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"O
pacifismo é ingênuo"
O ensaísta americano
Caleb Carr
diz que é uma tolice dar mais tempo
ao ditador iraquiano Saddam Hussein
Marcelo
Marthe
O
americano Caleb Carr ganhou fama nos anos 90 como autor de romances históricos
com um toque de suspense. Ambientados na Nova York do final do século
XIX, os thrillers O Alienista e O Anjo das Trevas fizeram
grande sucesso. Ambos passaram meses nas principais listas de mais
vendidos dos Estados Unidos. Desde os ataques terroristas de 11 de setembro,
contudo, o escritor se mantém ativo em outra especialidade: a de
historiador militar, matéria à qual ele dedicou sua formação
acadêmica. No ano passado, lançou o livro A Assustadora
História do Terrorismo, que chega agora ao Brasil pela Editora
Prestígio. A obra retrocede aos tempos do Império Romano
para identificar as raízes dessa prática de guerra. Filho
de um personagem lendário da boemia americana o aventureiro
Lucien Carr, que pertencia ao grupo dos autores beats Jack Kerouac e Allen
Ginsberg , Caleb Carr, de 47 anos, tem os cabelos longos como os
de um hippie, mas cultiva opiniões bem mais agressivas. Nesta entrevista,
ele explica por que considera necessária a guerra contra o Iraque
e critica aqueles que procuram retardá-la.
Veja
Uma guerra contra Saddam Hussein é realmente necessária?
Carr
Infelizmente, não vejo alternativa. Saddam Hussein é o maior
fator de instabilidade no Oriente Médio e tem feito de tudo para
instigar o sentimento antiocidental entre os árabes. Ele é
o primeiro líder, desde a II Guerra, a demonstrar que não
hesitaria em usar armas de destruição em massa contra outros
países o que, aliás, já fez contra os curdos.
Além disso, é certo que Saddam tem dado apoio aos terroristas
da Al Qaeda e tem conexões com organizações radicais
palestinas. Se nada for feito para detê-lo, será apenas uma
questão de tempo até Saddam pôr as mãos em
armas nucleares e causar um desastre no Oriente Médio. Não
acredito que qualquer sanção contra o Iraque possa surtir
efeito se não funcionou nos últimos doze anos, o
que leva a crer que isso mudará agora? É importante que
Saddam seja não só desarmado, mas tirado do poder. A questão
que importa agora, portanto, não é se deve ou não
haver guerra, e sim de que forma esse conflito deve ser conduzido.
Veja E de que forma seria?
Carr
Se for para ser como a Guerra do Golfo, com bombardeios que não
pouparam instalações civis, o resultado será desastroso.
Irá inflamar o mundo muçulmano contra os Estados Unidos,
e provavelmente provocará uma batalha longa e de final imprevisível.
Mas, se for uma operação realmente cirúrgica, mais
parecida com a guerra que travamos recentemente no Afeganistão,
em que o único objetivo seja tirar Saddam do poder, limitando os
danos civis ao mínimo, esse quadro muda. Uma guerra assim é
a única saída razoável.
Veja
Países como a França e a Alemanha insistem que
a ONU deve ter mais tempo para inspecionar o Iraque. Isso não seria
mais correto?
Carr
Já foi dado ao Iraque tempo mais que necessário para se
desarmar, e Saddam não demonstrou que o fará de verdade.
Até agora, as inspeções da ONU só resultaram
na apreensão de uma parte ínfima do arsenal de Saddam
obviamente, foram encontradas apenas as armas mais antigas, já
em desuso, que seus homens deixaram à vista dos inspetores somente
para despistar. A verdade é que Saddam nunca se mostrou disposto
a colaborar a sério com a ONU. A posição da França
e da Alemanha de prolongar as inspeções só adia uma
guerra inevitável. Preocupa-me o fato de que o discurso atual dos
dois países seja idêntico ao discurso escapista dos Estados
Unidos e da Europa nos anos 30. Naquela época, deixaram Hitler
se armar até os dentes. Parte da opinião pública
não tem coragem de admitir, mas o fundamentalismo islâmico
pode representar no futuro o mesmo tipo de ameaça que a Alemanha
nazista representou nos anos 30.
Veja Há quinze dias, milhões de pessoas em
todo o mundo protestaram contra uma guerra no Iraque.
Carr
Os pacifistas são ingênuos e estão prestando um desserviço
ao mundo. É bonito e correto defender a causa da paz, mas o que
está ocorrendo é uma inversão de valores. Estão
pintando o Iraque como uma nação pacífica prestes
a ser agredida sem razão, quando na verdade isso só está
ocorrendo porque nos últimos doze anos o país ignorou solenemente
as determinações da ONU para se desarmar. O Iraque é
uma nação fora-da-lei, e não uma nação
acuada.
Veja O senhor acredita que a estratégia de Bush na
luta contra o terrorismo esteja no rumo correto?
Carr
Acho que Bush acertou no diagnóstico de que é
preciso derrubar Saddam , mas tem se conduzido de forma desastrosa
em várias frentes. O presidente vem se revelando incapaz de entender
a complexidade do problema do terrorismo, e as ações de
seu governo refletem isso. A estratégia de prevenção
contra ataques dentro dos EUA, por exemplo, parece não levar em
conta o modo como os terroristas se organizam, e seu resultado mais evidente
até agora foi provocar pânico e paranóia na população.
Os Estados Unidos também estão perdendo a guerra contra
o terror no campo diplomático. Tão importante quanto os
esforços na área militar e de inteligência é
ter uma estratégia diplomática agressiva nos países
que produzem o terrorismo. Se os Estados Unidos não alterarem o
modo como se relacionam com as nações onde o terrorismo
é gerado, não se estará mexendo na raiz do problema.
Veja O que é preciso mudar?
Carr
Veja o exemplo da Arábia Saudita, a terra de Osama bin Laden. Temos
uma longa história de relacionamento equivocado com a família
real saudita, no qual o maior erro é manter tropas estacionadas
no país. Nossas tropas não deveriam permanecer lá,
pois se trata de uma enorme afronta aos muçulmanos, que têm
seus principais símbolos sagrados naquele país. Isso causa
mal-estar desnecessário e só fomenta o sentimento antiamericano.
Nós também não estamos acenando com alternativas
para a juventude sem perspectivas dos países muçulmanos,
a base de formação das milícias que atacam alvos
civis mundo afora.
Veja
O escritor Gore Vidal e o lingüista Noam Chomsky, duas
personalidades que lançaram livros que abordam os atentados de
11 de setembro, costumam dizer que os Estados Unidos são o maior
país terrorista do mundo. O que o senhor pensa dessas opiniões?
Carr
O que me irrita em pessoas como Gore Vidal e Noam Chomsky é que
eles sabem que essas opiniões são simplórias, mas
insistem nelas porque querem arrancar aplausos fáceis da esquerda.
Embora percebam que a realidade é mais complicada do que apregoam,
ambos fazem esse discurso para se promover. Não há dúvida
de que, desde o fim da II Guerra, os Estados Unidos praticaram algumas
vezes ataques desumanos a populações civis de outras nações,
como o Vietnã, por exemplo. Mas usar episódios do passado
como argumento para impedir que os Estados Unidos ajam em defesa própria
é pura demagogia.
Veja Por que é difícil combater o terrorismo
islâmico?
Carr
É difícil porque o Ocidente sempre preferiu ver os terroristas
islâmicos como lunáticos em vez de enxergá-los como
soldados que lutam por uma causa e integram exércitos regulares.
Essa dificuldade em perceber a natureza do terrorismo é compreensível,
pois ao longo dos últimos 2.000 anos o mundo ocidental formulou
e aperfeiçoou uma ética militar que, de alguma forma, codificou
o que é legítimo e condenável no campo de batalha
regras essas que inexistem para os terroristas islâmicos.
Em nome de sua causa, eles julgam natural se sacrificar e promover a barbárie.
Se pais estão dispostos a amarrar bombas em seus filhos de 2 anos,
para matar civis inocentes num restaurante em Israel, como lutar contra
esse mal? É preciso pensar a questão, portanto, do ponto
de vista militar: se estamos em guerra contra esses inimigos, temos de
saber como seus soldados agem e pensam. Achar que são meros loucos,
que atacam sem nenhuma lógica, é o maior dos erros, pois
é uma forma de menosprezar o adversário.
Veja Qual foi o primeiro grande ataque terrorista da história?
Carr
Se
considerarmos que toda ação militar que tem como alvo a
população civil é uma forma de terrorismo, pode-se
dizer que se trata de um fenômeno tão antigo quanto a guerra.
Costumo citar como um marco na Antiguidade a tomada de Cartago pelos romanos.
