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Roberto
Pompeu de Toledo
De
volta à lógica
do
senhor de
engenho (II)
Na
Bahia, o
grande pai
projeta
sua
sombra insidiosa
sobre
as
relações
familiares
Salvador, início dos anos 90. Duas amigas, curtidas em décadas
de troca de confidências, conversam ao telefone. "Vou lhe contar
uma novidade", diz a primeira. A voz revela euforia que mal se contém.
"Adivinhe quem A. está namorando!" "A." é a jovem filha
da eufórica amiga número 1. A amiga número 2 diz
não ter idéia de quem possa ser. Ela então revela:
"Ele". "Ele quem?" "Ele, ora. Eeellleee. O homem." "Não
acredito", exclama a amiga. "Ela está namorando o homem?!" "Confesso
que nem eu acredito. Preciso me beliscar para ter certeza." "E como foi
isso?", pergunta a amiga número 2, depois de alguns segundos de
muda perplexidade. "Soubemos ontem", responde a número 1. "Confesso
que até desconfiava. Você sabe, um olhar aqui, um sorrisinho
ali. Mas era bom demais para ser verdade." "Minha nossa!", corta a número
2. "Imagino a felicidade de vocês." E a partir daí a conversa
não passou de uma troca quase ininteligível de risinhos
e gritinhos de prazer. Ao se despedir, disse a número 2: "Parabéns.
Vocês estão de parabéns". "Obrigada", respondeu a
número 1, chorando de alegria. "Muito obrigada."
Não, não se trata da transcrição de uma das
fitas do rico acervo proveniente das escutas ilegais na Bahia. O diálogo
acima é fictício. Mas... Quem sabe não poderia ter
ocorrido? Ele foi inspirado pela informação, divulgada duas
VEJAs atrás, de que os pais da jovem advogada Adriana Barreto deixaram
de falar com a filha depois que ela rompeu o caso amoroso que mantinha
com o senador Antonio Carlos Magalhães. Se ficaram tão contrariados
com o fim do caso, é porque devem ter ficado muito satisfeitos,
ou melhor, satisfeitos é pouco devem ter ficado maravilhados,
deslumbrados, e até isso é pouco, com o começo dele.
Há pais que se preocupariam com o envolvimento da filha com um
homem casado, pai de filhos, e tão mais velho que até avô
de netos, e netos adultos. A suposição de que não
foi o caso dos pais em questão casa bem com a veneração
que o pai da, digamos, "noiva", o desembargador Amadiz Barreto, devotava
e, ao que tudo indica, ainda devota ao, digamos, "noivo".
Em 1998, ao ser homenageado em sua despedida da presidência do Tribunal
Regional Eleitoral baiano, o desembargador declarou, segundo reporta a
revista Época: "Qualquer homenagem deve ser transferida
para a figura exponencial de Antonio Carlos Magalhães".
Na semana passada deu-se ênfase, neste espaço, ao fato de
o famoso senador ser acusado de ter incluído a antiga favorita
entre as vítimas do esquema de escuta clandestina montado na Bahia.
Mais ainda do que a espionagem contra os políticos, tal fato revelaria
o reinado da prepotência no Estado, mobilizado, até em suas
instituições mais respeitáveis, para a satisfação
de uma só vontade, soberana e incontrastável. Afinal, com
espionagem por motivos políticos já se está até
acostumado. Mas espionagem por motivos amorosos, armada com recursos do
Estado, e além do mais seguida de uma campanha de perseguição
contra a ex-"noiva" e seu novo companheiro, igualmente executada com instrumentos
do Estado, segundo denunciam as vítimas, eis algo que inova a crônica
dos escândalos brasileiros. Era a lógica do Brasil colônia
que irrompia em cena. O senhor de engenho, titular falocrático
de um império de escravas e agregadas, não hesita em chamar
o capitão-do-mato para castigar a negra que ousa lhe escapar do
leito. Mas, pensando bem...
Pensando bem, igualmente reveladora do que se passa na Bahia, ou até
mais, é essa informação singela, e no entanto assombrosa,
de que os pais de Adriana Barreto deixaram de lhe dirigir a palavra depois
que ela rompeu com o senador. Então é assim? Quer dizer:
a relação de sabujice pode ser de tal ordem que se sobrepõe
às relações entre pai e filha, mãe e filha?
Stalin, o inspirador do Grande Irmão, o "Big Brother" não
o da TV, mas o do romance do inglês George Orwell , condecorava
os filhos que delatassem os pais. Claro que a invocação
de Stalin é aqui um exagero, equivale a lançar mão
de bomba atômica para apartar briga de rua, mas justifica-se pela
coincidência de, também na Bahia, pelo menos neste caso,
a sombra do Grande Senhor lançar sua opressão insidiosa
sobre as relações familiares. Também não vem
bem ao caso invocar Saddam Hussein, Ferdinand Marcos, Trujillo ou Somoza.
Mas que a situação estadual tem algo a ver com tais ditaduras,
na forma como se articula em torno do senhor todo-poderoso, inspirador
de iguais doses de adoração e temor, lá isso tem.
Em regimes que tais, não há pais e filhos. Só há
filhos, todos aninhados ao colo não do grande irmão, mas
do grande pai. Ou, para ser mais modesto, e ficar na imagem da semana
passada, a briga entre pais e filha é mais um sinal de que a política
baiana refluiu para a casa-grande, onde pais, filhos, tios, sobrinhos,
irmãos e primos não estão ali senão para servir
aos caprichos do senhor, dono do destino, distribuidor de graças
e desgraças.
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