O fim do português
Lingüista
americano diz que o Brasil está destinado
a trocar seu idioma pelo portunhol
Eduardo
Salgado
Robert Benzie
"O intercâmbio
comercial na
América do Sul
provocará a fusão
das línguas do continente"
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O americano Steven Roger
Fischer fala fluentemente inglês, francês, espanhol
e alemão. Quebra o galho em cinco outras línguas
e consegue ler em cerca de oitenta idiomas. O que tornou
mundialmente famoso esse pesquisador de 52 anos, contudo,
foi a solução de um mistério que durou
dois séculos. Até o começo dos anos
90, ninguém fazia a menor idéia do significado
das inscrições da Ilha de Páscoa. Depois
de anos de dedicação, Fischer matou a charada
e tornou-se uma estrela de primeira grandeza entre os lingüistas.
Doutor pela Universidade da Califórnia na década
de 70, ele vive atualmente na Nova Zelândia, onde
dirige o Instituto de Línguas e Literatura Polinésias.
O pesquisador, que nunca esteve no Brasil mas se diz apaixonado
pela riqueza cultural do país, arrisca uma hipótese
ousada para o futuro da língua portuguesa: ela vai
desaparecer e seu lugar será ocupado pelo portunhol.
Para Fischer, não há o que lamentar. A língua,
como os seres vivos, está em contínua transformação
e processo de enriquecimento, diz ele em entrevista a VEJA.
Veja A língua
falada pelos brasileiros irá mesmo desaparecer?
Fischer
Sim. Em 300 anos,
o Brasil estará falando um idioma muito diferente
do atual. Devido à enorme influência do espanhol,
é bastante provável que surja uma espécie
de portunhol.
Veja Por
quê?
Fischer
Faz parte da dinâmica das línguas. O Brasil
está cercado de países que falam espanhol.
À medida que as trocas comerciais e os contatos aumentarem,
haverá muita pressão. Ao mesmo tempo, argentinos,
colombianos, chilenos e uruguaios também irão
passar a usar expressões do português brasileiro.
Esses dois idiomas são muito parecidos, o que contribui
ainda mais para que haja uma fusão.
Veja O Brasil
tem cerca de 40% da população latino-americana,
um poder econômico sem similar e mais exporta do que
importa mercadorias culturais. Além disso, vive cercado
de países de língua castelhana há 500
anos. Por que justamente o português daria lugar ao
portunhol?
Fischer
O português não será substituído
por outro idioma. Os brasileiros não irão
falar espanhol. O que irá acontecer é a mistura
das duas línguas. Numa escala menor, é o que
deve acontecer com o inglês também. Sem dúvida,
o idioma que mais influencia o inglês hoje é
o espanhol. Isso já pode ser notado até nos
filmes de Hollywood. O processo não tem nada a ver
com o peso das economias. Há muito menos pessoas
aprendendo português do que espanhol. Essa mescla
entre o português e o espanhol não é
necessariamente ruim.
Veja Apenas
o português desaparecerá?
Fischer
Falam-se entre 4.000 e 6.800 idiomas na Terra. Haverá
menos de 1.000 em 100 anos. Em 300 anos, não mais
do que 24. Inglês, mandarim e espanhol serão
as mais faladas. A maioria das pessoas será bilíngüe
e dominará um desses três idiomas. Hebraico
e árabe também sobreviverão em vista
da importância religiosa, como aconteceu com o latim.
Inglês certamente será a língua franca.
Veja Que outras
línguas vão acabar?
Fischer
Milhares de idiomas serão substituídos.
É bastante provável que os escandinavos e
os holandeses acabem adotando o inglês. No passado,
as sociedades e os idiomas estavam mais isolados por barreiras
comerciais e geográficas. Os tratados de livre comércio
e o turismo mudaram isso, bem como as grandes ondas migratórias.
É o preço da globalização. Hoje,
uma língua que não seja falada por 20.000
pessoas está fadada a desaparecer. No futuro, esse
número irá aumentar. Os idiomas seguem o rio
da História, sempre fluindo, sempre mudando.
Veja O senhor
acha isso bom?
Fischer
Claro que sim. Perderemos em termos de diversidade, mas
temos muito a ganhar. A língua franca estimula a
comunicação, a cooperação e
o comércio. Fará com que a humanidade se entenda
melhor.
Veja O Brasil
deveria seguir a França e tomar medidas para evitar
o uso de palavras estrangeiras?
Fischer
Não. Idiomas não são pedras, mas esponjas.
Não se deve tentar impedir o enriquecimento do idioma.
