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Claudio
de Moura Castro
Vestibulares indigestos
"O
vestibular das escolas públicas
é um dos grandes culpados pela
fragilidade de nosso ensino médio,
pois a sobrecarga curricular é imposta
às escolas de elite, e as outras a copiam"
Ilustração Ale Setti
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Imaginemos que na Constituição brasileira houvesse um artigo
obrigando os reitores das universidades públicas a fazer o vestibular
antes que ele fosse aplicado aos candidatos às vagas em suas instituições.
Será que os reitores receberiam notas boas?
E se, como
possivelmente seria o caso, as notas fossem ruins? Alguns explicariam
que, depois de tanto tempo, não poderiam lembrar-se do que lhes
foi lecionado no ensino médio. Porém, vejamos: para que
serve ensinar o que até eminentes acadêmicos esquecerão?
Os reitores tiveram desempenho acadêmico destacado, são pessoas
educadas e capazes de usar sua educação. De outra forma,
não chegariam ao cargo de reitor. Mas, se tiverem esquecido as
matérias que pedem seus vestibulares, isso significa que em sua
carreira não precisaram desses conhecimentos. Se é assim,
por que as universidades não requerem no vestibular justamente
os conhecimentos que os reitores usaram para chegar à posição
de magnífico? Em vez disso, os vestibulares pedem o que os reitores
já esqueceram.
A hipótese
fantasiosa dos parágrafos anteriores é apenas o prefácio
para uma discussão séria. A matrícula nas grandes
instituições federais é o sonho de centenas de milhares
de brasileiros que lá vêem um ensino gratuito que acreditam
ser melhor do que alhures. Logo, o melhor ensino médio, quase sempre
privado, tem como missão fatal preparar os alunos para esses vestibulares.
Infelizmente, no restante do ensino se dá a pura mímica
do que fazem as escolas de elite. Portanto, ao arrepio dos novos parâmetros
curriculares, que possuem mais foco que os velhos, o que define a sala
de aula do ensino médio é o vestibular da universidade pública
mais próxima.
A tendência
das instituições públicas é lotear o vestibular
para os professores das disciplinas correspondentes. Estes decidem o que
entra, baseados no que gostariam que chegassem sabendo os alunos que irão
para seus departamentos. Quando juntamos tudo, temos um banquete de assuntos
e perguntas que, de tão lauto e pesado, vai dar indigestão
nos candidatos. Talvez a necessidade da seleção de uns poucos
que irão para os cursos mais competitivos requeira tantos fatos
e minudências para triar os melhores. Mas pensemos nas conseqüências
menos auspiciosas do entulho curricular. Os candidatos de áreas
menos competitivas, os candidatos reprovados e os alunos que nem sequer
prestam vestibular serão vítimas do empenho dos fabricantes
de vestibular em incluir um volume exagerado de informações,
cuja intenção seria afinar mais a capacidade de discriminação
da prova no topo da distribuição de candidatos. Ou seja,
cria-se uma horrenda distorção no ensino médio para
refinar a seleção de um grupelho de candidatos de elite.
Os alunos
do ensino médio não são capazes de dominar tudo o
que se pede nem de decorar tudo o que está no currículo.
Esse é simplesmente um vestibular para gênios. Mas, no esforço
patético de preparar estudantes cobrindo todo o território
curricular, deita-se água no feijão. A educação
fica rala, perde profundidade. Ensina-se demais; por isso, aprende-se
de menos. Curto e grosso, o vestibular das escolas públicas é
um dos grandes culpados pela fragilidade de nosso ensino médio,
pois a sobrecarga curricular é imposta às escolas de elite,
e as outras a copiam.
A solução
é simples. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) responde
a todas as nossas reivindicações de um instrumento que focalize
os temas centrais do currículo e que exija raciocínio, e
não decoreba. Porém, o Enem poderia tirar o leite das criancinhas
dos fazedores de vestibular. Por isso, quando adotado, ele quase sempre
vem se somar aos penduricalhos curriculares do vestibular, e não
substituí-lo. Não é por aí.
Com todas
as reformas que estão no ar, quem sabe se obrigássemos os
reitores a prestar vestibular e, no dia seguinte, publicássemos
no jornal suas notas? Provavelmente, os magníficos cuidariam de
fazer incluir no vestibular apenas aqueles conhecimentos que, ao longo
do tempo, serviram a sua carreira (por exemplo, ler, escrever, pensar
etc.). Em contraste, gostariam de ver subtraído tudo aquilo que
esqueceram com o passar do tempo, por total falta de serventia.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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