Vagas para todos
Maior oferta de empregos faz crescer procura
pelos cursos que formam professores
Eduardo Nunomura
Ricardo Benichio
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| Aula de licenciatura
da USP: futuros professores |
O magistério, profissão que
viveu dias de pouco brilho nas últimas duas décadas,
está passando por uma reviravolta. Em quatro anos,
o número de inscritos nos vestibulares para as faculdades
que formam professores triplicou em relação
à média de outros cursos, incluindo os de
engenharia, medicina e direito. Só nos exames da
Universidade Estadual de Campinas, a quantidade de candidatos
para o curso de licenciatura em química e física
cresceu sete vezes. Na Universidade de São Paulo,
a média habitual de 4.000
vestibulandos de letras saltou para quase 6.000.
O fenômeno tem explicação simples: enquanto
tantas profissões vivem o fantasma do desemprego,
a procura por docentes só aumenta. Se o ensino médio,
o antigo colegial, continuar crescendo os mesmos 11% dos
últimos cinco anos, será preciso contratar
outros 150.000 professores e
abrir 70.000 novas salas de aula
na primeira metade desta década. A demanda será
maior para as disciplinas de ciências e matemática,
exatamente aquelas em que é maior a escassez de mão-de-obra.
A procura pelo magistério não
é percebida apenas entre os vestibulandos. Com tantas
vagas disponíveis, o ensino médio se tornou
uma boa oportunidade de renda complementar para engenheiros,
economistas, médicos e arquitetos. Ou mesmo uma nova
carreira. Como já possuem um diploma universitário,
eles só precisam freqüentar um curso complementar
de curta duração para poder lecionar. "Espero
que o magistério seja minha principal fonte de renda",
diz o engenheiro Luís Cláudio Alves Pedreti,
de 33 anos, aluno do curso de formação pedagógica
no Centro Universitário Augusto Motta, no Rio de
Janeiro. "Mas não é só salário.
É uma opção vocacional." Algumas características
tornam atraente essa carreira, além da fartura de
vagas. Uma delas é a estabilidade no emprego se o
professor for contratado como funcionário público.
Outra é uma jornada de trabalho menor que a da maioria
das profissões. Os salários não são
altos, mas estão longe de desprezíveis. Um
professor da rede pública paulista recebe 1.250
reais por 24 horas semanais. É mais que o dobro do
salário de um bancário em início de
carreira.
As diferenças salariais são grandes de Estado
para Estado. Em contraste com o Distrito Federal, que paga
1.400 reais por jornada de quarenta
horas semanais, Pernambuco remunera com apenas 560 reais.
A expansão do sistema educacional do país
está ocorrendo sobretudo na rede pública.
Nas escolas da rede particular, que pagam salários
melhores, o número de vagas disponíveis é
bem menor. No nível médio, por exemplo, as
matrículas cresceram 67,5% na rede pública
e menos de 20% na particular nos últimos seis anos.
O magistério brasileiro está passando por
grandes transformações. Há quatro anos,
o Ministério da Educação determinou
que o colegial não é suficiente para qualificar
um professor. É preciso passar pela universidade.
Isso significa que 850.000 professores
do ensino fundamental e médio serão obrigados
a apresentar diplomas universitários até 2007.
Apenas seis de cada dez professores brasileiros freqüentaram
a faculdade. Mais de 80.000 deles
só estudaram até a 8ª série, o
antigo curso ginasial. Desses, 32.000,
que trabalham sobretudo em escolas rurais do Norte e do
Nordeste, nem sequer concluíram o ensino fundamental.