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Edição 1 792 - 5 de março de 2003
Entrevista: Caleb Carr

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"O pacifismo é ingênuo"

O ensaísta americano Caleb Carr
diz que é uma tolice dar mais tempo
ao ditador iraquiano Saddam Hussein

Marcelo Marthe

O americano Caleb Carr ganhou fama nos anos 90 como autor de romances históricos com um toque de suspense. Ambientados na Nova York do final do século XIX, os thrillers O Alienista e O Anjo das Trevas fizeram grande sucesso. Ambos passaram meses nas principais listas de mais vendidos dos Estados Unidos. Desde os ataques terroristas de 11 de setembro, contudo, o escritor se mantém ativo em outra especialidade: a de historiador militar, matéria à qual ele dedicou sua formação acadêmica. No ano passado, lançou o livro A Assustadora História do Terrorismo, que chega agora ao Brasil pela Editora Prestígio. A obra retrocede aos tempos do Império Romano para identificar as raízes dessa prática de guerra. Filho de um personagem lendário da boemia americana – o aventureiro Lucien Carr, que pertencia ao grupo dos autores beats Jack Kerouac e Allen Ginsberg –, Caleb Carr, de 47 anos, tem os cabelos longos como os de um hippie, mas cultiva opiniões bem mais agressivas. Nesta entrevista, ele explica por que considera necessária a guerra contra o Iraque e critica aqueles que procuram retardá-la.

Veja – Uma guerra contra Saddam Hussein é realmente necessária?
Carr – Infelizmente, não vejo alternativa. Saddam Hussein é o maior fator de instabilidade no Oriente Médio e tem feito de tudo para instigar o sentimento antiocidental entre os árabes. Ele é o primeiro líder, desde a II Guerra, a demonstrar que não hesitaria em usar armas de destruição em massa contra outros países – o que, aliás, já fez contra os curdos. Além disso, é certo que Saddam tem dado apoio aos terroristas da Al Qaeda e tem conexões com organizações radicais palestinas. Se nada for feito para detê-lo, será apenas uma questão de tempo até Saddam pôr as mãos em armas nucleares e causar um desastre no Oriente Médio. Não acredito que qualquer sanção contra o Iraque possa surtir efeito – se não funcionou nos últimos doze anos, o que leva a crer que isso mudará agora? É importante que Saddam seja não só desarmado, mas tirado do poder. A questão que importa agora, portanto, não é se deve ou não haver guerra, e sim de que forma esse conflito deve ser conduzido.

Veja – E de que forma seria?
Carr – Se for para ser como a Guerra do Golfo, com bombardeios que não pouparam instalações civis, o resultado será desastroso. Irá inflamar o mundo muçulmano contra os Estados Unidos, e provavelmente provocará uma batalha longa e de final imprevisível. Mas, se for uma operação realmente cirúrgica, mais parecida com a guerra que travamos recentemente no Afeganistão, em que o único objetivo seja tirar Saddam do poder, limitando os danos civis ao mínimo, esse quadro muda. Uma guerra assim é a única saída razoável.

Veja – Países como a França e a Alemanha insistem que a ONU deve ter mais tempo para inspecionar o Iraque. Isso não seria mais correto?
Carr – Já foi dado ao Iraque tempo mais que necessário para se desarmar, e Saddam não demonstrou que o fará de verdade. Até agora, as inspeções da ONU só resultaram na apreensão de uma parte ínfima do arsenal de Saddam – obviamente, foram encontradas apenas as armas mais antigas, já em desuso, que seus homens deixaram à vista dos inspetores somente para despistar. A verdade é que Saddam nunca se mostrou disposto a colaborar a sério com a ONU. A posição da França e da Alemanha de prolongar as inspeções só adia uma guerra inevitável. Preocupa-me o fato de que o discurso atual dos dois países seja idêntico ao discurso escapista dos Estados Unidos e da Europa nos anos 30. Naquela época, deixaram Hitler se armar até os dentes. Parte da opinião pública não tem coragem de admitir, mas o fundamentalismo islâmico pode representar no futuro o mesmo tipo de ameaça que a Alemanha nazista representou nos anos 30.