É assim que as línguas sobrevivem, mudando
continuamente. As transformações sofridas
pelo português brasileiro são uma prova da
sua força, não da sua fraqueza. No decorrer
do tempo, as línguas que não inovaram foram
substituídas por outras. Se você pegar as 10.000
palavras mais usadas em inglês, por exemplo, verá
que 32% delas têm origem anglo-saxã e 45% francesa,
sem falar no latim. Jazz e boogie-woogie, por exemplo, são
termos de origem africana.
Veja Por
que o inglês predominou?
Fischer
O século XX foi uma gangorra. À medida
que o peso do alemão e do francês diminuía,
aumentava a influência do inglês. Milhares de
pessoas começam a estudar inglês todos os dias.
Nunca na história da humanidade um idioma teve tamanha
importância. As pessoas que ocupam os cargos mais
bem remunerados falam fluentemente ou têm um conhecimento
básico do idioma. Se você contar os bilíngües,
há mais gente falando inglês do que mandarim.
Com a globalização e a internet, esse fenômeno
irá aumentar. Aprenda inglês e prospere, ou
ignore e padeça. No entanto, vale lembrar que línguas
internacionais não são uma novidade. A primeira
a ser documentada foi o dialeto koine, oriundo da região
de Atenas, três séculos antes do nascimento
de Cristo.
Veja É
necessário aprender inglês ou dá para
esperar que as máquinas de tradução
sejam aperfeiçoadas?
Fischer
Depende das necessidades. Os programas de tradução
que existem já são muito bons. No futuro próximo,
devem melhorar ainda mais. Provavelmente, em pouco tempo
será possível escrever e-mails em português
e vê-los traduzidos para qualquer idioma imediatamente.
Mas, se você quer viajar pelo mundo, fechar negócios
e se comunicar sem barreiras, a saída é mesmo
aprender.
Veja A diferença
entre o português do Brasil e o de Portugal é
maior do que a existente entre o inglês dos Estados
Unidos e o da Inglaterra?
Fischer
Sim. O português do Brasil e o de Portugal
são ainda a mesma língua, mas com grandes
diferenças. Se essa tendência se acentuar,
veremos a separação dos dois idiomas. Os brasileiros
não conseguirão mais entender os portugueses.
O caso do inglês é diferente. A influência
dos Estados Unidos é muitas vezes maior. Não
são apenas programas de televisão, mas milhares
de filmes e músicas desde o final da II Guerra. O
inglês americano e o britânico estão
se aproximando cada vez mais.
Veja Os portugueses
falam melhor do que os brasileiros?
Fischer
Não. Nos últimos 500 anos, o português
usado no Brasil desenvolveu-se de forma distinta do idioma
falado em Portugal. Se os portugueses falam mais de acordo
com a gramática é porque o português
europeu sempre foi tido como o ideal. Isso não quer
dizer que os brasileiros falem errado. Falam de acordo com
uma gramática brasileira.
Veja Por
que os brasileiros entendem melhor o espanhol do que os
argentinos o português?
Fischer
O português tem a maior parte dos sons do espanhol,
mas desenvolveu alguns que são únicos. No
português, por exemplo, existem sons anasalados, e
o final das palavras não é pronunciado por
completo. Quem fala espanhol fica completamente perdido
com essas peculiaridades. Há um caso semelhante na
Escandinávia. Os dinamarqueses entendem perfeitamente
o sueco, mas os suecos suam para entender o dinamarquês.
Veja O governo
brasileiro deveria tomar medidas para proteger os idiomas
dos índios da Amazônia?
Fischer
Nos casos em que o idioma mantém a identidade cultural
dos índios e os beneficia, sim. Mas se não
há mais resquícios da sociedade indígena,
se eles estão numa favela bebendo cachaça
o dia inteiro, não. Talvez seja melhor para eles
estudar bem o português e buscar bons empregos. Às
vezes, os lingüistas mostram mais entusiasmo pela preservação
de idiomas do que as próprias pessoas que os falam.
Veja Em
que medida a influência da internet será diferente
da que a televisão e o rádio tiveram?
Fischer
A internet tem outra lógica. O rádio e a televisão
uniformizaram os idiomas. As pessoas do Norte e do Sul do
Brasil ouvem um noticiário emitido do Rio de Janeiro
e passam a usar determinadas expressões, muitos tentam
até imitar o sotaque. Isso aconteceu em quase todos
os países. Na internet, existe comunicação.
As pessoas lêem e escrevem. É uma via de duas
mãos. Em pouco tempo, irão ouvir e falar.
Estamos vendo o surgimento da "prosa eletrônica",
que é a linguagem informal educada dos e-mails e
que deverá ter influência na maneira como falamos.
Veja Como
se devem escrever e-mails?
