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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
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A idade do gelo

Cientistas começam a desvendar
os mistérios da última fronteira,
a Antártica

Daniel Hessel Teich*


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O sexto continente
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Antártica, a última fronteira

Um medo gelado percorre o planeta: o de que a Antártica esteja derretendo. Esse continente, quase do tamanho da América do Sul, armazena em forma de gelo 75% de toda a água doce da Terra. Se descongelar, como temem muitos climatologistas e ambientalistas, elevará em 60 metros o nível dos oceanos, submergindo cidades como o Rio de Janeiro, Nova York, Tóquio e países inteiros, como Bangladesh. Existem indícios de que algo cataclísmico possa estar ocorrendo por lá. A Plataforma de Larsen – plataforma é o nome que se dá a uma geleira que avança sobre o mar – perdeu 15.000 quilômetros quadrados de gelo em duas grandes quebras, em 1994 e no ano passado. Há três anos, a Plataforma de Ross começou a soltar icebergs tão grandes que sobre eles se poderiam construir duas cidades do tamanho de São Paulo. A avalanche de icebergs não parou mais. Como o aquecimento global já é aceito pelos cientistas, a suspeita óbvia foi de que pudesse haver uma conexão entre os dois fenômenos. O perigo de um dilúvio provocado pelo derretimento do Pólo Sul realmente existe?

O momento é bom para obter uma resposta. Nos últimos dois meses, 3.500 cientistas de dezenas de países aproveitaram o curto verão no Pólo Sul para estudar o que está ocorrendo por lá. Apenas 500 deles vão correr o risco de passar o inverno na Antártica. Por meio do trabalho realizado em 44 bases montadas por trinta países em várias regiões e através de fotos de satélites, aprendeu-se mais sobre o continente gelado nos últimos cinco anos que nos dois séculos anteriores. O que se sabe até agora é tranqüilizador: não parece haver perigo imediato de o continente se dissolver como gelo num copo de uísque. A maioria dos cientistas acredita que a súbita enxurrada de icebergs é conseqüência do ritmo natural de expansão e retração das geleiras. Glaciologistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, analisaram a composição química de rochas recolhidas nas montanhas em torno da Plataforma de Ross. A conclusão, publicada dois meses atrás numa revista científica, foi de que o manto de gelo na região ocidental da Antártica, a mais próxima da América do Sul, diminui em ritmo constante há 10.000 anos. Pelos cálculos dos pesquisadores, se o degelo continuar nesse passo, serão necessários pelo menos outros 7.000 anos até que todo o manto escorra para o mar. Se isso acontecer, o nível do oceano subirá 5 metros. "É como se a Era do Gelo nunca tivesse realmente terminado naquela parte do mundo", diz o responsável pelo estudo, o geólogo John Stone. Na última era glacial, que terminou 10 000 anos atrás, as geleiras cobriram a maior parte do Hemisfério Norte.

Um aquecimento mais acentuado ocorre nas regiões costeiras, sobretudo na Península Antártica. Nessa ponta de terra que avança em direção à América do Sul, constatou-se que a temperatura média subiu 2,5 graus nos últimos cinqüenta anos. A Plataforma de Larsen, que perdeu um quinto de seu tamanho original nos últimos nove anos, ocupa a ponta da península. Como o gelo que se desprendeu estava sobre o mar, não houve aumento significativo do nível da água. O derretimento catastrófico para o planeta seria o do interior do continente, um planalto conhecido como Antártica Oriental. A temperatura média é de 55 graus abaixo de zero, e a espessura do gelo passa de 2.000 metros. Lá está localizado o Pólo Sul geográfico. A Rússia escolheu montar sua base Vostok, uma das maiores, no ponto em que se registram as temperaturas mais baixas do planeta, em torno de 90 graus abaixo de zero. A estação científica do Brasil, a Comandante Ferraz, está instalada na Ilha Rei George, no extremo norte da Península Antártica. É nessa ponta de terra, que tem clima mais ameno (temperatura entre 2 e 7 graus negativos no verão), que fica a maioria das bases. Foi na região que se registrou um aumento de temperatura, o que levou muitos pesquisadores a generalizar o fenômeno para toda a Antártica. Na verdade, do outro lado do continente, nos Vales de McMurdo, onde os americanos têm sua maior estação de pesquisa, a temperatura média caiu 1 grau em quinze anos.

A principal área de estudos dos brasileiros é a do mar congelado que cerca o continente, formando uma faixa de gelo perene de 3 milhões de quilômetros quadrados. No inverno, a área congelada aumenta para 20 milhões de quilômetros quadrados. Acredita-se que as frentes frias que chegam ao Brasil tenham origem nessa faixa. O que se quer saber é se o congelamento do mar se mantém ou está sendo alterado pelo aumento da temperatura registrado na península. Mudanças podem significar alterações no ciclo de chuvas no Brasil, com conseqüências importantes para a agricultura. "O clima brasileiro e o do planeta podem sofrer mudanças drásticas se esse mar passar a ter o mesmo tamanho no inverno e no verão", diz o glaciologista Jefferson Cardia Simões, coordenador do Laboratório de Pesquisas Antárticas e Glaciológicas (Lapag) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Cardia já esteve doze vezes na Antártica.

Entender o comportamento do mar congelado não é tarefa simples, dadas a variação colossal da área e a falta de uma série histórica de informações sobre o clima na região e no resto do planeta em tempos mais longínquos. Nesse aspecto, a Antártica oferece uma oportunidade única para obter dados sobre as condições atmosféricas de eras remotas. O gelo estocado no interior das geleiras contém encapsuladas amostras da atmosfera no período em que se deu o congelamento. Isso permite que se saiba a concentração de carbono e oxigênio na atmosfera do planeta há 500 ou 1 000 anos. A mais antiga fatia de gelo retirada foi datada em 800.000 anos. Teoricamente, pode-se encontrar uma com registro de milhões de anos. A análise feita por cientistas franceses e italianos não está concluída. Procuram-se ainda formas de vida primitivas, como bactérias, capazes de se adaptar às condições ambientais extremas. Alguns pesquisadores americanos dizem ter achado uma bactéria que ficou dormente por 3.000 anos dentro do gelo, mas a descoberta é controversa. A Antártica é também um excelente local para pesquisas sobre pingüins, baleias e aves marinhas. Entre os animais que se refugiam nas águas geladas está a baleia-azul, o maior mamífero do mundo, com mais de 30 metros de comprimento. Ela atrai particularmente a atenção dos pesquisadores por causa de seu rápido desaparecimento de outras regiões do planeta. Há 100 anos, a população de baleias-azuis era de mais de 250.000 animais; hoje se reduz a menos de 15 000.

 

*Colaborou Natasha Madov



   
 
   
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