O ódio ao inimigo era tão grande que esses últimos
praticamente dizimaram a população da cidade. Outro exemplo
célebre, que também diz respeito ao Império Romano,
foi quando seus soldados, durante a conquista dos territórios germânicos,
promoveram um massacre da população local. A revolta foi
tão grande que a população se levantou contra os
invasores, obtendo inclusive a adesão de soldados de origem germânica
que integravam o exército romano.
Veja Ao longo da história, o terrorismo se mostrou
uma estratégia de guerra eficiente?
Carr
A curto prazo, os ataques terroristas têm um impacto psicológico
que dá visibilidade e faz crescer o medo em relação
àqueles que os praticam. Mas, a longo prazo, são uma arma
que se volta contra quem se vale dela. A maior vítima do terrorismo
acaba sendo a causa pela qual se está lutando, pois o terror só
espalha ódio e ressentimento. Os ataques que visam aterrorizar
a população civil são um dos grandes mitos da história
militar. É um erro que os Estados Unidos cometeram muitas vezes.
Durante a Guerra Civil, tanto os combatentes do sul quanto os do norte
tinham como prática promover o pânico e a violência
nas localidades que invadiam. Um comandante da época chegou a reconhecer
que apenas 20% da destruição produzida por suas tropas atendia
a objetivos militares. O restante era para causar puro terror entre os
civis, com a intenção de induzir a população
a colaborar com os soldados inimigos. Aconteceu o contrário: aí
sim é que as vítimas se negavam a ajudar. No final da II
Guerra, os Estados Unidos e seus aliados arrasaram as cidades alemãs
com bombas para destruir o moral da população que ainda
participava do esforço de guerra. Mas o que se passou foi que os
ataques insuflaram o brio dos que resistiam, e isso só prolongou
ainda mais o conflito.
Veja A maior preocupação dos Estados Unidos
não deveria ser a Coréia do Norte, em vez do Iraque?
Carr
Acho compreensível esse tipo de ansiedade em relação
a um país governado por um ditador instável como Kim Jong
Il. A possibilidade de que uma figura assim tenha nas mãos um arsenal
nuclear é assustadora, mas o fato é que, se analisarmos
friamente o modo como a Coréia do Norte vem se portando, não
há indícios concretos de que ela venha a se utilizar desse
arsenal. Trata-se de um regime totalitário e brutal, mas que não
fez nada além de suas fronteiras que justifique uma interferência
americana. No Iraque, é diferente. Saddam Hussein já deu
exemplos mais do que suficientes do que é capaz de fazer com seu
poderio bélico fora de seu país e mesmo contra seu
povo. É como se um policial deparasse na rua com dois delinqüentes.
Um deles, Kim Jong Il, é um lunático que rosna, mas que
nunca atacou ninguém, enquanto o outro, Saddam, tem uma ficha extensa
de crimes cometidos. Com qual deles o policial deveria se preocupar?
Veja Alguns analistas citam a tríplice fronteira,
na divisa do Brasil com a Argentina e o Paraguai, como uma área
de intensa atividade terrorista. Essa região inspira cuidados?
Carr
Não há dúvida de que já existem infiltrações
do terrorismo na região da tríplice fronteira. A questão
é saber se há possibilidade de essa presença crescer
e fazer com que a área se torne uma base importante do terror.
Isso não chega a ser surpreendente. Além da forte imigração
árabe, a região está na interseção
de várias jurisdições e, por isso, é uma espécie
de terra de ninguém o tipo de situação ideal
do ponto de vista das organizações terroristas.
Veja Nos últimos anos, a preocupação
com a segurança interna levou os Estados Unidos a adotar medidas
polêmicas como a de fichar e colher as digitais de estrangeiros
que chegam ao país. Há quem considere essas medidas típicas
de um Estado policial. O senhor concorda com elas?
Carr
Não vejo nada de preocupante nessas medidas. A Constituição
americana garante a liberdade dos cidadãos, mas não somos
obrigados a aceitar que as pessoas mantenham atividades criminosas em
segredo. Os Estados Unidos estão em guerra contra o terror, e nessa
situação é natural que haja cuidado redobrado. Durante
a II Guerra, as pessoas provenientes do Japão, país que
combatíamos, foram impedidas de entrar nos EUA e os japoneses que
estavam aqui foram colocados em comunidades isoladas. Longe de mim defender
que algo assim se repita, mas o fato é que não há
nada de grave em tirar impressões digitais de viajantes oriundos
de países dos quais temos boas razões para desconfiar.
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