Ditadura
Até golpe, Maluf?
Só faltava essa. Ex-governador é
acusado de
tentar melar a disputa presidencial em 1985
Rodrigo Vergara
Tude Munhoz
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| Paulo Maluf (na campanha
sucessória de Figueiredo): "Vou processar
o mentiroso" |
Os amigos mais próximos de Paulo Maluf já
apostam para saber de onde virá a próxima
pedrada contra a cabeça do ex-prefeito, ex-governador
e eterno candidato a presidente. Primeiro foram as acusações
deflagradas pela ex-primeira-dama Nicéa Pitta, que
conectam Maluf a um esquema de corrupção na
administração municipal de Celso Pitta. Como
a candidatura do atual prefeito foi invenção
malufista e o nome de seu filho, Flávio Maluf, é
citado como autor de estranhos pedidos à prefeitura,
a fama de político competente saiu machucada. Na
semana passada, Maluf recebeu outra pedrada. Em entrevista
a um programa de televisão, o general da reserva
Newton Cruz acusou Maluf de tê-lo convidado a participar
de um golpe de Estado. O convite –
se é que se pode usar a palavra para uma proposta
dessas – teria sido feito no
final de 1984 ou começo de 1985, quando Maluf era
candidato a presidente mas sua chance de vencer Tancredo
Neves no colégio eleitoral tendia a zero. O ataque
atingiu em cheio a imagem de Maluf como homem persistente,
que disputou e perdeu várias eleições
sem esmorecer ou atacar as regras da disputa.
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| Cruz: "Fui convidado
a dar golpe" |
Cruz, 75 anos, ex-homem forte do Serviço Nacional
de Informações, narrou o episódio no
programa Roda Viva, da TV Cultura. O general respondia
a perguntas sobre o caso Riocentro, aquele atentado fracassado
em que dois militares planejavam explodir uma casa de shows
no Rio de Janeiro, em 1981. Cruz não sabe precisar
a data do encontro com Maluf. Assegura que teria ocorrido
entre 11 de agosto de 1984, quando Maluf venceu Mário
Andreazza na convenção do PDS, e 15 de janeiro
de 1985, data de sua derrota para Tancredo no colégio
eleitoral. O general diz que estava em casa, com amigos
e parentes, quando recebeu uma visita inesperada de Maluf.
Sustenta que todos os presentes viram a chegada do político.
No relato do militar, o então candidato à
Presidência o convidou para liderar um golpe que impediria
a posse de Tancredo caso o adversário vencesse as
eleições indiretas. Em troca do apoio, Maluf
oferecia a ele a chefia do SNI em seu futuro governo. "Ele
disse que Tancredo estava doente, que podia morrer a qualquer
momento e, se morresse, seria o caos." O ex-prefeito nega
a acusação com veemência e acusa o general
de tê-lo envolvido numa mentira como forma de desviar
a atenção sobre o caso Riocentro. "A história
é uma mentira, e, se ele disse que tem testemunhas,
são falsas. Vou processá-lo."
Vai ser difícil saber quem está mentindo
e quem está falando a verdade, já que é
praticamente impossível checar a história.
Primeiro porque, se o encontro existiu (Cruz diz que sim,
Maluf diz que não), ocorreu a dois, segundo o general.
E sem grampo, assegura. Ninguém ouviu, pois, o que
conversaram. Maluf foi prefeito biônico de São
Paulo e governador do Estado e destacava-se na Arena e no
PDS, partidos que deram sustentação ao regime
de 1964. De acordo com os marqueteiros que observam o sobe-e-desce
dos políticos, essa nova denúncia pode estar
tornando Maluf cada vez mais parecido com outro político
paulista, Orestes Quércia. Não por uma eventual
semelhança nos métodos políticos, mas
em razão do desgaste eleitoral produzido pelo apedrejamento.
Quércia – quem não
se lembra? – ficou atrás
até de Enéas na corrida presidencial de 1994.
Para Maluf, se já andava difícil emergir do
mar de lama despejado por Nicéa, a acusação
de golpista pode afastá-lo da vida pública
por um tempo. Ou para sempre.
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