Veja – Há quinze dias, milhões de pessoas em todo o mundo protestaram contra uma guerra no Iraque.
Carr – Os pacifistas são ingênuos e estão prestando um desserviço ao mundo. É bonito e correto defender a causa da paz, mas o que está ocorrendo é uma inversão de valores. Estão pintando o Iraque como uma nação pacífica prestes a ser agredida sem razão, quando na verdade isso só está ocorrendo porque nos últimos doze anos o país ignorou solenemente as determinações da ONU para se desarmar. O Iraque é uma nação fora-da-lei, e não uma nação acuada.

Veja – O senhor acredita que a estratégia de Bush na luta contra o terrorismo esteja no rumo correto?
Carr – Acho que Bush acertou no diagnóstico – de que é preciso derrubar Saddam –, mas tem se conduzido de forma desastrosa em várias frentes. O presidente vem se revelando incapaz de entender a complexidade do problema do terrorismo, e as ações de seu governo refletem isso. A estratégia de prevenção contra ataques dentro dos EUA, por exemplo, parece não levar em conta o modo como os terroristas se organizam, e seu resultado mais evidente até agora foi provocar pânico e paranóia na população. Os Estados Unidos também estão perdendo a guerra contra o terror no campo diplomático. Tão importante quanto os esforços na área militar e de inteligência é ter uma estratégia diplomática agressiva nos países que produzem o terrorismo. Se os Estados Unidos não alterarem o modo como se relacionam com as nações onde o terrorismo é gerado, não se estará mexendo na raiz do problema.

Veja – O que é preciso mudar?
Carr – Veja o exemplo da Arábia Saudita, a terra de Osama bin Laden. Temos uma longa história de relacionamento equivocado com a família real saudita, no qual o maior erro é manter tropas estacionadas no país. Nossas tropas não deveriam permanecer lá, pois se trata de uma enorme afronta aos muçulmanos, que têm seus principais símbolos sagrados naquele país. Isso causa mal-estar desnecessário e só fomenta o sentimento antiamericano. Nós também não estamos acenando com alternativas para a juventude sem perspectivas dos países muçulmanos, a base de formação das milícias que atacam alvos civis mundo afora.

Veja – O escritor Gore Vidal e o lingüista Noam Chomsky, duas personalidades que lançaram livros que abordam os atentados de 11 de setembro, costumam dizer que os Estados Unidos são o maior país terrorista do mundo. O que o senhor pensa dessas opiniões?
Carr – O que me irrita em pessoas como Gore Vidal e Noam Chomsky é que eles sabem que essas opiniões são simplórias, mas insistem nelas porque querem arrancar aplausos fáceis da esquerda. Embora percebam que a realidade é mais complicada do que apregoam, ambos fazem esse discurso para se promover. Não há dúvida de que, desde o fim da II Guerra, os Estados Unidos praticaram algumas vezes ataques desumanos a populações civis de outras nações, como o Vietnã, por exemplo. Mas usar episódios do passado como argumento para impedir que os Estados Unidos ajam em defesa própria é pura demagogia.

Veja – Por que é difícil combater o terrorismo islâmico?
Carr – É difícil porque o Ocidente sempre preferiu ver os terroristas islâmicos como lunáticos em vez de enxergá-los como soldados que lutam por uma causa e integram exércitos regulares. Essa dificuldade em perceber a natureza do terrorismo é compreensível, pois ao longo dos últimos 2.000 anos o mundo ocidental formulou e aperfeiçoou uma ética militar que, de alguma forma, codificou o que é legítimo e condenável no campo de batalha – regras essas que inexistem para os terroristas islâmicos. Em nome de sua causa, eles julgam natural se sacrificar e promover a barbárie. Se pais estão dispostos a amarrar bombas em seus filhos de 2 anos, para matar civis inocentes num restaurante em Israel, como lutar contra esse mal? É preciso pensar a questão, portanto, do ponto de vista militar: se estamos em guerra contra esses inimigos, temos de saber como seus soldados agem e pensam. Achar que são meros loucos, que atacam sem nenhuma lógica, é o maior dos erros, pois é uma forma de menosprezar o adversário.

Veja – Qual foi o primeiro grande ataque terrorista da história?
Carr – Se considerarmos que toda ação militar que tem como alvo a população civil é uma forma de terrorismo, pode-se dizer que se trata de um fenômeno tão antigo quanto a guerra. Costumo citar como um marco na Antiguidade a tomada de Cartago pelos romanos. O ódio ao inimigo era tão grande que esses últimos praticamente dizimaram a população da cidade. Outro exemplo célebre, que também diz respeito ao Império Romano, foi quando seus soldados, durante a conquista dos territórios germânicos, promoveram um massacre da população local. A revolta foi tão grande que a população se levantou contra os invasores, obtendo inclusive a adesão de soldados de origem germânica que integravam o exército romano.

