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A
idade do gelo
Cientistas
começam a desvendar
os mistérios da última fronteira,
a Antártica
Daniel Hessel Teich*

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Um
medo gelado percorre o planeta: o de que a Antártica esteja derretendo.
Esse continente, quase do tamanho da América do Sul, armazena em
forma de gelo 75% de toda a água doce da Terra. Se descongelar,
como temem muitos climatologistas e ambientalistas, elevará em
60 metros o nível dos oceanos, submergindo cidades como o Rio de
Janeiro, Nova York, Tóquio e países inteiros, como Bangladesh.
Existem indícios de que algo cataclísmico possa estar ocorrendo
por lá. A Plataforma de Larsen plataforma é o nome
que se dá a uma geleira que avança sobre o mar perdeu
15.000 quilômetros quadrados de gelo em duas grandes quebras, em
1994 e no ano passado. Há três anos, a Plataforma de Ross
começou a soltar icebergs tão grandes que sobre eles se
poderiam construir duas cidades do tamanho de São Paulo. A avalanche
de icebergs não parou mais. Como o aquecimento global já
é aceito pelos cientistas, a suspeita óbvia foi de que pudesse
haver uma conexão entre os dois fenômenos. O perigo de um
dilúvio provocado pelo derretimento do Pólo Sul realmente
existe?
O momento é bom para obter uma resposta. Nos últimos dois
meses, 3.500 cientistas de dezenas de países aproveitaram o curto
verão no Pólo Sul para estudar o que está ocorrendo
por lá. Apenas 500 deles vão correr o risco de passar o
inverno na Antártica. Por meio do trabalho realizado em 44 bases
montadas por trinta países em várias regiões e através
de fotos de satélites, aprendeu-se mais sobre o continente gelado
nos últimos cinco anos que nos dois séculos anteriores.
O que se sabe até agora é tranqüilizador: não
parece haver perigo imediato de o continente se dissolver como gelo num
copo de uísque. A maioria dos cientistas acredita que a súbita
enxurrada de icebergs é conseqüência do ritmo natural
de expansão e retração das geleiras. Glaciologistas
da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, analisaram a composição
química de rochas recolhidas nas montanhas em torno da Plataforma
de Ross. A conclusão, publicada dois meses atrás numa revista
científica, foi de que o manto de gelo na região ocidental
da Antártica, a mais próxima da América do Sul, diminui
em ritmo constante há 10.000 anos. Pelos cálculos dos pesquisadores,
se o degelo continuar nesse passo, serão necessários pelo
menos outros 7.000 anos até que todo o manto escorra para o mar.
Se isso acontecer, o nível do oceano subirá 5 metros. "É
como se a Era do Gelo nunca tivesse realmente terminado naquela parte
do mundo", diz o responsável pelo estudo, o geólogo John
Stone. Na última era glacial, que terminou 10 000 anos atrás,
as geleiras cobriram a maior parte do Hemisfério Norte.
Um aquecimento mais acentuado ocorre nas regiões costeiras, sobretudo
na Península Antártica. Nessa ponta de terra que avança
em direção à América do Sul, constatou-se
que a temperatura média subiu 2,5 graus nos últimos cinqüenta
anos. A Plataforma de Larsen, que perdeu um quinto de seu tamanho original
nos últimos nove anos, ocupa a ponta da península. Como
o gelo que se desprendeu estava sobre o mar, não houve aumento
significativo do nível da água. O derretimento catastrófico
para o planeta seria o do interior do continente, um planalto conhecido
como Antártica Oriental. A temperatura média é de
55 graus abaixo de zero, e a espessura do gelo passa de 2.000 metros.
Lá está localizado o Pólo Sul geográfico.
A Rússia escolheu montar sua base Vostok, uma das maiores, no ponto
em que se registram as temperaturas mais baixas do planeta, em torno de
90 graus abaixo de zero. A estação científica do
Brasil, a Comandante Ferraz, está instalada na Ilha Rei George,
no extremo norte da Península Antártica. É nessa
ponta de terra, que tem clima mais ameno (temperatura entre 2 e 7 graus
negativos no verão), que fica a maioria das bases. Foi na região
que se registrou um aumento de temperatura, o que levou muitos pesquisadores
a generalizar o fenômeno para toda a Antártica. Na verdade,
do outro lado do continente, nos Vales de McMurdo, onde os americanos
têm sua maior estação de pesquisa, a temperatura média
caiu 1 grau em quinze anos.
A principal área de estudos dos brasileiros é a do mar congelado
que cerca o continente, formando uma faixa de gelo perene de 3 milhões
de quilômetros quadrados. No inverno, a área congelada aumenta
para 20 milhões de quilômetros quadrados. Acredita-se que
as frentes frias que chegam ao Brasil tenham origem nessa faixa. O que
se quer saber é se o congelamento do mar se mantém ou está
sendo alterado pelo aumento da temperatura registrado na península.
Mudanças podem significar alterações no ciclo de
chuvas no Brasil, com conseqüências importantes para a agricultura.
"O clima brasileiro e o do planeta podem sofrer mudanças drásticas
se esse mar passar a ter o mesmo tamanho no inverno e no verão",
diz o glaciologista Jefferson Cardia Simões, coordenador do Laboratório
de Pesquisas Antárticas e Glaciológicas (Lapag) da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Cardia já esteve doze vezes
na Antártica.
Entender o comportamento do mar congelado não é tarefa simples,
dadas a variação colossal da área e a falta de uma
série histórica de informações sobre o clima
na região e no resto do planeta em tempos mais longínquos.
Nesse aspecto, a Antártica oferece uma oportunidade única
para obter dados sobre as condições atmosféricas
de eras remotas. O gelo estocado no interior das geleiras contém
encapsuladas amostras da atmosfera no período em que se deu o congelamento.
Isso permite que se saiba a concentração de carbono e oxigênio
na atmosfera do planeta há 500 ou 1 000 anos. A mais antiga fatia
de gelo retirada foi datada em 800.000 anos. Teoricamente, pode-se encontrar
uma com registro de milhões de anos. A análise feita por
cientistas franceses e italianos não está concluída.
Procuram-se ainda formas de vida primitivas, como bactérias, capazes
de se adaptar às condições ambientais extremas. Alguns
pesquisadores americanos dizem ter achado uma bactéria que ficou
dormente por 3.000 anos dentro do gelo, mas a descoberta é controversa.
A Antártica é também um excelente local para pesquisas
sobre pingüins, baleias e aves marinhas. Entre os animais que se
refugiam nas águas geladas está a baleia-azul, o maior mamífero
do mundo, com mais de 30 metros de comprimento. Ela atrai particularmente
a atenção dos pesquisadores por causa de seu rápido
desaparecimento de outras regiões do planeta. Há 100 anos,
a população de baleias-azuis era de mais de 250.000 animais;
hoje se reduz a menos de 15 000.
*Colaborou
Natasha Madov
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