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Gustavo
Franco
Vivendo
perigosamente
"As
autoridades podem esperar que a
força da gravidade, os juros, o sucesso
das pressões contra a guerra e as reformas
prometidas
pelo novo governo façam cair
o risco Brasil e a taxa de câmbio. Seria ótimo."
Ilustração Ale Setti
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Qual é a diferença, na vida do cidadão comum, entre
uma inflação nos preços ao consumidor na faixa de
8% e outra na faixa de 13%?
Uma diferença de exatos 5% anuais pode parecer muita coisa, ainda
mais quando os juros nos Estados Unidos estão abaixo de 2% anuais.
Em termos práticos, todavia, essa diferença é muito
mais relevante lá nos EUA ou na Nova Zelândia do que no Brasil,
e por uma razão muito simples: o Brasil não é uma
economia desindexada, em que todos os contratos, inclusive os títulos
públicos, são prefixados e longos (vinte ou trinta anos).
No Brasil, quase todos os contratos e as relações econômicas
são indexados, porém com uma limitação legal
importante, a de que a periodicidade mínima para reajustes é
de um ano. Com inflação baixa, a gente nem percebe, mas
na presença de choques faz toda a diferença.
Na Nova Zelândia ou nos EUA, um pontinho a mais de inflação
causa enorme estrago, pois afeta contratos longos por toda a sua extensão,
ao passo que, no Brasil, o efeito só é sentido até
o reajuste. Essas perdas "intra-ano", causadas pela aceleração
da inflação e expressas pela redução no valor
médio real do contrato, são conhecidas como "o resíduo".
Sua ordem de grandeza é de uma fração da "defasagem",
ou do aumento na inflação, pois se trata apenas dos efeitos
financeiros do pagamento diferido. Nossas leis permitem, inclusive, que
em contratos com mais de três anos existam cláusulas permitindo
reajustes especiais para compensar essas perdas.
O leitor pode perfeitamente pensar nessa indexação garantida
em lei, anual e com permissão para cobrança de resíduo,
como um vírus letal, um resquício da hiperinflação
ainda não eliminado. Todavia, há grande serventia nesse
arranjo. Em vista de nosso passado, e como ninguém sabe o dia de
amanhã, a indexação funciona como uma espécie
de seguro para ambos os lados de um contrato, prevenindo o "desequilíbrio".
Na verdade, a indexação age como um tipo de "contrato coletivo"
pró-estabilidade, através do qual a sociedade adota a estabilidade,
mas cada um de seus membros fica protegido de surpresas, inclusive por
parte do governo.
Esse "contrato coletivo" pode ser reforçado pela adesão
da autoridade monetária a um sistema pelo qual esta presta uma
garantia de que empenhará seus melhores esforços para manter
a inflação em níveis baixos. Trata-se aí,
contudo, de "melhores esforços" e, idealmente, não de uma
versão muito neozelandesa e mecanicista do sistema de metas de
inflação, justamente para evitar que o Banco Central se
sinta obrigado a fazer grandes movimentos de juros em resposta a pequenos
movimentos da inflação.
De toda maneira, nem o contrato coletivo acima referido nem as metas de
inflação foram feitos para o Brasil de 2002, quando o câmbio
acumulou uma desvalorização de 52,3%, o dobro do que variou
o IGP-M 25,3% , o qual, por sua vez, foi o dobro dos 12,5%
de variação no IPCA. Foi um ano atípico, embora sempre
se possa perguntar o que é um ano típico.
Nesse ambiente meio indexado e meio esquisito do Atlântico Sul,
com vislumbres dos velhos tempos de inflação alta, foram
grandes e freqüentes os chamados "descasamentos", vale dizer, desequilíbrios
contratuais e patrimoniais derivados do fato de muitas empresas e pessoas
físicas terem dívidas e custos em dólares ou em IGP-M
e ativos e receitas atrelados ao IPCA. Aí se incluem empresas públicas,
concessionárias de serviços públicos e gente de todo
tipo. Deve ser claro ao leitor que política monetária restritiva
torna os efeitos financeiros de "descasamentos" muito piores do que já
são.
Os riscos de agravamento da inflação estão sobre
a mesa. Como é o câmbio que está comandando o processo,
as autoridades podem esperar que a força da gravidade, os juros,
o sucesso das pressões contra a guerra e as reformas prometidas
pelo novo governo façam cair o risco Brasil e a taxa de câmbio.
Seria ótimo. Mas se isso não acontecer o BC terá
diante de si a difícil decisão de infligir à sociedade
um enorme custo para terminar com uma inflação que muita
gente não verá como muito dolorosa.
Gustavo Franco
é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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