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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

De volta à lógica
do senhor de
engenho (II)

Na Bahia, o grande pai projeta
sua sombra insidiosa sobre as
relações familiares

Salvador, início dos anos 90. Duas amigas, curtidas em décadas de troca de confidências, conversam ao telefone. "Vou lhe contar uma novidade", diz a primeira. A voz revela euforia que mal se contém. "Adivinhe quem A. está namorando!" "A." é a jovem filha da eufórica amiga número 1. A amiga número 2 diz não ter idéia de quem possa ser. Ela então revela: "Ele". "Ele quem?" "Ele, ora. Eeellleee. O homem." "Não acredito", exclama a amiga. "Ela está namorando o homem?!" "Confesso que nem eu acredito. Preciso me beliscar para ter certeza." "E como foi isso?", pergunta a amiga número 2, depois de alguns segundos de muda perplexidade. "Soubemos ontem", responde a número 1. "Confesso que até desconfiava. Você sabe, um olhar aqui, um sorrisinho ali. Mas era bom demais para ser verdade." "Minha nossa!", corta a número 2. "Imagino a felicidade de vocês." E a partir daí a conversa não passou de uma troca quase ininteligível de risinhos e gritinhos de prazer. Ao se despedir, disse a número 2: "Parabéns. Vocês estão de parabéns". "Obrigada", respondeu a número 1, chorando de alegria. "Muito obrigada."

Não, não se trata da transcrição de uma das fitas do rico acervo proveniente das escutas ilegais na Bahia. O diálogo acima é fictício. Mas... Quem sabe não poderia ter ocorrido? Ele foi inspirado pela informação, divulgada duas VEJAs atrás, de que os pais da jovem advogada Adriana Barreto deixaram de falar com a filha depois que ela rompeu o caso amoroso que mantinha com o senador Antonio Carlos Magalhães. Se ficaram tão contrariados com o fim do caso, é porque devem ter ficado muito satisfeitos, ou melhor, satisfeitos é pouco – devem ter ficado maravilhados, deslumbrados, e até isso é pouco, com o começo dele. Há pais que se preocupariam com o envolvimento da filha com um homem casado, pai de filhos, e tão mais velho que até avô de netos, e netos adultos. A suposição de que não foi o caso dos pais em questão casa bem com a veneração que o pai da, digamos, "noiva", o desembargador Amadiz Barreto, devotava – e, ao que tudo indica, ainda devota – ao, digamos, "noivo". Em 1998, ao ser homenageado em sua despedida da presidência do Tribunal Regional Eleitoral baiano, o desembargador declarou, segundo reporta a revista Época: "Qualquer homenagem deve ser transferida para a figura exponencial de Antonio Carlos Magalhães".

Na semana passada deu-se ênfase, neste espaço, ao fato de o famoso senador ser acusado de ter incluído a antiga favorita entre as vítimas do esquema de escuta clandestina montado na Bahia. Mais ainda do que a espionagem contra os políticos, tal fato revelaria o reinado da prepotência no Estado, mobilizado, até em suas instituições mais respeitáveis, para a satisfação de uma só vontade, soberana e incontrastável. Afinal, com espionagem por motivos políticos já se está até acostumado. Mas espionagem por motivos amorosos, armada com recursos do Estado, e além do mais seguida de uma campanha de perseguição contra a ex-"noiva" e seu novo companheiro, igualmente executada com instrumentos do Estado, segundo denunciam as vítimas, eis algo que inova a crônica dos escândalos brasileiros. Era a lógica do Brasil colônia que irrompia em cena. O senhor de engenho, titular falocrático de um império de escravas e agregadas, não hesita em chamar o capitão-do-mato para castigar a negra que ousa lhe escapar do leito. Mas, pensando bem...

Pensando bem, igualmente reveladora do que se passa na Bahia, ou até mais, é essa informação singela, e no entanto assombrosa, de que os pais de Adriana Barreto deixaram de lhe dirigir a palavra depois que ela rompeu com o senador. Então é assim? Quer dizer: a relação de sabujice pode ser de tal ordem que se sobrepõe às relações entre pai e filha, mãe e filha? Stalin, o inspirador do Grande Irmão, o "Big Brother" – não o da TV, mas o do romance do inglês George Orwell –, condecorava os filhos que delatassem os pais. Claro que a invocação de Stalin é aqui um exagero, equivale a lançar mão de bomba atômica para apartar briga de rua, mas justifica-se pela coincidência de, também na Bahia, pelo menos neste caso, a sombra do Grande Senhor lançar sua opressão insidiosa sobre as relações familiares. Também não vem bem ao caso invocar Saddam Hussein, Ferdinand Marcos, Trujillo ou Somoza. Mas que a situação estadual tem algo a ver com tais ditaduras, na forma como se articula em torno do senhor todo-poderoso, inspirador de iguais doses de adoração e temor, lá isso tem. Em regimes que tais, não há pais e filhos. Só há filhos, todos aninhados ao colo não do grande irmão, mas do grande pai. Ou, para ser mais modesto, e ficar na imagem da semana passada, a briga entre pais e filha é mais um sinal de que a política baiana refluiu para a casa-grande, onde pais, filhos, tios, sobrinhos, irmãos e primos não estão ali senão para servir aos caprichos do senhor, dono do destino, distribuidor de graças e desgraças.

 
 
   
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