamental.