Edição 1 643 -5/4/2000

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Ditadura

Até golpe, Maluf?

Só faltava essa. Ex-governador é acusado de
tentar melar a disputa presidencial em 1985

Rodrigo Vergara

 
Tude Munhoz
Paulo Maluf (na campanha sucessória de Figueiredo): "Vou processar o mentiroso"

Os amigos mais próximos de Paulo Maluf já apostam para saber de onde virá a próxima pedrada contra a cabeça do ex-prefeito, ex-governador e eterno candidato a presidente. Primeiro foram as acusações deflagradas pela ex-primeira-dama Nicéa Pitta, que conectam Maluf a um esquema de corrupção na administração municipal de Celso Pitta. Como a candidatura do atual prefeito foi invenção malufista e o nome de seu filho, Flávio Maluf, é citado como autor de estranhos pedidos à prefeitura, a fama de político competente saiu machucada. Na semana passada, Maluf recebeu outra pedrada. Em entrevista a um programa de televisão, o general da reserva Newton Cruz acusou Maluf de tê-lo convidado a participar de um golpe de Estado. O convite se é que se pode usar a palavra para uma proposta dessas teria sido feito no final de 1984 ou começo de 1985, quando Maluf era candidato a presidente mas sua chance de vencer Tancredo Neves no colégio eleitoral tendia a zero. O ataque atingiu em cheio a imagem de Maluf como homem persistente, que disputou e perdeu várias eleições sem esmorecer ou atacar as regras da disputa.

 

Cruz: "Fui convidado a dar golpe"

Cruz, 75 anos, ex-homem forte do Serviço Nacional de Informações, narrou o episódio no programa Roda Viva, da TV Cultura. O general respondia a perguntas sobre o caso Riocentro, aquele atentado fracassado em que dois militares planejavam explodir uma casa de shows no Rio de Janeiro, em 1981. Cruz não sabe precisar a data do encontro com Maluf. Assegura que teria ocorrido entre 11 de agosto de 1984, quando Maluf venceu Mário Andreazza na convenção do PDS, e 15 de janeiro de 1985, data de sua derrota para Tancredo no colégio eleitoral. O general diz que estava em casa, com amigos e parentes, quando recebeu uma visita inesperada de Maluf. Sustenta que todos os presentes viram a chegada do político. No relato do militar, o então candidato à Presidência o convidou para liderar um golpe que impediria a posse de Tancredo caso o adversário vencesse as eleições indiretas. Em troca do apoio, Maluf oferecia a ele a chefia do SNI em seu futuro governo. "Ele disse que Tancredo estava doente, que podia morrer a qualquer momento e, se morresse, seria o caos." O ex-prefeito nega a acusação com veemência e acusa o general de tê-lo envolvido numa mentira como forma de desviar a atenção sobre o caso Riocentro. "A história é uma mentira, e, se ele disse que tem testemunhas, são falsas. Vou processá-lo."

Vai ser difícil saber quem está mentindo e quem está falando a verdade, já que é praticamente impossível checar a história. Primeiro porque, se o encontro existiu (Cruz diz que sim, Maluf diz que não), ocorreu a dois, segundo o general. E sem grampo, assegura. Ninguém ouviu, pois, o que conversaram. Maluf foi prefeito biônico de São Paulo e governador do Estado e destacava-se na Arena e no PDS, partidos que deram sustentação ao regime de 1964. De acordo com os marqueteiros que observam o sobe-e-desce dos políticos, essa nova denúncia pode estar tornando Maluf cada vez mais parecido com outro político paulista, Orestes Quércia. Não por uma eventual semelhança nos métodos políticos, mas em razão do desgaste eleitoral produzido pelo apedrejamento. Quércia quem não se lembra? ficou atrás até de Enéas na corrida presidencial de 1994. Para Maluf, se já andava difícil emergir do mar de lama despejado por Nicéa, a acusação de golpista pode afastá-lo da vida pública por um tempo. Ou para sempre.

 
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