Fischer
O e-mail merece alguns cuidados. A linguagem certa
não é nem a linguagem oral, cheia de gírias,
nem a usada em cartas, muito formal. É algo intermediário.
É de bom-tom começar com "Caro fulano". Temos
de ser mais educados do que quando falamos e menos formais
do que quando escrevemos cartas.
Veja Por
que várias empresas proibiram seus funcionários
de se comunicar usando e-mails?
Fischer
À medida que as pessoas começaram a
usar o e-mail em vez de falar pessoalmente ou pegar o telefone,
os mal-entendidos foram se multiplicando. Isso aconteceu
porque muita gente não estava acostumada a escrever
antes do surgimento da internet. A escrita não tem
todos os recursos da linguagem oral. Não vemos a
expressão do interlocutor e seus gestos, não
ouvimos seu tom de voz. Uma frase pode parecer amena quando
falada e extremamente pesada se escrita. Algumas empresas
estão ensinando seus funcionários a escrever
e-mails. Isso passou a ser uma necessidade.
Veja Quais
são as influências da linguagem escrita na
maneira como falamos?
Fischer
Quando se aprende a ler, há uma mudança incrível.
Passa-se a falar usando um novo padrão. Nas sociedades
alfabetizadas, o idioma muda menos. Graças às
edições antigas da Bíblia, por
exemplo, hoje os brasileiros ainda usam palavras que eram
comuns no século XVI. Ler clássicos do passado
é uma excelente forma de aprender vocabulário.
Veja Por que
os jovens sempre criam e usam tantas gírias? Fischer
Em todas as gerações, os jovens criaram gírias
para que os mais velhos não pudessem entendê-los.
É também uma maneira de sentir-se parte de
um grupo, algo muito importante para adolescentes.
Veja Os
pais devem permitir que seus filhos usem gírias?
Fischer
Sim, mas há casos nos quais as gírias
são totalmente inapropriadas. Por exemplo, durante
um enterro ou numa formatura. Até o século
XIX havia uma pressão muito grande para que se imitassem
as expressões usadas pelas pessoas tidas como cultas.
O panorama mudou muito. As gírias são utilizadas
hoje por gente de todos os níveis sociais. Outro
dia, o porta-voz da Casa Branca declarou que o vôo
da nave espacial Endeavour tinha sido "supermaneiro".
Veja Por
que as gírias são mais aceitas hoje?
Fischer
Isso decorre da mobilidade social. Pessoas de origem
simples passaram a freqüentar universidades, ganhar
dinheiro e ocupar cargos importantes. Esse fenômeno
levou a linguagem popular às camadas mais altas.
Isso ocorreu em todo o mundo, mas com variações
locais. A gíria é bem-aceita entre as classes
altas do Brasil e dos Estados Unidos, mas enfrenta maior
resistência na Alemanha e na Inglaterra. Nem sempre
foi assim. William Shakespeare, por exemplo, usou muitas
gírias em sua obra. Só a partir do século
XVIII, quando as escolas se popularizaram na Europa, a língua
culta passou a ser a norma.
Veja Quais
são os animais que têm linguagens mais semelhantes
à dos seres humanos?
Fischer
São os macacos. É o que mostram as
pesquisas. "Koko", uma gorila que aprendeu a linguagem dos
sinais para surdos-mudos, hoje se comunica usando mais de
500 símbolos. Há ainda o caso de "Kanzi",
de uma espécie de macacos pequenos, que não
foi condicionado, mas também se comunica com os cientistas.
Nos testes de QI, ambos têm a inteligência de
uma criança de 2 anos e meio. Não existe a
menor dúvida de que é possível falar
com macacos, mas há, é claro, limitações.
Certa vez, Koko, tentando imitar sua treinadora, pegou o
telefone e fez uma chamada. A telefonista, assustada, achou
que a pessoa do outro lado da linha estava morrendo.
Veja A comunicação
entre seres humanos e animais já chegou ao limite?
Fischer
Com certeza, não. É possível que se
façam implantes de células humanas no cérebro
de animais para que a comunicação melhore.
A questão ética deve ser examinada, mas os
implantes não são um delírio de ficção
científica. No futuro, é bem possível
que possamos dizer a elefantes para seguir um determinado
caminho na savana. Ou falar para leões que não
saiam da reserva. Ou pedir para pássaros não
voarem sobre uma determinada região que está
envenenada com pesticidas.
Veja A Torre
de Babel existiu de fato?
Fischer
Não. A linguagem foi surgindo de forma distinta
nos vários agrupamentos de hominídeos. Na
verdade, o caminho é inverso. Estamos indo em direção
à língua universal que existia antes do castigo
da Torre de Babel.