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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
Diogo Mainardi

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Olha que coisa
mais linda

"O Rio de Janeiro, até então muito caído
e previsível, ganhou uma certa graça,
uma certa atmosfera de aventura.
Bombas e coquetéis Molotov. Uma das
bombas que atiraram perto da minha casa
foi desviada da Marinha. Não explodiu"

Eu já estava enjoado dos tiroteios na porta de casa. Agora melhorou. Passaram a jogar bombas. Duas delas explodiram a menos de 100 passos de onde moro. O Rio de Janeiro, até então muito caído e previsível, finalmente ganhou uma certa graça, uma certa atmosfera de aventura. Bombas e coquetéis Molotov. O ministro Walfrido Guia teme que a baderna decretada por Fernandinho Beira-Mar no começo da semana possa afetar o movimento turístico durante o Carnaval. Duvido. O espetáculo de um ônibus queimando é bem menos aborrecido do que um desfile no Sambódromo. E é também bem menos perigoso, considerando o número de mortos e feridos nos desfiles pré-carnavalescos de São Paulo e Natal. Além disso, os traficantes cariocas podem ser acusados de tudo, menos de prejudicar o Carnaval, já que, como até o ministro Walfrido Guia deve saber, eles empregam uma parcela do dinheiro da droga no patrocínio das escolas de samba, para a grande alegria dos foliões e da Embratur. Paradoxalmente, quanto mais liberdade tiverem os traficantes, melhor será o Carnaval.

A maior dificuldade na última semana não foi o caos provocado pelas ações da bandidagem, mas tentar acompanhar o que estava acontecendo, através da imprensa. O Dia, na terça-feira, noticiou que Fernandinho Beira-Mar deu a ordem de tocar fogo na cidade porque policiais civis seqüestraram um seu parente e estavam exigindo um resgate para libertá-lo. Segundo o jornal, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Josias Quintal, confirmou o fato, acrescentando que "os maus agentes serão tratados como bandidos e duramente punidos". Os outros jornais, a TV e o rádio preferiram ignorar o assunto, atribuindo a desordem a uma espécie de capricho maligno de Fernandinho Beira-Mar, com o único propósito de reafirmar sua força. Se o seqüestro realmente ocorreu, é ainda mais grave do que a retaliação dos traficantes, pois foi praticado por quem é pago para defender a população. Se não ocorreu, alguém me avise, por favor, porque estou boiando.

Quem olha as coisas de fora, como eu, fica com a impressão de que, se não fossem as forças da ordem, a criminalidade já teria acabado no Rio de Janeiro. Um dia antes dos atentados de Fernandinho Beira-Mar, O Globo publicou que, nos últimos anos, 35.000 armas foram desviadas da polícia e das Forças Armadas para o tráfico. Uma das bombas que os bandidos atiraram perto da minha casa, por exemplo, era de propriedade da Marinha. Não explodiu. Além de ladrões, os contrabandistas que vendem essas bombas são incompetentes, pois entregam armas que não funcionam.

Neste momento, ninguém sabe o que fazer com Fernandinho Beira-Mar. Muitos cariocas querem que ele seja assassinado dentro do presídio. O prefeito Cesar Maia concorda. Chegou a dizer que, se fosse governador, já teria cuidado disso há um bom tempo. A governadora Rosinha Garotinho e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, sugeriram soluções mais amenas, como a extradição de Fernandinho Beira-Mar para o Acre. Eu mandaria a polícia junto. E, se os acrianos e o ministro Walfrido Guia quiserem, podem levar o Carnaval também.

 
 
   
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