Veja – Ao longo da história, o terrorismo se mostrou uma estratégia de guerra eficiente?
Carr – A curto prazo, os ataques terroristas têm um impacto psicológico que dá visibilidade e faz crescer o medo em relação àqueles que os praticam. Mas, a longo prazo, são uma arma que se volta contra quem se vale dela. A maior vítima do terrorismo acaba sendo a causa pela qual se está lutando, pois o terror só espalha ódio e ressentimento. Os ataques que visam aterrorizar a população civil são um dos grandes mitos da história militar. É um erro que os Estados Unidos cometeram muitas vezes. Durante a Guerra Civil, tanto os combatentes do sul quanto os do norte tinham como prática promover o pânico e a violência nas localidades que invadiam. Um comandante da época chegou a reconhecer que apenas 20% da destruição produzida por suas tropas atendia a objetivos militares. O restante era para causar puro terror entre os civis, com a intenção de induzir a população a colaborar com os soldados inimigos. Aconteceu o contrário: aí sim é que as vítimas se negavam a ajudar. No final da II Guerra, os Estados Unidos e seus aliados arrasaram as cidades alemãs com bombas para destruir o moral da população que ainda participava do esforço de guerra. Mas o que se passou foi que os ataques insuflaram o brio dos que resistiam, e isso só prolongou ainda mais o conflito.

Veja – A maior preocupação dos Estados Unidos não deveria ser a Coréia do Norte, em vez do Iraque?
Carr – Acho compreensível esse tipo de ansiedade em relação a um país governado por um ditador instável como Kim Jong Il. A possibilidade de que uma figura assim tenha nas mãos um arsenal nuclear é assustadora, mas o fato é que, se analisarmos friamente o modo como a Coréia do Norte vem se portando, não há indícios concretos de que ela venha a se utilizar desse arsenal. Trata-se de um regime totalitário e brutal, mas que não fez nada além de suas fronteiras que justifique uma interferência americana. No Iraque, é diferente. Saddam Hussein já deu exemplos mais do que suficientes do que é capaz de fazer com seu poderio bélico – fora de seu país e mesmo contra seu povo. É como se um policial deparasse na rua com dois delinqüentes. Um deles, Kim Jong Il, é um lunático que rosna, mas que nunca atacou ninguém, enquanto o outro, Saddam, tem uma ficha extensa de crimes cometidos. Com qual deles o policial deveria se preocupar?

Veja – Alguns analistas citam a tríplice fronteira, na divisa do Brasil com a Argentina e o Paraguai, como uma área de intensa atividade terrorista. Essa região inspira cuidados?
Carr – Não há dúvida de que já existem infiltrações do terrorismo na região da tríplice fronteira. A questão é saber se há possibilidade de essa presença crescer e fazer com que a área se torne uma base importante do terror. Isso não chega a ser surpreendente. Além da forte imigração árabe, a região está na interseção de várias jurisdições e, por isso, é uma espécie de terra de ninguém – o tipo de situação ideal do ponto de vista das organizações terroristas.

Veja – Nos últimos anos, a preocupação com a segurança interna levou os Estados Unidos a adotar medidas polêmicas – como a de fichar e colher as digitais de estrangeiros que chegam ao país. Há quem considere essas medidas típicas de um Estado policial. O senhor concorda com elas?
Carr – Não vejo nada de preocupante nessas medidas. A Constituição americana garante a liberdade dos cidadãos, mas não somos obrigados a aceitar que as pessoas mantenham atividades criminosas em segredo. Os Estados Unidos estão em guerra contra o terror, e nessa situação é natural que haja cuidado redobrado. Durante a II Guerra, as pessoas provenientes do Japão, país que combatíamos, foram impedidas de entrar nos EUA e os japoneses que estavam aqui foram colocados em comunidades isoladas. Longe de mim defender que algo assim se repita, mas o fato é que não há nada de grave em tirar impressões digitais de viajantes oriundos de países dos quais temos boas razões para desconfiar.

 
 
   
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